Cannes 2026 | ‘Fjord’ vence Palma de Ouro ao inverter debate sobre preconceito contra família cristã

spot_img
spot_img
DestaqueCannes 2026 | 'Fjord' vence Palma de Ouro ao inverter debate sobre preconceito contra família cristã

A 79ª edição do Festival de Cannes consagrou uma das vitórias mais debatidas dos últimos anos ao entregar a Palma de Ouro ao cineasta romeno Cristian Mungiu por Fjord. O júri presidido por Park Chan-wook destacou a “coragem moral” do filme e sua capacidade de provocar debates sem recorrer a simplificações ideológicas. A escolha confirmou o tom político e identitário desta edição, marcada por obras sobre memória, pertencimento e choque cultural. 

Estrelado por Renate Reinsve e Sebastian Stan, o longa acompanha uma família cristã conservadora romena que tenta reconstruir a vida na Noruega, mas acaba enfrentando hostilidade em uma sociedade progressista incapaz de aceitar seus valores culturais e religiosos. 

Tilda Switon entrega Palma de Ouro a Cristian Mungiu por Fjord (Foto: divulgação/ Cannes 2026)
Tilda Switon entrega Palma de Ouro a Cristian Mungiu por Fjord (Foto: divulgação/ Cannes 2026)

Ao inverter o perspectivas tradicionalmente adotado pelo cinema europeu contemporâneo, Mungiu constrói um drama moral provocador sobre intolerância ideológica, pertencimento e os limites do progresso quando este passa a rejeitar diferenças em nome da uniformidade social. Sem transformar seus personagens em mártires nem em vilões absolutos, Fjord aposta justamente na ambiguidade humana para questionar como sociedades consideradas abertas podem também produzir exclusão.

Leia também: Entrevista | “A arte não precisa resolver problemas”: Sebastian Stan e Mungiu debatem polarização política em ‘Fjord’ (Cannes 2026)

A vitória marca a segunda Palma de Ouro da carreira de Cristian Mungiu — a primeira foi por 4 meses, 3 semanas e 2 dias, em 2007 — e reforça o retorno do diretor ao centro do cinema político europeu. Conhecido por retratar conflitos éticos com rigor quase documental, o cineasta entrega aqui uma obra menos austera emocionalmente, porém igualmente afiada em sua crítica social. A obra também foi vencedora do prêmio da FIPRESCI, a Federação Internacional de Críticos de Cinema.

Noite histórica marcada por três empates

A cerimônia também ficou marcada por um feito inédito: três empates em categorias principais, algo sem precedentes na história recente do festival. O primeiro deles ocorreu na categoria de melhor interpretação feminina, entregue às atrizes Virginie Efira e Tao Okamoto por suas atuações em De repente (Soudain/ All of a Sudden)  dirigido por Ryûsuke Hamaguchi

Virginie Efira e Tao Okamoto ganham Palma de Ouro por Soudain/ All of a Sudden (Foto: reprodução Cannes 2026)
Virginie Efira e Tao Okamoto ganham Palma de Ouro por Soudain/ All of a Sudden (Foto: Divulgação Cannes 2026)

Emocionada, Virginie foi às lágrimas ao escutar o anúncio e destacou a beleza da amizade feminina retratada no longa. “Nunca vimos duas amigas assim desde Thelma & Louise”, afirmou a atriz, em referência ao clássico de 1991 de Ridley Scott, homenageado no cartaz oficial desta edição do festival.

Outro momento de grande emoção aconteceu com o prêmio de melhor interpretação masculina, concedido conjuntamente aos jovens Emmanuel Macchia e Valentin Campagne por Covarde (Coward), do diretor belga Lukas Dhont.

Emmanuel Macchia e Valentin Campagne ganham Palma de Ouro por 'Covarde' (Foto: reprodução Cannes 2026)
Emmanuel Macchia e Valentin Campagne ganham Palma de Ouro por ‘Covarde’ (Foto: Divulgação Cannes 2026)

O filme retrata um grupo de soldados que organizava apresentações de dança, teatro e música para entreter companheiros durante a Segunda Guerra Mundial. Muitos interpretavam papéis femininos sob um acordo tácito de cumplicidade entre os militares. Contudo, um jovem tímido acaba desenvolvendo sentimentos mais profundos por um dos performers, em uma narrativa sensível sobre desejo, identidade e afeto em tempos de guerra.

O empate triplo que consagrou estilos opostos

O terceiro empate da noite foi ainda mais surpreendente: duas produções dividiram o prêmio de melhor direção. A dupla espanhola Javier Calvo e Javier Ambrossi, conhecidos como “Los Javis”, venceu por La Bola Negra, obra poética inspirada em uma peça perdida de Federico García Lorca. O longa utiliza a reconstrução artística como instrumento de defesa da liberdade sexual e da memória cultural.

Javier Calvo e Javier Ambrossi recebem prêmio de Direção por 'La Bola Negra' (Foto: Divulgação Cannes 2026)
Javier Calvo e Javier Ambrossi recebem prêmio de Direção por ‘La Bola Negra’ (Foto: Divulgação Cannes 2026)

Em contraste de estilo, o polonês Pawel Pawlikowski também foi premiado por Fatherland, austero drama em preto e branco sobre o retorno do escritor Thomas Mann à Alemanha dividida após 16 anos de exílio nos Estados Unidos.

Veja também: Entrevista | “É um momento importante para falar sobre Thomas Mann e sua agenda política”, diz Sandra Hüller em Cannes (EXCLUSIVO)

Apesar das diferenças formais entre os filmes, ambos compartilham o interesse por grandes figuras literárias e pelas marcas deixadas pelo exílio, pela repressão e pela identidade europeia.

Pawel Pawlikowski recebe palma de Melhor Direção por Fatherland, empate do júri (Foto: divulgação Cannes 2026)

Barbra Streisand recebe Palma de Ouro honorária

Após as homenagens a Peter Jackson e John Travolta ao longo desta edição, Barbra Streisand tornou-se a terceira personalidade a receber uma Palma de Ouro honorária em Cannes 2026. A artista, porém, não pôde comparecer à cerimônia devido à recuperação de uma lesão no joelho. Em comunicado enviado aos jornalistas, Streisand agradeceu a homenagem e lamentou sua ausência:

Sob orientação dos meus médicos, enquanto continuo me recuperando de uma lesão no joelho, infelizmente não posso comparecer ao Festival de Cannes este ano. Estou profundamente honrada em receber a Palma de Ouro honorária e estava ansiosa para celebrar os filmes extraordinários desta 79ª edição.”

Lista completa dos vencedores da 79ª edição do Festival de Cannes

Competição Oficial

Palma de Ouro

Fjord, de Cristian Mungiu

Grande Prêmio do Júri

Minotaure, de Andreï Zviaguintsev

Prêmio do Júri

L’Aventure rêvée (Das geträumte Abenteuer), de Valeska Grisebach

Melhor Direção (empate)

Javier Calvo e Javier Ambrossi, por La Bola Negra
Pawel Pawlikowski, por Fatherland

Melhor Roteiro

Emmanuel Marre, por Notre Salut 

Melhor Atriz

Virginie Efira e Tao Okamoto por De repente (Soudain/ All of a Sudden)

Melhor Ator

Emmanuel Macchia e Valentin Campagne por Covarde (Coward)

Curtas-Metragens

Palma de Ouro de Curta-Metragem

Para los Contrincantes, de Federico Luis

Un Certain Regard

Prêmio Un Certain Regard

Everytime, de Sandra Wollner

Prêmio do Júri

Elefantes na névoa, de Abinash Bikram Shah

Prêmio Especial do Júri

Iron Boy, de  Louis Clichy

Melhor Ator

Bradley Fiomona Dembeasset por Congo Boy

Melhor Atriz

Marina de Tavira, Daniela Marín Navarro e Mariangel Villegas por Siempre Soy Tu Animal Materno

Caméra d’Or

Melhor Primeiro Filme

Ben’imana, de Marie-Clémentine Dusabejambo

La Cinef

Primeiro Prêmio

Laser-Gato, de Lucas Acher (NYU, EUA)

Segundo Prêmio

Silent Voices, de Nadine Misong Jin (Columbia University, EUA)

Terceiro Prêmio (empate)

Aldrig Nok, de Julius Lagoutte Larsen (La Fémis, França)
Growing Stones, Flying Papers, de Roozbeh Gezerseh e Soraya Shamsi (Filmuniversität Babelsberg Konrad Wolf, Germany)

Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

Notícias

10 filmes irresistíveis para assistir agarradinho

Você está com seu amor em busca de fechar...