Os anos 1990 foram marcados por diversas produções que, por mais que não tenham tido uma recepção consideravelmente favorável à época, se tornaram clássicos cult e têm um lugarzinho especial no coração dos cinéfilos. Este é o caso de ‘Da Magia à Sedução’: lançado em 1998, o romance de fantasia estrelado por Sandra Bullock e Nicole Kidman nos apresentou às irmãs Owens, membros de uma linhagem de bruxas que sofre com uma maldição inescapável lançada por uma ancestral secular: qualquer pessoa que se apaixona por elas eventualmente morre em um trágico acidente, impedindo-as, de uma maneira bastante deturpada, de terem seus corações quebrados pelas mazelas do amor.
Como vimos no filme original, as irmãs performaram um ritual para quebrar essa maldição e, crentes de que estavam livres, seguiram suas vidas normalmente. Porém, quase trinta anos mais tarde, somos convidados a revisitar a saga das adoradas bruxas com o lançamento de ‘Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor’, que expande a mitologia dos romances de Alice Hoffman ao abrir portas para uma narrativa multigeracional que aposta no poder da família – e que, em meio a incontáveis clichês próprios do gênero, encontra um considerável sucesso ao não se levar a sério demais e a entregar exatamente aquilo que esperamos.

Após perder o marido e perceber que a maldição lançada por sua ancestral ainda acomete a linhagem das Owens, Sally (Bullock) decide renegar a magia que lhe foi concedida desde quando nasceu e lança um último feitiço para apagar a memória das filhas, Kylie (Joey King) e Antonia (Maisie Williams), de suas verdadeiras identidades, mesmo sendo avisada pela irmã, Gillian (Kidman) de que mentiras não conseguem ficar enterradas por muito tempo e que, eventualmente, as duas descobririam sobre suas habilidades inimagináveis. Décadas mais tarde, Sally percebe que cometeu um erro quando o namorado de Kylie, Gideon (Xolo Maridueña), para quem a jovem se declarou, sofre um grave acidente e entra em coma induzido.
Não leva muito tempo até que Gilly force a irmã a contar a Kylie quem elas realmente são, impulsionando a garota a cruzar o oceano para investigar as raízes da família e, munida de um poderoso e perigoso volume conhecido como o Livro dos Corvos, colocar um fim na maldição de uma vez por todas – antes que Gideon morra e ela se veja em um vórtice de tristeza e solidão, assim como todas as outras mulheres Owens. Enfurecida pela decisão da mãe de tê-la suprimido da verdade, Kylie parte sozinha para a pequena cidade de Thornfield, enquanto Sally e Gilly, acompanhadas pela sabedoria do sedutor e charmoso acadêmico Ian Wright (Lee Pace), correm contra o tempo para não apenas encontrá-la, mas salvá-la de um destino obscuro que pode colocar todos em ameaça imensurável.

O filme é dirigido por Susanne Bier, que, apesar de ter conquistado um Oscar há alguns anos por seu trabalho no longa ‘Em Um Mundo Melhor’, vem enfrentando uma espécie de fadiga criativa em seus últimos projetos – como os execráveis ‘Serena’ e ‘Bird Box’, além das esquecíveis séries ‘The Undoing’ e ‘O Casal Perfeito’. Entretanto, é algo quase engraçado notar que, quando ela não pretende “reinventar a roda” de um gênero que vem sendo explorado por todas as esferas da criatividade humana há milênios, a realizadora encontra um cândido território a ser explorado – e faz isso com um bem-vindo apreço pelo gênero fantástico, apoiando-se em um cosmos estruturado e constrito e que parte de uma ideia bastante conhecida.
A estética imprimida por Bier transforma a sequência em uma grande homenagem à produção original, levando-nos de volta para a década de 1990 e construindo uma ponte entre passado e presente que tem como carro-chefe a química entre Bullock e Kidman. Ambas retornam em boa forma às personagens que eternizaram e mantêm não só as peculiaridades de cada uma vivas, mas garantem que suas personalidades distintas caminhem para um ponto em comum que celebra o poder do amor e da família. E, enquanto se divertem nessa testamentária continuação, elas cultivam espaço para que os novos integrantes dos Owens tenham seu momento de brilhar – com destaque a uma interessante performance de King, mas desperdiçando o conhecido talento de Williams ao rebaixá-la para uma mera coadjuvante.

Trazendo ainda Stockard Channing e Dianne Wiest como as adoráveis Franny e Jetty, arrancando-nos algumas lágrimas furtivas em cenas que refletem o caráter dramático da obra, ‘Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor’ não é livre de erros – e aqui me refiro a certos diálogos que beiram a ridicularidade de tão forçados que se posam -, porém, tem o coração no lugar certo para nos encantar e nos relembrar de um dos clássicos de fantasia mais adorados pelo público.
Lembrando que o filme estreia em 10 de setembro nos cinemas nacionais.

