Na última terça-feira (19 de maio), a equipe de Fjord transformou a coletiva de imprensa em um dos debates mais políticos e filosóficos desta edição do Festival de Cannes. O diretor Cristian Mungiu e o elenco, liderado por Sebastian Stan e Renate Reinsve, discutiram temas como intolerância, imigração, religião e os limites entre liberdade individual e intervenção do Estado.
Inspirado em casos reais envolvendo famílias estrangeiras na Noruega, Fjord acompanha o choque entre valores tradicionais e políticas sociais progressistas. Na narrativa, autoridades passam a interferir na dinâmica familiar e na criação de crianças, abrindo espaço para um debate sobre até que ponto o Estado pode agir em nome da proteção social.
Filme construído a partir de pesquisa extensa
Mungiu explicou que levou quase uma década pesquisando histórias semelhantes antes de transformar o tema em ficção: “Eu nunca reenceno fatos reais”, afirmou o diretor. “Gosto de partir de acontecimentos verdadeiros para falar sobre algo que considero importante na sociedade contemporânea.”

A pesquisa incluiu entrevistas com parlamentares, policiais, juízes, ONGs, jornalistas e famílias envolvidas em disputas judiciais. O cineasta também acompanhou audiências na Noruega para compreender os mecanismos institucionais por trás desses conflitos.
Ambiguidade e polarização como eixo central
Durante a coletiva, Mungiu defendeu que Fjord não deve ser interpretado como uma crítica simplista à Noruega, mas como uma reflexão sobre sociedades contemporâneas cada vez mais polarizadas.
Para ele, o filme trata do embate entre valores tradicionais e progressistas em um mundo globalizado que, paradoxalmente, estaria cada vez mais dividido. “O primeiro passo para entender o outro é escutar”, afirmou. “Talvez também duvidar de que você esteja completamente certo.”
O diretor também destacou a importância da ambiguidade no cinema. “A vida é ambígua. Se você faz cinema inspirado na realidade, o filme também deve ter essa ambiguidade.”

Em outro momento, criticou a tendência de dividir grupos sociais entre aqueles considerados legítimos e aqueles vistos como ameaça. Para Mungiu, essa lógica pode levar a formas de autoritarismo simbólico. “Ou existem minorias e você defende seus direitos, ou não”, apoia o cineasta. “Não acredito que alguém tenha autoridade para decidir quais minorias merecem ser defendidas.”
Ele ainda relacionou o avanço de discursos de extrema direita em diferentes países ao aumento da polarização política global, incluindo reações a posições progressistas: “O que acontece hoje com a extrema direita é também uma reação ao que acontecia antes. Quando qualquer lado tenta impor seus valores, acaba provocando o efeito contrário.”
Sebastian Stan: “A arte deve incorporar, não resolver”
Um dos momentos mais comentados da coletiva veio com Sebastian Stan, ao refletir sobre o papel da arte em um contexto de radicalização política. Questionado sobre experiências pessoais com discriminação e olhares paternalistas dirigidos a estrangeiros, o ator afirmou que o cinema deve abrir espaço para conversas difíceis, mesmo sem oferecer respostas definitivas.
“Não estamos em um bom momento”, disse. “Tudo o que posso fazer é participar de filmes que tragam diferentes pontos de vista.” Stan citou o escritor George Saunders ao retomar uma ideia associada a Anton Tchekhov: “A arte não precisa resolver um problema. Ela apenas precisa incorporá-lo corretamente.”
O ator também comentou a repercussão política de O Aprendiz (2024), no qual interpretou Donald Trump, afirmando que o ambiente nos Estados Unidos se tornou “muito perigoso”, com relatos de ameaças, censura e pressão sobre artistas e veículos de imprensa.
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Renate Reinsve e o desafio de interpretar o “outro”
Renate Reinsve destacou que aceitou o projeto por confiança na visão de Mungiu e pelo desafio de interpretar uma personagem distante de sua própria realidade: uma mãe cristã conservadora de cinco filhos. “Eu adoro mergulhar em novos universos através do olhar do diretor”, afirmou. “Era uma personagem completamente distante de mim”, compartilhou.
Segundo a atriz, o método de Mungiu busca eliminar julgamentos morais e construir as cenas de forma mais objetiva, o que exige dos atores um trabalho baseado em observação e empatia. “Uma das coisas mais difíceis foi tentar compreender alguém cuja vida é completamente diferente da minha sem necessariamente julgá-la”, disse.

Stan também destacou o processo rigoroso de preparação do elenco. Parte dos ensaios aconteceu na Romênia, incluindo visitas a igrejas pentecostais e encontros com famílias religiosas para aproximar os atores do universo retratado no filme.
Com discussões sobre religião, imigração, identidade cultural, direitos das famílias e polarização política, Fjord acabou se transformando em um dos títulos mais debatidos de Cannes até agora. A recepção na coletiva reforçou o caráter do projeto como uma obra que evita respostas fáceis e tensiona leituras ideológicas de diferentes espectros políticos tanto da direita quanto da esquerda.




