Direto de Portland (EUA) — A convite da Laika, mergulhamos nos bastidores da mais ambiciosa superprodução em stop-motion do estúdio, um trabalho artesanal e tecnológico que levou 16 anos para chegar aos cinemas.
Dezesseis anos. Foi esse o tempo que O Bosque Selvagem (Wildwood), de Travis Knight, levou para chegar às telas nos cinemas brasileiros nesta quinta, dia 29 de outubro. Após seis indicações ao Oscar, o estúdio Laika aposta todas as suas fichas nessa superprodução estimada em mais de 100 milhões de dólares para conquistar pela primeira vez o prêmio e se consolidar entre os maiores estúdios de animação do mundo. Se a aposta dará certo, descobriremos daqui a cinco meses.
Para mim, essa espera ganhou rosto em 12 de maio de 2026, em Cannes, no primeiro evento do filme para o qual fui convidada. De lá para cá, foram cinco meses acompanhando as ações de maketing da produção até o convite principal: visitar a sede da Laika, em Portland, nos Estados Unidos, e ver com os meus próprios olhos de onde a magia nasce. Se você se encanta com stop-motion, saiba: este é um dos trabalhos mais minuciosos que a arte do cinema pode conceber.
A recepção já avisa onde você está. Há objetos de clássicos do estúdio espalhados pelo hall, um universo que parece existir há décadas, mas que é recente: o primeiro longa da casa, Coraline e o Mundo Secreto, é de 2009. Foi ali que posei para fotos ao lado de uma Coraline quase do meu tamanho.

Passada a entrada, mas antes de alcançar os sets de filmagem, a primeira sala já reserva uma surpresa: um hospital de bonecos. Membros destacados, partes de rostos de cada personagem, roupinhas em miniatura e até uma pequena ambulância. É um cuidado que parece demandar um sistema de saúde próprio, e que muda a forma como você caminha dali em diante. Cada passo dentro daquelas paredes enormes, separadas por dezenas de ilhas atrás de cortinas pretas, passa a importar mais.
Animação: quadro a quadro, pena por pena
A primeira parada foi no departamento de animação, com Brad Schiff. Ele começou nos apresentando à águia que ajuda a protagonista Prue a atravessar da cidade de concreto para o bosque secreto. Sobre barras de ferro, duas versões da mesma ave repousavam: o protótipo em aço — a estrutura nua que garante a articulação — e outra já coberta de plumas, cada uma pintada em um tom diferente. Escolher a cor, o movimento e a pressão exata de cada gesto é um trabalho de ourives. Cada segundo de voo na tela significa centenas de trocas manuais e reajustes na dobra dessas penas.
Indaguei a Brad se as descobertas da animação chegam a influenciar o roteiro, e a resposta foi direta: pouquíssimas coisas que surgem na mesa de animação alteram o que foi escrito. Uma das raras exceções foi o cabelo de Prue.
“O design dela prevê cabelo longo. E uma protagonista de cabelo longo é um desafio enorme para o stop-motion: é preciso descobrir como movê-lo de forma natural em um filme cheio de cenas dinâmicas, com ela correndo ou voando sobre o pássaro”, explica Brad. “É quase como desenhar um casaco ou uma capa; se está caindo, precisa parecer volumoso, fluir e ter dimensão.”

A saída veio após uma conversa com o diretor Travis Knight. Em certas sequências, como na clímax dinâmico do final, o cabelo de Prue passa a aparecer preso em um rabo de cavalo.
“Isso deixou o visual orgânico e virou um ponto da história: há um momento em que vemos Prue prendendo o próprio cabelo em cima do pássaro. Uma solução técnica da animação que se converteu em narrativa”, conta Schiff.
Parece um detalhe pequeno, mas resume a lógica da Laika: até o fio de cabelo de um personagem passa pelo filtro do tempo e da precisão.
Design de Produção: uma carta de amor a Portland
Adaptado dos livros infantis de Colin Meloy e Carson Ellis, O Bosque Selvagem acompanha a jornada de dois pré-adolescentes, Prue (Peyton Elizabeth Lee) e Curtis (Jacob Tremblay), em uma floresta mágica e oculta nos limites da cidade de Portland. Para o produtor executivo David Burke, o filme é centralmente sobre o amor: “Ele pode machucar, mas também pode curar”, destacou durante a apresentação dos departamentos.
Entre todos os encontros da visita, o meu favorito foi com Nelson Lowry, diretor de design de produção. Foi ele quem nos apresentou às maquetes em escala real de filmagem. São 132 locações construídas à mão (89 exteriores e 43 interiores), muitas delas recriando locais reais de Portland em detalhes impressionantes: mercados, armazéns, pontes e até a lendária Powell’s City of Books, uma das maiores livrarias independentes do mundo, com seus 6.300 m². Já no quarto de Prue, as miniaturas escondem easter eggs de outras produções da Laika, como Coraline e Os Boxtrolls.

Nelson descreveu o processo como um resgate do cinema à moda antiga de Hollywood: tudo feito com as mãos, esculpido, perfurado, montado e preparado para a lente da câmera. A preferência do estúdio é construir objetos físicos reais; o meio digital entra apenas para dar profundidade de campo ou preencher fundos infinitos.
“Todo mundo pensa que o computador e a inteligência artificial estão avançando rápido, mas não é assim com a tecnologia de materiais. Hoje temos ferramentas melhores que nos dão precisão, mas mantemos o mundo antigo vivo com a ajuda dessas tecnologias”, pontua Lowry.
Foi diante dessas maquetes que entendi: além de uma aventura sobre amor e família, O Bosque Selvagem é uma declaração de amor a Portland. Na sequência inicial, Prue leva o irmãozinho para passear de bicicleta, ele no reboque, pelo porto e por bairros emblemáticos. A miniatura de um dos cinemas mais antigos da região, o St. Johns Twin Cinema, está lá, assim como cartazes e referências a ParaNorman (2012) e Kubo e as Cordas Mágicas (2016). Afinal, Portland é a cidade onde o estúdio está sediado e onde Travis Knight cresceu.

A conversa, aliás, continua fora das telas. Na minha primeira vez na cidade, em pleno verão de agosto, deparei-me com 30 esculturas de corvos coloridos espalhadas por pontos turísticos. A trilha urbana trazia peças pintadas por artistas locais em locais como o Jardim Japonês, a impressionante Fonte Ira Keller e o Museu de Arte de Portland.
Idealizado em parceria com o Hospital Infantil Doernbecher da OHSU e outros doadores, o projeto leiloará as peças ao final da exposição em novembro para arrecadar fundos para a instituição de saúde infantil. Em Portland, a cidade não é apenas cenário: é a própria casa do filme.
Figurino: engenharia em escala reduzida
Não menos impressionante foi o encontro com Deborah Cook, figurinista da produção, que explicou como cores, texturas e microengenharia definem cada traje. A escala impressiona: foram 233 bonecos feitos à mão, cada um individualmente vestido, estilizado e testado sob iluminação de estúdio.
Em escala reduzida, uma roupa não é apenas uma versão encolhida de um tecido comum. Ela precisa responder à luz do set, dobrar-se com naturalidade e acompanhar os micro-movimentos do articulador sem perder o caimento. O desenvolvimento dos figurinos começou em 2021, exigindo soluções sob medida para cada costura e prega.

Quando perguntei qual havia sido sua personagem favorita para vestir, Deborah apontou Prue sem hesitar: identificou-se de imediato com a determinação da garota. Já o maior desafio técnico foi o vestido da antagonista Alessandra (dublada por Carey Mulligan), uma peça complexa repleta de camadas e jogos de sombra.
Efeitos práticos e prototipagem: mãos na massa
Amassar, tocar a borracha, sentir a textura do material: estar no estúdio faz compreender que os personagens na tela grande são objetos reais ocupando o espaço físico. Confesso que quis levar um dos protótipos de Prue para casa: não foi possível, mas voltei com uma caneca térmica e o livro oficial da história da Laika.
No departamento de bonecos, com Oliver Jones, fica claro como a tradição artesanal e a impressão 3D se complementam. A tecnologia acelera processos, mas a sensibilidade humana continua no comando. Até uma ação banal exige engenharia extrema: fazer uma gota de chantilly escorrer por um copo durante um único segundo de filme exigiu dezenas de testes de viscosidade e densidade de materiais.

“O encanto do stop-motion vem do fato de você saber que é um objeto físico manipulado por mãos humanas. É como se o seu brinquedo da infância estivesse ganhando vida de verdade”, refletiu Oliver.
No setor de Prototipagem Rápida, chefiado por Brian McLean, descobrimos como nascem as microexpressões faciais. Com impressoras 3D de altíssima resolução, as feições já saem coloridas da máquina, eliminando a pintura manual peça por peça do passado. McLean também mostrou como a robótica passou a mover as articulações internas, mãos dos personagens e até simular uma respiração. E é aqui que O Bosque Selvagem se distancia de tudo o que a Laika já fez.
Os números ajudam a dar a exata dimensão desse salto tecnológico: ao todo, foram produzidas 142.030 variações faciais para o filme. Para se ter uma ideia da complexidade, uma única cena chegou a exigir 1.124 trocas de expressão, sendo 555 para Prue e 569 para Curtis. Até mesmo o choro exigiu uma engenharia própria: fazer uma única lágrima escorrer pelo rosto de um personagem demandou 67 shots e testes de materiais diferentes, um contraste impressionante com Os Boxtrolls (2014), em que apenas seis tentativas foram suficientes.

Investimento: o valor do tempo
O Bosque Selvagem representa o maior investimento financeiro e temporal da história da Laika. Filho de Phil Knight (co-fundador da Nike), o CEO Travis Knight assumiu o comando do estúdio dois anos após a aquisição da antiga Vinton Studios, em 2004. Ao contrário da lógica imediatista de Hollywood, a Laika investe tempo, paciência e recursos na busca por excelência artística.
Cerca de mil artistas — entre animadores, escultores, figurinistas e engenheiros — trabalharam para dar vida ao projeto. Como resumiram na equipe durante a visita: “We need to love stop-motion, or we don’t”; ou seja, ou você ama profundamente o stop-motion, ou você simplesmente não consegue fazê-lo.
Quando você estiver no cinema assistindo a cada piscar de olhos e a cada sopro de vento nas árvores de O Bosque Selvagem, lembre-se das palavras de Oliver Jones. Tudo ali nasceu da obsessão humana pelos detalhes. Tempo. É preciso muito tempo para construir um mundo. E quando a técnica encontra a emoção, o resultado deixa de ser uma sequência de bonecos em movimento: torna-se puro cinema.


