Crítica | ‘La Noche esta Marchándose Ya’ – A saga de um transeunte preso ao próprio marasmo [Bonito CineSur 2026]

Olha, há alguns filmes que são recheados de boas intenções e até atingem em cheio seu principal tema do discurso. Porém, na hora de transformar em narrativa as peças de um roteiro, a princípio repleto de pontos interessantes, acabam embaralhando-se de uma forma pouco envolvente, o que pode dividir opiniões.

Em mais uma noite de Bonito CineSur 2026, em uma sessão que acabou perto das 23 horas, no Auditório Kadiwéu, no centro de convenções, fomos, com toda a atenção do mundo, assistir a um filme argentino que prometia demais pela sinopse, mas que aos poucos se atropela nas escolhas que são tomadas. Seduz pela falsa sensação de brilhantismo, por conta da elegância e eficiência de uma fotografia em preto e branco que chama mesmo a atenção, validando a melancolia e o paradoxo existencial que surgem através dos personagens. Entretanto, nem esses pontos positivos conseguem fazer milagre quando a narrativa não se torna efetivamente envolvente.

Com direção de Ezequiel Salinas e Ramiro Sonzini, La Noche esta Marchándose Ya nos leva até a curiosa história de Pelu (Octavio Bertone), um dos dois projecionistas de um cineclube de uma cidade dos nossos hermanos. Quando seu trabalho escapa de suas mãos por conta da crise, ele precisa agarrar com toda força a oportunidade de ser o vigia noturna do próprio lugar. Nessa mudança de função, começa a interagir com personagens que surgem, pessoas que enfrentam a mesma crise que ele, formando um grupo unido e que procurará a resistência.

Exalando críticas sociais e políticas de forma sutil, mas com relevância, por meio de silêncios constantes e transformando a cultura em um escudo contra as garras de um governo argentino que insiste em impor obstáculos e em não reconhecer o importante papel social que o cinema e outras artes possuem, esta obra caminha pelo lado certo da história na sua questão moral, gerando reflexões consistentes. Isso é um ponto, e é importante ser mencionado.

A grande questão é como se chega até isso. Com um ritmo lento e partes que não fazem a história andar pra frente, o foco se volta para a saga de um transeunte preso ao próprio marasmo, perdido em um paradoxo existencial que avança pelo não dito, sugerindo mais que explicando. Essa fórmula se mostra ineficiente para ganhar a atenção. Mesmo com méritos, o filme se arrasta ao longo dos seu mais de 100 minutos.

 

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Raphael Camacho
Raphael Camachohttps://guiadocinefilo.blogspot.com.br
Raphael Camacho é um profissional com mais de 20 anos de experiência no mercado cinematográfico. Ao longo de sua trajetória, atuou como programador de salas de cinema, além de ter trabalhado nas áreas de distribuição e marketing de filmes. Paralelamente à sua atuação na indústria, Raphael sempre manteve sua paixão pela escrita, contribuindo com o site Cinepop, onde se consolidou como um dos colaboradores mais antigos e respeitados deste que é um dos portais de cinema mais queridos do Brasil.