Um dos primeiros filmes que vi da competição Novos Rumos da Première Brasil do festival do Rio 2026, Jardim dos Silêncios foi me conquistando aos poucos. Escrito e dirigido por Henrique Dantas, o longa-metragem, uma coprodução Brasil-Itália, movimenta o silêncio de forma inquietante, nos levando até uma trama intimista que requer paciência, se desenvolvendo de forma lenta e com uma riqueza de detalhes, com ótimos atalhos para chegarmos a profundas reflexões sobre a dicotomia mundana entre a morte e a vida.
O médico Tuã (Fabrício Boliveira), mora na Itália há muito tempo, para onde foi com a mãe quando ainda era criança, após os abalos profundos provocados pela ditadura militar no Brasil. Quando sofre uma perda, resolve voltar ao Brasil, mais precisamente para casa dos avós, na Bahia. Nesse retorno, passa a se reconectar com sua família e com suas raízes, o levando para uma jornada de redescobertas e amadurecimento para enfrentar os desafios futuros, como a gravidez da namorada italiana.

Sentidos de morte e vida, passado e presente se misturam, nos levando a um complexo mosaico ao longo do desenvolvimento do protagonista, que, por muito tempo, viveu em grandes conflitos emocionais adormecidos. Cada situação é pincelada de forma harmônica, com um roteiro que apresenta segredos de família, dores do passado, cultural ancestral e espiritualidade, como se fossem algumas portas que se abrem, o fazendo sair de um estado de luto para um despertar.

Os ótimos diálogos entre neto e avós – com direito a cenas belíssimas entre Fabrício Boliveira e Helena Ignez – solidificam uma dinâmica familiar com arestas a serem resolvidas, tendo o passado como um labirinto de possibilidades que chegam até mesmo a um contexto de um país marcado pela falta de justiça e que destruiu ou separou diversas famílias nos seus períodos mais sombrios. E esse é um dos grandes méritos do roteiro: conversar com a realidade.
Jardim dos Silêncios é sobre o que sentimos e não entendemos. Os sopros da despedida, a chegada do novo e o que deixamos de legado chegam como complemento de tudo que acompanhamos ao longo dos 93 minutos de projeção. Interessantíssimo filme.


