Hollywood adora ressuscitar projetos que pareciam completamente esquecidos, e ‘Cosmic Motors‘ é um daqueles casos curiosos que atravessaram mais de uma década no chamado ‘inferno do desenvolvimento’ antes de finalmente encontrar um caminho para as telas.
Lá em 2014, quando Michael Bay ainda vivia o auge comercial da franquia ‘Transformers‘, a Warner Bros. começou a desenvolver uma adaptação cinematográfica de ‘Cosmic Motors: Spaceships, Cars and Pilots of Another Galaxy‘, livro criado pelo designer alemão Daniel Simon. A combinação parecia praticamente perfeita: veículos futuristas espetaculares, naves espaciais, pilotos, mundos alienígenas e um dos cineastas mais associados a carros, explosões e efeitos visuais gigantescos de Hollywood.

Bay entrou no projeto como produtor, através de sua companhia, enquanto Kyle Ward foi contratado para escrever o roteiro. Na época, a imprensa chegou a especular sobre a possibilidade de Bay também assumir a direção, mas isso nunca chegou a ser oficializado. O que parecia ser o começo de uma potencial nova franquia, porém, acabou desaparecendo quase tão rapidamente quanto havia surgido.
A origem de ‘Cosmic Motors‘, porém, é muito mais interessante do que simplesmente mais uma tentativa de Hollywood de encontrar uma nova franquia. Daniel Simon é um dos designers de veículos mais respeitados da indústria, tendo trabalhado em projetos como ‘Tron: O Legado‘, ‘Capitão América: O Primeiro Vingador‘ e ‘Oblivion‘.
Em 2007, ele lançou o livro ‘Cosmic Motors‘, no qual imaginava veículos, naves e máquinas pertencentes a uma civilização completamente fictícia, acompanhando os desenhos com informações sobre pilotos, fabricantes e a própria cultura daquele universo. Não existia exatamente uma narrativa cinematográfica pronta para ser adaptada, e esse talvez tenha sido um dos maiores desafios da Warner: era necessário transformar um gigantesco catálogo de conceitos visuais em personagens, conflitos e uma história capaz de sustentar um blockbuster.
Para Michael Bay, entretanto, o material tinha um apelo evidente. O diretor havia acabado de transformar automóveis e máquinas gigantes em uma das franquias mais lucrativas da época com ‘Transformers‘, e ‘Cosmic Motors‘ poderia funcionar como o ponto de partida para outro universo visualmente extravagante.
Mas os anos passaram e a versão de ‘Cosmic Motors’ associada a Michael Bay simplesmente não aconteceu. Nenhum elenco foi anunciado, as filmagens nunca começaram e o projeto deixou de aparecer entre as prioridades da Warner Bros. O longa acabou entrando naquele enorme cemitério hollywoodiano de produções anunciadas com entusiasmo e que permanecem indefinidamente em desenvolvimento. O próprio Bay seguiu para outros projetos, incluindo novos capítulos de ‘Transformers‘, ‘13 Horas: Os Soldados Secretos de Benghazi‘, ‘Esquadrão 6‘ e ‘Ambulância: Um Dia de Crime‘, enquanto ‘Cosmic Motors‘ permaneceu praticamente esquecido durante mais de uma década. E havia uma ironia nisso tudo: em uma Hollywood cada vez mais desesperada por propriedades intelectuais que pudessem gerar franquias, o universo de Daniel Simon parecia ter todos os elementos visuais necessários para isso, mas continuava sem conseguir sair efetivamente do papel. Até que, muitos anos depois, o projeto reapareceu de uma forma que absolutamente ninguém teria imaginado.
Em vez de Michael Bay, explosões em live-action e uma gigantesca produção da Warner, ‘Cosmic Motors’ ressurgiu como uma animação da Skydance Animation comandada por John Lasseter, justamente um dos cineastas que mais entende de transformar carros em personagens. O nome dispensa grandes apresentações: Lasseter dirigiu o primeiro ‘Toy Story‘, ‘Vida de Inseto‘, ‘Toy Story 2‘, ‘Carros‘ e ‘Carros 2‘, além de ter exercido durante anos enorme influência criativa sobre a Pixar. A nova adaptação será codirigida por Louie del Carmen e representa uma abordagem completamente diferente daquela imaginada mais de uma década atrás. Se o envolvimento de Bay naturalmente fazia o público imaginar algo próximo de ‘Transformers no espaço’, a presença de Lasseter torna inevitável outra comparação: ‘Carros no espaço’. E talvez seja justamente essa mudança radical de perspectiva que tenha finalmente encontrado a maneira certa de transformar os desenhos e veículos de Daniel Simon em uma história cinematográfica acessível para um público muito maior.

A história ainda ganhou outra reviravolta nos bastidores. Inicialmente, essa nova versão de ‘Cosmic Motors’ estava sendo preparada para a Netflix, graças ao acordo de distribuição firmado pela plataforma com a Skydance Animation. Isso significava que, depois de aproximadamente 12 anos tentando chegar às telas, a propriedade finalmente seria transformada em filme — mas sequer passaria pelos cinemas. O cenário mudou completamente quando Netflix e Skydance/Paramount encerraram a parceria de distribuição. Com isso, ‘Cosmic Motors’ deixou o catálogo futuro do streaming e passou para as mãos da Paramount Pictures, que pretende lançar a animação nos cinemas em 2027. A mudança é particularmente curiosa porque devolve ao projeto justamente a escala de lançamento cinematográfico que a Warner imaginava quando começou a trabalhar na propriedade em 2014, ainda que praticamente todo o restante da concepção tenha mudado. Fonte: TheWrap.
E existe uma diferença importante que precisa ser ressaltada: não estamos exatamente diante do mesmo filme de Michael Bay sendo finalmente produzido 12 anos depois. A versão da Warner acabou engavetada e o novo ‘Cosmic Motors‘ é uma adaptação independente do mesmo material original de Daniel Simon, desenvolvida por outro estúdio, com outra equipe e uma proposta completamente diferente. Michael Bay não está envolvido na nova produção. Ainda assim, é impossível não olhar para a história como uma curiosa segunda chance para uma propriedade que Hollywood tenta transformar em cinema há mais de uma década. O que antes parecia destinado a ser um gigantesco blockbuster live-action agora será uma animação comandada pelo criador cinematográfico de ‘Carros‘, uma mudança que pode acabar fazendo muito mais sentido considerando que o grande diferencial de ‘Cosmic Motors‘ sempre esteve justamente na personalidade e no design extraordinário de suas máquinas.
Agora, ‘Cosmic Motors’ finalmente parece estar perto de fazer aquilo que Michael Bay e a Warner não conseguiram em 2014: realmente chegar aos cinemas. Ainda há muitas perguntas sem resposta sobre a animação, especialmente em relação à história, aos personagens, ao elenco de vozes e à data exata de lançamento, mas a Paramount já posiciona o longa para 2027. Depois de passar por Warner, Michael Bay, anos de silêncio, Skydance, Netflix e finalmente Paramount, poucos projetos recentes tiveram uma trajetória de desenvolvimento tão peculiar. E existe uma bela ironia hollywoodiana no resultado: um universo de carros e máquinas futuristas que um dia parecia perfeito para o diretor de ‘Transformers’ acabou encontrando seu novo lar justamente nas mãos do homem que transformou carros falantes em uma franquia multibilionária para a Disney e a Pixar. Doze anos depois, ‘Cosmic Motors‘ está de volta — só que muito, muito diferente daquilo que Hollywood originalmente imaginou.

