Tem algumas informações que a gente simplesmente não consegue – e nem deveria – colocar na calculadora. Esta é uma delas. Mas como amo a franquia, precisava te contar. Não se sinta velho: se sinta clássico. Rs.
‘Pânico’ (‘Scream’), lançado em 1996, completa 30 anos em 2026. Três décadas. Se você cresceu nos anos 90, provavelmente já sentiu uma pequena pontada no peito só de ler isso, porque na nossa cabeça ‘Pânico’ ainda parece um filme relativamente moderno, daquele tipo que a gente associa a VHS, locadora, MTV, telefone fixo e uma adolescência que parece ter acontecido ontem. Só que o calendário não está nem um pouco preocupado com a nossa nostalgia.
E a comparação que realmente assusta vem agora. Quando ‘Pânico’ chegou aos cinemas, ‘Psicose’ (‘Psycho’), de Alfred Hitchcock, tinha 36 anos. Ou seja, para um adolescente que descobria Ghostface, Sidney Prescott e Woodsboro em 1996, ‘Psicose’ já pertencia a uma outra época do cinema. Era aquele clássico em preto e branco que os pais conheciam, que aparecia em listas dos maiores filmes da história e que muita gente assistia quase como uma aula sobre o gênero. Pois bem: hoje, ‘Pânico’ está praticamente ocupando esse mesmo espaço para uma nova geração.
Sim, nós viramos os adultos que falam “você precisa assistir a esse clássico dos anos 90”.
Dói um pouquinho. Eu comecei o site por causa de ‘Pânico 3‘, lá em 1999. Tenho uma irmã jovem, e vivo indicando o filme pra ela. Ela odeia a franquia. Rs. Que DESESPERO! Minha própria irmã? Mas eu entendo. Quando era criança e assisti o ‘Psicose‘ original, não achava tudo isso. Não entendia tanto de cinema. Hoje, amo. Cada coisa no seu tempo, e cada filme é realmente para sua geração.
Mas muitos jovens embarcaram no “reboot” “requel” de 2022. E acho isso lindo. Realmente deu uma nova roupa para a franquia, mas quem é fã ainda prefere a roupa antiga. A trilogia original para mim é IMPECÁVEL! E o quarto filme só cresce no meu conceito, principalmente por que era à frente do seu tempo. As motivações da Jill (Emma Roberts)? Querendo sucesso às custas da prima? Precisa de fãs e não de amigos? Nunca esteve tão atual. Kevin Williamson era um visionário. Pena que colocaram ele de diretor do sétimo filme, e não de roteirista. Rs.

Confesso, mesmo gostando do sétimo filme pela nostalgia, é o mais fraco da franquia. Deixem a Sidney em paz. Ela já teve seu desfecho perfeito em ‘Pânico 3‘. Definitivo em ‘Pânico 4‘. Passou o bastão em ‘Pânico‘ (2022). “Retcon” desesperado em ‘Pânico 7‘.
‘Pânico 7‘ tinha a faca e o queijo na mão. Mas se baseou apenas na nostalgia. Nada de novo. Um terceiro ato HORRÍVEL. Antes tivessem colocado o Stu de assassino. A crítica à IA e Deepfake foi tão leviana. Só valeu pena nostalgia. E eu me diverti. Mas não tem uma crítica social forte. Apenas nostalgia.
Mas também é maravilhoso perceber como o filme de Wes Craven envelheceu tão bem.
Quem viveu aquele momento sabe que ‘Pânico’ era absolutamente novo quando chegou. O slasher já havia passado por todo tipo de fase. Michael Myers, Jason Voorhees e Freddy Krueger já tinham virado ícones, ganhado continuações, retornado da morte várias vezes e se tornado praticamente personagens da cultura pop. Então apareceu um filme em que os próprios jovens conheciam todos esses filmes, sabiam quais eram os clichês e discutiam abertamente as regras que normalmente determinavam quem sobrevivia e quem terminava com uma faca no peito.
Aquilo era muito divertido porque parecia que o filme estava conversando diretamente com a gente.
E, talvez por isso, ainda funcione tanto.

A abertura com Drew Barrymore continua sendo uma das grandes cenas do terror moderno. Você pode conhecer cada segundo, pode saber exatamente quando Ghostface vai aparecer, pode lembrar cada resposta daquele jogo macabro pelo telefone e mesmo assim existe uma tensão absurda naquela sequência. É uma daquelas cenas que você revê sabendo tudo o que vai acontecer e ainda pensa: “Meu Deus, corre!”.
Aliás, o telefone talvez seja uma das coisas que mais denunciam a idade de ‘Pânico’.
Imagine mostrar o filme hoje para uma criança ou adolescente que nasceu no mundo do smartphone. Um sujeito liga para um telefone fixo. A pessoa atende sem saber quem é. Continua conversando. Não existe identificação de chamada como conhecemos hoje, não existe WhatsApp, não existe localização compartilhada, não existe mandar uma mensagem para dez amigos em dois segundos.
Para quem nasceu conectado, Woodsboro parece quase uma civilização perdida.
E é engraçado porque nós fazíamos exatamente a mesma coisa quando víamos filmes antigos. Assistíamos a ‘Psicose’ e estranhávamos os carros, as roupas, o jeito das pessoas falarem, a forma como viajavam, os hotéis de estrada e aquela América que parecia existir em algum passado distante. Hoje alguém de 15 anos pode olhar para o primeiro ‘Pânico’ e sentir exatamente isso.
Só que existe uma diferença importante: a tecnologia de ‘Pânico’ envelheceu muito mais do que o próprio filme.
A estrutura continua ótima. Os personagens continuam carismáticos. O humor funciona. Os diálogos têm velocidade. O mistério continua divertido. E, principalmente, Sidney Prescott continua sendo uma protagonista maravilhosa.
Esse talvez seja um dos maiores segredos da franquia.
‘Pânico’ nunca foi apenas sobre Ghostface.
Claro, a máscara virou uma das imagens mais reconhecíveis do terror. Hoje ela está tranquilamente ao lado de Michael Myers, Jason e Freddy no panteão dos monstros do gênero. Mas a franquia sempre funcionou porque existiam pessoas por trás daquela história com quem o público realmente se importava.
A gente torcia por Sidney. A gente gostava de Dewey. A gente adorava odiar Gale Weathers em alguns momentos e amar Gale em outros. Randy era aquele amigo cinéfilo que todos nós queríamos ter por perto durante um massacre, ainda que talvez não fosse a melhor pessoa para garantir nossa sobrevivência.
E aí aconteceu uma coisa curiosa.
Ghostface virou exatamente aquilo que o primeiro filme comentava. Um ícone.
Em 1996, ‘Pânico’ brincava com a mitologia criada pelos slashers dos anos 70 e 80. Agora existe uma geração inteira fazendo referência a ‘Pânico’ da mesma maneira que o filme fazia referência a ‘Halloween’.
Sidney Prescott virou uma das grandes final girls da história.
Neve Campbell hoje tem dentro do terror uma importância parecida com a que Jamie Lee Curtis já carregava quando ‘Pânico’ nasceu.
E Ghostface já não é mais o “novo assassino” que chegou para bagunçar as regras.
Mas ‘Pânico 7‘ mostrou, pela primeira vez, desgaste na franquia. Eu entrevistei Kevin Williamson e ele me contou seus planos originais para o quinto e sexto filme que foram cancelados. GENIAIS.
Se ‘Pânico 8‘ acontecer, precisam mudar o foco. Colocar um diretor realmente conceituado. Mudar o foco, já que não temos mais Sam Carpenter. Focar o filme na Gale (Courteney Cox)? Ela realmente poderia segurar um filme.
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