Caminhando pelas amarguras de uma rotina sem muitas esperanças, mas tendo a força do sonhar como uma saída para as incertezas do presente, o simpático curta-metragem mato-grossense Sacas de Areia contorna um recorte no cotidiano de uma senhora, moradora de Cuiabá, compreendendo o novo momento de sua vida em meio às frustrações e a esperança de dias melhores.
Dona Nena (Bia Correa) mora em uma casa humilde no subúrbio de Cuiabá com seus netos. Após ser diagnosticada com uma hérnia, é demitida do trabalho. Não deixando de ser mais um recomeçar, passa a vender bolos para ajudar na renda da família. Quando ganha uma assistente virtual Alexa no bingo, começa a perceber os sonhos chegando com intensidade, mas as decepções também.
Trazendo paralelos com o dia a dia de muitos de nós, brasileiros que lutamos pelo nosso ganha-pão, pegando aquele ônibus lotado, convivendo com os problemas da cidade e juntando no limite o dinheiro para pagar as contas em dia, essa obra nos leva direto para um espelho social certeiro e de fácil assimilação. Utilizando o humor e o drama, na medida correta, desenvolve com fluidez suas poucas, mas profundas reflexões.
A trama se arrisca em um contemplar mais do que se desenvolver em camadas, fato que estaciona a narrativa em um cantinho de poucos caminhos. Mesmo assim, tem o sonho como elemento alegórico para abordar a vida na cidade, sem esquecer de traduzir, em sentimentos conflitantes, as lições do afeto, as interações da melhor idade com a tecnologia e desfilar, mesmo que de maneira superficial, por alguns problemas sociais.
Com roteiro de Giovanni Ojeda e direção de Raphael Henrique, o projeto, selecionado para a Mostra Competitiva de Curtas-Metragens do Festival Cinemato 2026, insiste em explorar as relações familiares com a ternura do encontro com a liberdade que vem com os sonhos.
