Umas das animações mais importantes de todos os tempos, Avatar se tornou memorável por respeitar seu público

“…Há muito tempo as nações viviam em paz e harmonia…”

Construir um mundo fictício complexo e com regras bem estabelecidas não é uma tarefa simples, principalmente quando o meio para o qual o material se destina é a televisão (que tem uma estrutura narrativa episódica) e, mais especificamente, o público infantil. Foi o que aconteceu quando o canal americano Nickelodeon abordou a dupla Bryan Konietzko e Michael Dante DiMartino encomendando uma nova série animada para sua grade.

Essa foi a primeira prova de fogo da dupla, uma vez que este seria o primeiro programa que ambos comandariam do zero. Em uma entrevista concedida ao portal IGN, em 2007, ambos foram questionados sobre quais foram suas inspirações para compor esse novo mundo que surgia. Segundo Bryan: “Mike e eu estávamos muito interessados em inspirações épicas como Harry Potter e Senhor dos Anéis mas nós também sabíamos que gostaríamos de seguir por outra direção do gênero. Nosso amor por animes, filmes de Kung Fu… e filosofias orientais nos deram a inspiração inicial para Avatar”.


O Kung Fu teve grande influência na elaboração dos estilos de dobra elementar

A inspiração oriental, aliás, não se limitou apenas ao campo das ideias. Umas das características mais marcantes de Avatar é seu traço com fortes inspirações no estilo japonês de animação (conforme mencionado anteriormente) com expressões faciais bastante intensas para expor sentimentos, momentos de silêncio absoluto voltados para contemplação, humor abundante e até mesmo um episódio na praia (elemento bastante comum em animes); mas ainda assim jamais se assumindo como um representante do gênero, tendo preservado características comuns também a produções animadas ocidentais.

Estabelecido as bases visuais, eles partiram para a composição de mundo. Ao mesmo tempo que elementos mágicos e fantásticos deveriam estar presentes, estes também deveriam casar de algum modo com o desenvolvimento de personagens. Por diversas vezes Konietzko e DiMartino disseram que uma das grandes inspirações para o projeto havia sido as animações de Hayao Miyazaki, em especial Princesa Mononoke, cujo estilo justamente é o de trabalhar sentimentos humanos por meio da fantasia.

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A independência feminina em Princesa Mononoke serviu de inspiração para muitas das personagens em A Lenda de Aang

O elenco principal seria formado majoritariamente por jovens de modo que seu desenvolvimento a longo prazo pudesse ser algo perceptível. Figuras mais velhas comporiam o elenco de apoio assumindo papéis de antagonistas (casos de Ozai e Zhao) ou como vozes de sabedoria (Iroh ou qualquer encarnação passada de Aang). O mundo de forma geral seria formado por contrastes: cada território dele seria mágico e único mas também perigoso, a prática de magia (dobra de elementos) envolveria movimentos elaborados do próprio corpo para acontecer.

“E aí tudo isso mudou quando a Nação do Fogo atacou…”

A história de Avatar – A lenda de Aang se passa em um mundo onde os seres humanos aprenderam a controlar os quatro elementos por meio de movimentos corporais complexos que remetem a estilos reais de luta. Eles então passaram a viver em nações que culturalmente possuem identificação respectiva com o elemento predominante naquela área, mas com sistemas políticos próprios. No epicentro de toda essa sociedade está a figura do Avatar, o único indivíduo que pode controlar os quatro elementos e estar ligado ao mundo espiritual. Seu trabalho é manter o equilíbrio no mundo.

O Avatar em todas as suas encarnações

Apesar de ser um desenho para crianças, Avatar em sua criação teve muita liberdade para qual caminho seguir. Konietzko e DiMartino já falaram em entrevistas que a Nickelodeon sempre lhes garantiu liberdade criativa e isso fica evidente pela ambição do desenho de não se limitar a momentos de ação e comédia. Muito da história do mundo, a parte violenta também, pode ser percebida ou sentida nas entrelinhas do roteiro. 

A altura em que os acontecimentos da trama se iniciam o Avatar está desaparecido há quase cem anos e a Nação do Fogo continua sua campanha militar para se tornar a força dominante no mundo. Tecnicamente sendo o país mais avançado, seus navios são movidos a carvão e seu arsenal conta com outros mecanismos sofisticados, a Nação do Fogo já havia exterminado os Nômades do Ar, enfraquecido as Tribos da Água e ainda se digladiando com o Reino da Terra.


Apesar de não ser possível traçar um paralelo com um único episódio real em específico, a campanha de supremacia dos dominadores de fogo em muito lembra as políticas imperialistas que diversas nações europeias e até o Japão demonstraram ao longo dos séculos XVIII e XIX, sendo essa linha de raciocínio reforçada pelo sistema dinástico vigente por lá. Da mesma forma o conflito em andamento tem suas semelhanças com a Primeira Guerra Mundial, quando formas de matar mais eficientes e mecanizadas começaram a dar as caras.

A superioridade tecnológica da nação do fogo quase lhe valeu a vitória

O Reino da Terra, territorialmente o maior dos países, já é mais claramente inspirado no antigo império chinês e sua capital, Ba Sing Se, se assemelha em muito à Pequim. Até seu sistema político corrobora para essa linha de raciocínio, tendo um rei alçado ao posto de líder incontestável e até mesmo líder espiritual (isso é representado pela imagem da Toupeira-Texugo, a quem é dito que ensinou a dominação de terra aos humanos, posicionada atrás do trono). Sua relação belicosa com a Nação do Fogo também lembra muito a difícil relação entre China e Japão, principalmente pela modernização rápida do segundo em relação ao primeiro

Um grupo que se difere por completo do cenário caótico das três nações são os Nômades do Ar, que apesar de já estarem extintos no início da primeira temporada são bastante citados pelo protagonista (Aang é o último sobrevivente). Eles tinham um estilo de vida pacifista e bastante espiritualizado, passando boa parte das suas vidas meditando e em contato com a natureza. 

Sua inspiração descende dos monges shaolin da China e da cultura tibetana representada pelo budismo vajrayana. Uma referência ao budismo tibetano é a presença de um personagem importante para Aang chamado de Gyatso, cujo nome remete ao do Dalai Lama Tenzin Gyatso, líder maior do budismo tibetano. 


Os nômades do ar são o grupo mais espiritualizado dentre os povos existentes

Já as Tribos da Água do Norte e Sul são mais comumente associadas a culturas reais dos Inuit e Yupik, os primeiros vivendo em regiões árticas mais ao hemisfério norte (Canadá, Alasca e Groenlândia) enquanto que os segundos vivem em regiões gélidas para o leste (mais especificamente Sibéria).

“Só o Avatar domina os quatro elementos e pode impedi-los…”

Como também já foi dito o acesso à dominação dos elementos se faz por meio de movimentos corporais complexos e pesados, sendo eles baseados em estilos de luta orientais reais. Os criadores da animação, buscando maior realismo possível, buscaram a ajuda do mestre de artes marciais Sifu Kisu para elaborar como cada elemento seria controlado.

A dominação de terra foi baseada no estilo Hung Gar (oriundo do Kung Fu) devido a base e postura firme que ela provém, algo que remeteria a inflexibilidade e resistência dos dominadores de terra. A dominação de fogo nasceu do Bak Sil Lam que é um estilo mais agressivo e inquieto por natureza, que se utiliza mais das pernas e braços. Aos dominadores de ar coube o estilo Bagua que já é mais sobre se mover de maneira circular. Por fim, o Tai Chi foi o que melhor representou a dominação de água pela necessidade do praticante estar em paz internamente e focado.

Movimentos para se realizar a dobra de terra

O que tornou Avatar um sucesso tão gigantesco não foi apenas na forma de como elementos culturais diversos foram adaptados de maneira coesa em um mundo fantasioso, mas também o modo de tratar seus personagens, todos eles sempre se movendo em diferentes linhas e jamais ficando estáticos.


Um exemplo é Zuko, cujo arco narrativo se tornou famoso por ser “a maior redenção da história da TV”. Ele começou como vilão, mas vez ou outra transitava por momentos de comédia, envolvendo diálogos com seu tio, e empatia, como quando salvou um de seus comandados durante o episódio “A tempestade”, ou quando se recusou a machucar a irmã Azula no último Agni Kai, até chegar no ápice de se tornar um herói completo.

Azula e Zuko formam a dupla de personagens com maiores complexidades emocionais

Avatar – A Lenda de Aang teve três temporadas de sucesso na Nickelodeon entre 2005 e 2008. De forma que, quando a série chegou ao seu clímax, nos quatro últimos episódios da terceira temporada, a audiência bateu o número de 5,6 milhões de espectadores. A animação também recebeu doze prêmios ao longo de sua existência a concorreu a outros tantos.

Em 2012 ela recebeu uma sequência chamada Avatar – A Lenda de Korra, que se passa setenta anos após a primeira animação e traz uma nova avatar junto a um novo elenco. Apesar de apresentar um nível técnico tão bom quanto o anterior, e grande inspiração em compor um mundo pós-guerra, A Lenda de Korra teve muito de sua qualidade final afetada por ameaças de cancelamento da parte da Nickelodeon e pelo vazamento de roteiros.


Apesar de algumas oscilações, A Lenda de Korra cumpriu a função de qualquer seqüência: expandir seu universo

Uma versão live action dirigida por M. Night Shyamalan foi lançada em 2010 com a intenção de adaptar a primeira temporada de A Lenda de Aang. O resultado final, porém, não agradou crítica e público e os planos para uma continuação foram abandonados.

Uma versão em formato de série foi encomendada pela Netflix em 2018 e a princípio contava como showrunners tanto Bryan Konietzko quanto Michael Dante DiMartino. Entretanto, através de um comunicado, Konietzko informou que ambos estão abandonando a produção por diferenças com a Netflix. Ele reiterou que o projeto que virá ao ar não será uma visão da dupla para aquele universo.

Avatar – A Lenda de Aang permanece bastante relevante por diferentes motivos: está ambientada em uma guerra, mas tem um protagonista que não desiste de seus ideais pacíficos; alerta sobre o eterno perigo de ter um maníaco governando uma nação avançada, fala sobre como relações familiares abusivas podem destruir uma criança (mais especificamente no caso da Azula), e como é sempre possível se redimir por seus erros. Ainda é muito propício falar sobre a jornada do Avatar Aang.

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