Recentemente escrevi aqui uma breve matéria sobre o reboot de Além da Imaginação (2019), capitaneado por ninguém menos que Jordan Peele – união esta que caiu como uma luva – e sobre a importância do programa clássico (1959) para a história da televisão mundial. No entanto, uma das coisas mais interessantes em relação a programas de antologia como este, é perceber as diferenças entres os episódios. Com começo, meio e fim, estas micro histórias de 1 hora (mais ou menos) se distinguem umas das outras, seja através do humor, importância na carga dramática, atuações, questões abordadas, estilo narrativo, criatividade na reviravolta, enfim.

Desta forma, dentro de uma coletânea de dez mini filmes, obviamente temos os que nos cativam mais, se destacando, os que ficam na promessa e os para os quais só nos resta torcer o nariz. Assim, resolvemos colocar em ordem, segundo nossa avaliação, os dez episódios da Primeira Temporada deste programa de alto conceito. Lembrando que todo o primeiro ano está disponível no Brasil através da Amazon Prime Video, e que aguardamos ansiosos pela estreia da Segunda Temporada (que foi ao ar nos EUA este ano, em junho) para que possamos fazer o mesmo com ela. Vem conhecer. Ah sim, o texto abaixo contém alguns spoilers sobre os episódios, então certifique-se de ter assistido antes de ler.

Ps. A esta altura você já deve estar familiarizado com nossa coluna “Do pior ao Melhor”, mas vale a pena frisar para os novatos que começamos a lista com o que menos gostamos e seguimos até nosso favorito.

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10 | Ponto de Origem

Eu já havia citado este episódio na matéria anterior como um dos que menos funcionaram na temporada. Protagonizado por Ginnifer Goodwin (Era uma Vez), a ideia por trás da trama é claramente uma crítica à xenofobia. Com algumas semelhanças com Pequenos Incêndios por toda Parte, Goodwin interpreta uma dondoca dona de casa, parecendo ter saído de um comercial dos anos 1950. Sua empregada mexicana é deportada, e ela fica sem saber como realizar as pequenas tarefas sem a ajuda da mulher. A princípio achamos que o episódio irá se concentrar nisso, mas depois descamba para uma paranoia burocrática onde a própria protagonista se vê alvo de investigações pelo governo. Mas não para por aí, e uma nova reviravolta ainda mais estapafúrdia surge. O maior problema, porém, é que as partes não conversam bem entre si.

09 | Seis Graus de Liberdade

Não poderia faltar um episódio espacial, remetendo à ficção científica raiz do seriado. Aqui quem protagoniza é a bela DeWanda Wise (Ela quer Tudo) na pele da líder de uma equipe de astronautas viajando pela primeira vez a Marte. Quando estão em vias de decolar, eles ficam sabendo que, basicamente, estourou a Terceira Guerra Mundial, com direito a mísseis atômicos e muita destruição em massa. Neste cenário eles partem para o planeta vermelho, na dúvida de algum dia ver a Terra de novo. O episódio é claustrofóbico e concentra-se mais no relacionamento dos personagens durante a viagem que leva alguns anos. A conclusão é boa e junta Matrix à mistura, mas não inova muito e termina com sabor requentado.



08 | Um Viajante

Dirigido pela talentosa Ana Lily Amirpour (Garota Sombria Caminha Pela Noite), este episódio fala sobre imposição religiosa e desrespeito a culturas alheias. Greg Kinnear interpreta um xerife egocêntrico de uma pequena cidade no Alasca que impõe sua religião todos os anos em uma festa de fim de ano – mesmo que alguns policiais do local tenham outras crenças, como a oficial esquimó interpretada por Marika Sila. Tudo muda com a chegada de um forasteiro (Steven Yeun) cuja verdadeira identidade se torna um enigma para todos. A conclusão é insana e totalmente fora da caixinha.

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07 | Pesadelo a 30.000 Pés

Esse não poderia faltar. Provavelmente o episódio clássico mais famoso de Além da Imaginação, a história sobre o passageiro nervoso de um avião que vê um “gremlin” na asa da aeronave e termina surtando durante a viagem já foi recriada do original no filme de 1983 (produzido por Spielberg) e até em um episódio de Os Simpsons. É claro que Jordan Peele não deixaria passar. Mas em sua versão mais moderna o “monstro” é diferente e dá lugar à paranoia e loucura no pós 11 de setembro. Adam Scott vive o passageiro inquieto.

06 | O Escorpião Azul

Neste episódio o tema é uma crítica ao armamento do cidadão, política que alguns líderes de países defendem, como o presidente dos EUA e o nosso. A história aborda o poder de sedução das armas de fogo, acrescentando elementos sobrenaturais (ou metáforas, para quem quiser). Chris O’Dowd é o protagonista, um professor tranquilão no meio de um dos momentos mais estressantes de sua vida: a separação da mulher. Para piorar, seu pai é encontrado morto, aparentemente tendo se matado com uma arma, a tal escorpião azul do título, pertencente a um mafioso mexicano. Daí em diante, o envolvimento do sujeito pacifista com a arma vai ficando cada vez mais… intenso. Um bom episódio que dá seu recado, dono de um discurso marcante de Peele em suas narrações. A direção é de Craig William Macneill, do recente Lizzie, com Kristen Stewart.

05 | O Homem Borrado



Esse é pura homenagem para a mitologia do programa. A primeira cena não apenas quebra a quarta parede, como a demole num glorioso exercício de metalinguagem, ao apresentar o episódio dentro do episódio, com direito a participações de Seth Rogen e do próprio Jordan Peele como ele mesmo. Na realidade, estamos vendo a história de Zazie Beetz, que interpreta uma roteirista do reboot de Além da Imaginação, trabalhando diretamente com Peele. O episódio ainda reserva espaço para discutir arte versus entretenimento, uma questão sempre em voga principalmente entre os críticos. Apesar de arrastar um pouco mais para o final, enquanto ensaia sua revelação, assumindo moldes de um terror rotineiro, O Homem Borrado acerta em seu argumento. Fora isso, possui uma das reviravoltas mais delirantes e poéticas de todas as encarnações do programa. A direção é do próprio Simon Kinberg, produtor e roteirista do programa.

04 | Criança Prodígio

Esse é um verdadeiro tapa na cara. Apesar de não ser um episódio perfeito, já que possui um desfecho mais cômico e sem o impacto que deveria, e intercale sua narrativa sem necessidade com duas linhas temporais, a história possui muitos méritos. John Cho vive um articulador político caído em desgraça. Quando pensa que sua carreira chegou ao fim, ele tem a “brilhante” ideia de transformar uma criança (Jacob Tremblay), sucesso na internet, em candidato à presidência dos EUA. A crítica aqui é ao fato de figuras cada vez mais excêntricas e despreparadas ganharem força e apoio da população, devido à perda de confiança do povo em políticos “sérios” – que constantemente desapontam. Com um desfecho mais enxuto e uma linha narrativa cronológica única, Criança Prodígio renderia uma obra-prima. Este episódio faz uma bela sessão dupla com The Waldo Moment, da segunda temporada de Black Mirror.

03 | O Comediante

Escolher entre este episódio e o de cima foi difícil. Criança Prodígio possui um tema mais urgente e faz uma crítica mais ferrenha. No entanto, desliza em sua narrativa e desfecho. Já O Comediante segue pelo caminho inverso. É o primeiro episódio da nova série e acerta todas as notas. Fala sobre fama e o que fazemos muitas vezes para conquistá-la, sendo capazes de “vender nossa alma ao diabo” e nos rebaixar da forma mais degradante. O paquistanês Kumail Nanjiani, que interpretou a si mesmo no sucesso romântico Doentes de Amor (2017), volta a um papel meio semi biográfico na pele de um comediante stand-up tentando emplacar na carreira. Uma figura misteriosa (Tracy Morgan) o revela que ele precisa usar suas próprias experiências no seu humor, e assim ele começa a alterar a realidade. Episódio redondinho, com um desfecho bem ideal. Tudo a ver com Além da Imaginação.


02 | Nem Todos os Homens

O foco aqui é o machismo ou masculinidade tóxica. Quem estrela é Taissa Farmiga, no papel de uma jovem saindo num encontro com um colega de trabalho. Durante sua noite juntos, ocorre uma chuva de meteoros e um destes corpos celestes cai nas proximidades, trazendo uma espécie de contaminação para quem os toca. O interessante da história, é que apenas os homens “se contaminam” e começam a agir de uma forma… bem, não muito diferente de como agem normalmente. E esse é brilhantismo do roteiro. Todas as atitudes tidas como monstruosas dos “contaminados” nada mais são do que seu costumeiro comportamento violento, abusivo e opressor. Uma sacada de gênio, sem grandes deslizes.

01 | Rebobinar

Foi páreo duro, já que Nem Todos os Homens é um dos episódios mais marcantes desta primeira temporada. No entanto, quem sobe no topo e assume a liderança como o melhor episódio do primeiro ano do novo Além da Imaginação é Rebobinar. O terceiro episódio é o que possui mais a cara do criador Jordan Peele e parece ter suas impressões digitais por toda parte. Uma vez dito isso, é claro que a história fala sobre racismo e empoderamento dos afrodescendentes – um tema muito em voga e mais digno e urgente impossível, tendo em vista que casos envolvendo abuso de autoridade e violência policial seguem ocorrendo pelos EUA e mundo.

Assim, a bela e talentosa Sanaa Lathan protagoniza como uma mãe orgulhosa, levando seu filho para a universidade a fim de estudar cinema – e tome referência a Ryan Coogler e Pantera Negra. No caminho dos dois surge um policial mais incansável que Jason e Michael Myers juntos, representando o racismo e abuso de autoridade em geral. Do lado dos protagonistas, uma câmera antiga capaz de rebobinar o tempo. Mas até quando este artifício os salvará? Este episódio fala sobre o retorno às origens, deixar o passado para trás, se reconectar com a família e, acima de tudo, sobre como o amor pode vencer o ódio. Perfeito, emocionante e de arrepiar a espinha.

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