Crítica | Hayley Atwell e David Oyelowo brilham na divertida adaptação de ‘A Ilha do Tesouro’

Em 1883, Robert Louis Stevenson lançava seu primeiro romance oficial com ‘A Ilha do Tesouro’ – que se tornou um clássico incontestável da literatura mundial e, até hoje, é revisitado por diversos artistas e membros do cenário cultural por causa dos tropos das histórias de pirata que eternizou. Nos apresentando a Jim Hawkins e a Long John Silver, dois dos personagens mais marcantes desse expressivo gênero narrativo, os escritos de Stevenson influenciaram diversas produções cinematográficas e televisivas, incluindo a franquia ‘Piratas do Caribe’ e a animação ‘Planeta do Tesouro’. Agora, somos convidados a conhecer mais uma adaptação do livro com o recente lançamento da minissérie ‘A Ilha do Tesouro’, na plataforma do MGM+.

Contando com seis episódios, a trama nos apresenta a Jim Hawkins (Tom Sweet) e à sua mãe, Bess Hawkins (Hayley Atwell), que administram uma pousada litorânea e aproveitam a incrível habilidade de memória fotográfica do menino para conseguir um dinheiro extra – ainda que atraiam olhares de desprezo dos clientes. Porém, as coisas viram de ponta de cabeça quando eles encontram, escondido no porão da estalagem, um marinheiro chamado Billy Bones (Tomer Capone), que escapou das garras do perigoso Long John Silver (David Oyelowo) com um importante mapa que contém a localização de um lendário tesouro pertencente ao corsário Francisco Flint e que está escondido a sete chaves.

Bess e Billy, então, acabam forjando um relacionamento romântico que chega ao fim abruptamente com a chegada de Long John, que o assassina à queima-roupa e é capturado pela marinha escocesa, enquanto Bess ateia fogo no mapa – mas não antes de Jim decorar todas as coordenadas. Assim, a dupla consegue passagem em um navio conhecido como Hispaniola e que parte rumo ao mesmo lugar onde o tesouro de Flint está enterrado. O que eles não contavam é que Long John conseguiria escapar da prisão e ser escalado como membro da tripulação, colocando um ponto de interrogação no futuro de cada um deles.

Como já mencionado, ‘A Ilha do Tesouro’ já foi adaptado incontáveis vezes para o cinema e para a televisão – e talvez o ponto de maior sucesso da série do MGM+ seja seu caráter totalmente despojado. Robert Murphy, que fica responsável pela criação da minissérie, aposta fichas em uma construção clássica dos anos 1990 e mantém um ritmo relativamente sólido ao longo dos capítulos – por mais que, volta e meia, o tempo das iterações seja longo demais e dê espaço para cenas arrastadas e cuja carga dramática definitivamente não cabe dentro do escopo aventuresco da produção. Entretanto, no geral, os elementos funcionam mesmo cerceados pelos limites de orçamento, deixando que o elenco forneça sua própria visão dos personagens.

Murphy, tomando as rédeas também do roteiro, escala Jeremy Lovering, William McGregor e Paul Walker para assumir a cadeira de direção e garantir que haja uma identidade clara a ser seguida – e que amarre as pontas soltas e os múltiplos arcos que são delineados. A atmosfera fabulesca é reiterada pela “suspensão da descrença” que Murphy emprega na narrativa e que, apesar do respaldo histórico e que nos leva aos tempos da dominação pirata dos mares europeus. Ainda que os trâmites políticos tenham certo espaço para explicar as relações entre os marinheiros e o controverso código de conduta marítimo, a ideia aqui é nos levar a uma história simples e prática para nos deliciarmos em um final de semana qualquer.

O destaque maior, é claro, vai ao elenco: Oyelowo promove sua própria versão de Long John Silver e consegue incrementar a conhecida personalidade do icônico vilão com um semi-arco de redenção que esquadrinha um lado mais empático, por mais que ele retorne às raízes do antagonista a fim de encerrar sua trajetória. Atwell, por sua vez, tem um trabalho mais complicado, visto que Bess é uma personagem inédita no universo de Stevenson, emergindo como uma forte personagem feminina que tem um objetivo muito claro em mente – e que, por essa razão, premedita sua ruína. E, em meio ao poder performático dessa dupla, Sweet brilha como o sagaz e um tanto quanto petulante Jim, acompanhado de Jack Huston como Aaron Graham e Tristan Sturrock como o Capitão Smollett.

Se conseguirmos deixar de lado os múltiplos convencionalismos artísticos e técnicos de lado, ‘A Ilha do Tesouro’ posa como uma adaptação acima da média e que, mesmo não trazendo nada de novo ao público, tem como único objetivo um entretenimento passageiro e que nos mantenha vidrados do começo ao fim através de reviravoltas bastante conhecidas de inúmeras outras histórias do gênero e de um elenco que se entrega de corpo e alma a seus respectivos papéis.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.