“A ÁRVORE DO AMOR”

Não sei bem o que pensar sobre “Amor Pleno”, mesmo agora ao escrever esse texto, onde deveria ter uma opinião formada. Então vou começar elogiando o diretor Terrence Malick, cineasta americano extremamente artístico e autoral, que possui mais de quarenta anos de carreira, e apenas cinco longas (seis com esse) no currículo. Recluso ao extremo, recusa-se a dar entrevistas ou a aparecer em eventos públicos, tendo inclusive pouquíssimas fotos suas divulgadas na mídia.

Igualmente amado e odiado pelo público e pelos companheiros de trabalho, existe toda uma história de como ele simplesmente eliminou do filmeAlém da Linha Vermelha” o seu então protagonista, Adrien Brody, que só descobriu não fazer mais parte do filme na premiere; e o atrito com o veterano Christopher Plummer, que jurou não trabalhar com o cineasta novamente. Mesmo assim ainda atrai grandes nomes apenas com a menção de um novo projeto.  Já com os especialistas, Malick é unânime e adorado.


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Autor de todos os seus trabalhos, o diretor passa anos montando-os na mesa de edição, e muitas vezes é uma surpresa para os atores ver o resultado final, assim como para o público, que nunca sabe o que esperar de uma obra sua. Até então, o cineasta entregou verdadeiras obras-primas em sua curta filmografia, que inclui “Terra de Ninguém” (1973), “Cinzas no Paraíso” (1978, – meu favorito pessoal), “Além da Linha Vermelha” (1998), “O Novo Mundo” (2005, – considerado seu esforço mais fraco), e “A Árvore da Vida” (2011), filme que dividiu o público (mas foi meu número 1 de 2011).

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Agora, voltando rápido demais à ativa, Malick entrega seu trabalho mais próximo de outro, e não apenas isso, mas o diretor já tem engatilhado mais três filmes para 2014, dois na pós-produção (quanto tempo irão demorar para sair de lá é a pergunta). Em “Amor Pleno”, a sinopse apresenta Ben Affleck como um homem dividido entre duas mulheres. Sua relação mais duradoura é com a bela (e agora magérrima) ucraniana Olga Kurylenko, fazendo papel de francesa.

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Ela possui uma filha de outro casamento, que não se dá tão bem com Affleck. Um tempo separados, e o protagonista se envolve com uma antiga conhecida, papel de Rachel McAdams. Entra em cena também o padre interpretado pelo vencedor do Oscar, Javier Bardem, que irá aconselhar os personagens sobre o amor. O tema central do filme é obviamente o amor, mas do jeito Terrence Malick de abordar assuntos.

Assim como “A Árvore da Vida” (seu filme mais similar a esse, estejam avisados!), existem muitas imagens deslumbrantes, uma fotografia impecável, e pouquíssimos diálogos. Tudo é narrado na forma de imagens, olhares e movimentos. Sensações ao invés de palavras. Malick entrega o mínimo de exposição para construirmos apenas a base, e seguirmos adiante com o que está acontecendo, por nós mesmos. No entanto, esse não é um filme tão longo quanto “A Árvore da Vida”.


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É impossível deixar de apontar um senso de repetição, ao menos visual, e com trabalhos tão próximos o estilo do diretor começa a se voltar contra ele, como si auto-parodiasse. O diretor também ludibria seu público, e isso é interessante. Rachel McAdams é a terceira protagonista, porém aparece apenas em poucas cenas. Affleck é tido como o principal, quando a protagonista é na verdade Kurylenko (já que o filme passa mais tempo com ela).

E por fim, apesar de ser um filme sobre o amor, e a transferência do sentimento para duas pessoas diferentes, por vezes juntas (fazendo uso de certo discurso poligâmico), “Amor Pleno” é na verdade sobre a perda do amor, e o abandono. A obra passa mais tempo acompanhando o desespero da solitária Kurylenko, que encontrou plena felicidade ao lado de seu companheiro, mas ao ser abandonada por ele se vê perdida, se entregando para outro qualquer, e inclusive é maltratada por ele ao confessar seu deslize.

Como sempre, Malick é poético, porque espertamente o que faz é colocar um espelho em nossa frente, e nos mostrar o mínimo de uma estrutura formulada básica, para que preenchamos todas as lacunas. Pretensioso? Talvez, mas ao lado de toda a sua filmografia. Porém, um artista com uma voz vale mais do que mil operários padrões manipulados.


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