Visto durante o Festival do Rio 2026, 100 Dias é o tipo de filme brasileiro que não esconde sua vontade de emocionar, inspirar e deixar o público com um sorriso no rosto.
Carlos Saldanha, de ‘Rio 1 e 2’, transforma a histórica travessia de Amyr Klink pelo Atlântico Sul em uma aventura grandiosa, colorida e cheia de energia, quase como uma versão nacional de As Aventuras de Pi. A comparação surge naturalmente pela presença de um homem sozinho em uma pequena embarcação, cercado por um oceano que deixa de ser apenas cenário e se transforma em personagem, ameaça, confidente e espelho emocional. Não tem o leão, mas tem a aventura.
A diferença é que Amyr não nasceu da imaginação de um escritor. Em 1984, aos 29 anos, ele partiu de Lüderitz, na Namíbia, a bordo do pequeno barco a remo IAT. Foram cerca de cem dias e mais de 3.500 milhas náuticas até a Praia da Espera, no litoral da Bahia. Sem GPS, internet ou qualquer uma das facilidades tecnológicas disponíveis atualmente, ele precisava cuidar sozinho da navegação, da alimentação, da comunicação e da manutenção da embarcação. A façanha seria posteriormente narrada no livro Cem Dias Entre Céu e Mar, que serve de base para o longa.

Só que 100 Dias não pretende reproduzir o livro como se fosse um documentário. O próprio Amyr deu liberdade para que Saldanha transformasse suas memórias em cinema, e o diretor aproveita essa autorização para construir uma aventura mais emocional, dinâmica e acessível. A jornada marítima é intercalada com lembranças da infância, conflitos familiares e passagens que procuram explicar de onde veio a obsessão daquele jovem pelo mar. O resultado é uma narrativa não linear que se interessa tanto pelo homem dentro do barco quanto pelo feito histórico que o tornaria conhecido no mundo inteiro.
Na história real, Amyr sempre destacou que os momentos mais difíceis aconteceram antes da partida. A burocracia para transportar o barco até a África, a busca por apoio e os anos de planejamento quase impediram que a viagem começasse. Ele não entrou no oceano movido apenas por coragem ou impulso. Era um homem extremamente metódico, que estudou correntes marítimas, desenhou sua embarcação especialmente para a travessia e organizou cada aspecto da rotina. No filme, essa preparação aparece de maneira condensada, enquanto as tempestades, os encontros com animais e o desgaste emocional recebem mais espaço.
É uma mudança compreensível, porque uma produção de aventura precisa transformar cálculos, rotas e dias repetitivos em imagens que mantenham o espectador interessado.
Saldanha também amplia o peso das relações familiares, especialmente a convivência de Amyr com a mãe, Asa Frieberg Klink, interpretada por Philippine Leroy-Beaulieu, e com o pai, Jamil Klink, vivido por Felipe Camargo. O longa transforma essas lembranças em parte central do processo de amadurecimento do protagonista. Algumas conversas foram reorganizadas, situações foram comprimidas e os sentimentos aparecem de forma muito mais direta do que nos relatos do navegador. São liberdades criativas evidentes, mas que ajudam a dar ao filme uma estrutura dramática e impedem que tudo se resuma a quase duas horas de um homem remando.
É justamente nessa mistura de realidade e imaginação que aparece o melhor trabalho de Carlos Saldanha. Conhecido por animações como Rio, O Touro Ferdinando e os filmes da franquia A Era do Gelo, o diretor leva para sua primeira grande aventura brasileira em ação real o mesmo olhar brincalhão, colorido e ligeiramente fantasioso de suas produções animadas. O mar ganha personalidade, as memórias invadem o presente e determinados encontros são filmados como pequenas fábulas. Há momentos em que 100 Dias parece menos interessado em mostrar exatamente o que aconteceu e mais preocupado em transmitir como Amyr pode ter se sentido diante daquela imensidão, com cores neons e baleias pulando.
Essa abordagem deixa o filme estiloso e surpreendentemente leve. Mesmo quando o protagonista está diante de ondas enormes, tubarões ou da possibilidade real de morrer sozinho, a produção preserva um espírito alto-astral. Existe humor, encanto e uma curiosidade quase infantil diante da natureza. O oceano assusta, mas também fascina. A bela fotografia de Rodrigo Monte sabe explorar essa dualidade, alternando a vastidão azul do Atlântico com a intimidade sufocante do pequeno iate. A luz do amanhecer, as noites em alto-mar e a mudança das cores ao longo da viagem ajudam a transmitir a passagem do tempo sem transformar a travessia em uma sequência cansativa de dias idênticos.

Os efeitos visuais, infelizmente, não acompanham a qualidade da fotografia. Em planos mais abertos, a integração entre o barco, o tanque de filmagem e o oceano digital fica bastante perceptível. Algumas ondas, animais e extensões do horizonte têm acabamento artificial, quebrando a imersão justamente nos momentos que deveriam reforçar a dimensão épica da aventura. É uma limitação especialmente visível porque Saldanha pensa grande e enquadra o filme como uma superprodução. A ambição está na tela, mas o orçamento nem sempre consegue acompanhá-la.
Nada disso compromete o excelente trabalho de Filipe Bragança, que entrega uma atuação física, carismática e emocionalmente generosa como Amyr. O ator perdeu peso, aprendeu a remar e passa boa parte do longa praticamente sozinho, dependendo do próprio corpo, do olhar e da voz para sustentar a narrativa. Sua interpretação não tenta imitar Amyr de maneira mecânica. Bragança encontra uma versão cinematográfica do navegador, teimosa, curiosa, engraçada e vulnerável. Mesmo quando o roteiro coloca frases excessivamente inspiradoras em sua boca, o ator consegue preservar alguma espontaneidade.
O elenco que o acompanha também é ótimo. Philippine Leroy-Beaulieu, de ‘Emily Em Paris‘, dá presença, calor e personalidade à mãe de Amyr, enquanto Felipe Camargo transforma a figura paterna em algo mais complexo do que um simples obstáculo na trajetória do filho. João Vitor Silva, como Tymur Klink, ajuda a tornar as cenas familiares mais vivas, e Gero Camilo aproveita cada aparição com a naturalidade e o carisma de sempre. É um elenco muito bem escolhido, capaz de fazer até os momentos mais calculadamente emocionais funcionarem.
O principal problema de 100 Dias está no roteiro de Elena Soarez e Thais Tavares, que parece desconfiar da força da própria história. A travessia de Amyr já representa coragem, disciplina, persistência e autoconhecimento. Não seria necessário explicar essas ideias o tempo inteiro. Ainda assim, o filme frequentemente interrompe a aventura para oferecer mais uma frase de efeito, uma lembrança edificante ou uma conclusão sobre vencer os próprios medos.
Em determinados momentos, a produção se aproxima perigosamente de um manual de autoajuda filmado em alto-mar. Cada dificuldade precisa ensinar alguma coisa. Cada recordação parece preparada para justificar uma escolha futura. Cada silêncio corre o risco de ser preenchido por uma mensagem sobre acreditar em si mesmo. É aí que o longa fica cafona e perde parte da naturalidade que Filipe Bragança e o restante do elenco trabalham tanto para construir. As melhores cenas são justamente aquelas em que Saldanha deixa o mar, o rosto do ator e o som da embarcação falarem por conta própria.

Mesmo com esses excessos, é difícil sair de 100 Dias sem admirar a história que está sendo contada. O cinema brasileiro costuma buscar inspiração em personagens estrangeiros quando possui figuras extraordinárias como Amyr Klink dentro de sua própria história. Há algo genuinamente emocionante em ver uma produção desse tamanho celebrando a inteligência, a coragem e a capacidade de planejamento de um brasileiro que decidiu atravessar um oceano em um barco a remo.
100 Dias poderia confiar mais no público e oferecer menos lições prontas, assim como precisava de efeitos visuais mais convincentes para sustentar toda a grandiosidade imaginada por Carlos Saldanha. Ainda assim, sua fotografia bonita, o espírito aventureiro, a direção cheia de personalidade e um elenco principal impecável fazem do longa uma experiência envolvente e alto-astral. É o nosso As Aventuras de Pi, sem tigre, mas com uma história real tão improvável que parece ter nascido para o cinema. Quem vai desvendar os mistérios do mar?


