Crítica | ‘Fjord’ transforma choque ideológico em forte candidato à Palma de Ouro (Cannes 2026)

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CríticasCrítica | 'Fjord' transforma choque ideológico em forte candidato à Palma de Ouro (Cannes 2026)

Das montanhas brancas cobertas de neve dessa pequena cidade da Noruega, não se espera ouvir o som brutal do martelo do julgamento. Mas é exatamente isso que Fjord faz: transforma o silêncio gélido da paisagem em uma avalanche moral, social e política, onde cada acusação derruba certezas e arrasta consigo tudo aquilo que os personagens acreditavam ser seguro. O que começa como um cotidiano austero e isolado vai lentamente desmoronando diante de um um sistema incapaz de compreender o que lhe escapa à norma. 

Na mostra competitiva do Festival de Cannes, o novo filme de Cristian Mungiu surge como um dos mais fortes candidatos à Palma de Ouro. O cineasta romeno, que venceu Cannes em 2007 com 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, retorna mais uma vez ao território que domina com precisão: o das ambiguidades morais que nos obrigam a confrontar nossos próprios limites éticos.

Ambientado nessa Noruega fria, lírica e visualmente hipnotizante, Fjord acompanha uma família pentecostal vivida por Sebastian Stan e Renate Reinsve. Os dois atores, que já haviam trabalhado juntos em Um Homem Diferente (2024), constroem aqui uma relação profundamente crível. Eles vivem um casal religioso, conservador, que educa os filhos segundo os princípios bíblicos: sem celulares, sem músicas mundanas, sem muitos dos hábitos considerados normais pela sociedade contemporânea.

Mas o filme vai além da simples discussão sobre educação rígida. Um dos elementos mais delicados da narrativa está justamente na maneira como determinadas opiniões religiosas passam a ser tratadas socialmente não apenas como divergências morais, mas como sinais de perigo. Em determinado momento, a crença da família de que o casamento entre pessoas do mesmo sexo seria pecado — uma visão fundamentada na leitura religiosa deles — passa a ser interpretada como possível sinal de intolerância, em um contexto em que discursos e práticas são avaliados sob crescente vigilância social.

Mungiu não parece interessado em validar discursos conservadores nem em atacar pautas progressistas. O que ele faz é questionar o momento em que uma sociedade deixa de se concentrar exclusivamente em atos de violência e passa a tensionar também pensamentos, crenças e opiniões que não correspondem ao consenso dominante. . O desconforto do longa nasce exatamente dessa zona cinzenta: até que ponto discordar moralmente de algo constitui uma ameaça real? E quando a proteção legítima das minorias se transforma numa lógica de exclusão de qualquer indivíduo que pense diferente?

Essa tensão cresce após um suposto caso de maus-tratos envolvendo a filha mais velha da família. Marcas em seu corpo despertam suspeitas e rapidamente o aparato estatal entra em ação. O que inicialmente parece uma investigação preventiva vai escalando até um desfecho mais grave: a possibilidade concreta de os pais perderem a guarda dos filhos.

Com brilhantismo, Cristian Mungiu jamais oferece respostas prontas. Não há vilões absolutos nem inocentes perfeitos. Há apenas pessoas presas dentro de sistemas ideológicos, culturais e legais que colidem o tempo inteiro.

Inspirado em casos reais ocorridos na Noruega envolvendo famílias estrangeiras acusadas de maus-tratos por diferenças culturais na criação dos filhos, Fjord expõe um debate profundamente contemporâneo: como sociedades modernas lidam com valores que consideram ultrapassados, mas que ainda fazem parte da identidade de milhões de pessoas?

Renate Reinsve entrega uma atuação extraordinária, sustentada por silêncios, olhares e uma dor crescente que nunca explode de maneira óbvia. Já Sebastian Stan abandona completamente qualquer vaidade para interpretar esse patriarca rígido, contido e constantemente acuado pelo olhar social ao redor.

O filme também provoca ao insinuar que estruturas estatais extremamente burocratizadas acabam transformando proteção infantil em mecanismos quase automáticos de intervenção, sem espaço suficiente para compreender nuances culturais ou religiosas. E isso torna tudo ainda mais desconfortável.

Ao final, Fjord não absolve nem condena ninguém. O julgamento permanece suspenso, como blocos de neve prestes a despencar de uma montanha. A imagem mais poderosa do filme talvez seja essa: quando todos já estão soterrados pela avalanche do julgamento — pais, filhos, comunidade e até o espectador —, a única saída possível parece ser partir. Não como fuga da culpa, mas como tentativa desesperada de encontrar um lugar onde ainda seja possível coexistir antes que toda diferença precise ser destruída.

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Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

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