Quando Stefani Germanotta encarnou o alter-ego de Lady Gaga, ela mal sabia que estava à beira de causar uma revolução estética em praticamente todas as áreas do entretenimento – incluindo música, cinema e televisão.

Inspirada por lendas como Michael Jackson, Madonna e Britney Spears (apenas para nomear algumas), Gaga parou o mundo ao trazer o synth-pop e o EDM de volta à vida no final dos anos 2000, principalmente com os aclamados singles “Just Dance” e “Poker Face”, que atingiram o topo das paradas no mundo inteiro e lideraram o álbum de estreia The Fame (o début mais bem-sucedido do século). A partir de então, a cantora e compositora, que nunca se contentou em apresentar o óbvio para sua crescente legião de fãs, viajou da música eletrônica ao country, do rock ao house, arquitetando jornadas fantásticas que, mesmo esbarrando em obstáculos, foram redescobertas como pioneiras em inúmeros estilos.

Não há qualquer pessoa no planeta que não tenha ouvido falar de Lady Gaga e de seus feitos: em apenas treze anos de carreira, ela ascendeu ao patamar de uma das maiores estrelas de todos os tempos, imprimindo uma característica única em cada faixa e falando de temas como sexualidade, autodescobrimento, feminismo, empoderamento, traição, amor, paixão, vingança e inúmeras outras. E, enquanto o cenário fonográfico tornou-se sua primeira opção, ela lançou-se como diretora de inúmeros videoclipes icônicos e, recentemente, dominou as telonas e as telinhas com rendições premiadas e que marcaram época.



Mas o que faz dela uma artista tão única?

Nascida e criada em Nova York, Gaga desde sempre esteve envolvida com arte e aprendeu a tocar piano aos quatro anos de idade. Após ser admitida na NYU, ela aprofundou seus conhecimentos clássicos e começou a se envolver com política, economia, religião e questões sociais, além de ter escrito uma tese sobre Spencer Tunick e Damien Hirst, dois nomes importantes da música pop. Mesmo assim, ela percebeu que o panorama engessado da universidade não lhe permitia ir para além do que queria, motivo pelo qual abandonou os estudos e lançou-se em sua própria jornada – que, como podemos ver, rendeu e continua rendendo centenas de frutos.

A imagética de Gaga vai desde seu nome, homenagem à canção “Radio GaGa”, da banda Queen, até os atos políticos de suas roupas – quem não conhece o infame vestido de carne que usou durante a cerimônia do VMA? Desde o princípio, ela fazia questão de trazer todos aqueles que haviam lhe influenciado para videoclipes, progressões instrumentais e até mesmo o jeito de pronunciar os versos, motivo pelo qual sofreu backlash de uma amargurada Madonna, a eterna Rainha do pop que acreditava, inexplicavelmente, que perderia seu título. Mas a verdade é que Gaga nunca buscou pelo trono, e sim por pessoas que apoiassem suas decisões e o seu estilo (felizmente, a ridícula rixa entre as duas, alimentada por uma mídia narcisista e sensacionalista, chegou ao fim em 2019 após uma foto que parou o mundo).



À medida que seu sucesso crescia, críticas negativas e injustas ganhavam as bocas maldosas e tomavam as manchetes dos tabloides, fosse por suas “aparições escandalosas”, fosse por seu corpo. Mas isso não a impediu de continuar mostrando o que tinha para oferecer – e que nada a impediria de criticar o que estava errado.

Desde sua estreia até o recente Chromatica Gaga sempre fez questão de agradecer à comunidade LGBTQ+ e pelo apoio que ganhou de uma minoria social que permanecia sendo massacrada dia após dia. Born This Way, lead single de seu terceiro álbum de estúdio (ou segundo, caso consideremos The Fame Monster’ apenas como um EP), tornou-se o maior hino queer de todos os tempos e um dos mais vendidos da história; “Sexxx Dreams”, que encontra-se no miolo do subestimado ARTPOP, flerta com sua já assumida bissexualidade e constrói uma narrativa à la Paula Abdul e The Divinyls; “Americano” traz à tona um dêitico e pungente enredo estrelada por um casal lésbico que não pôde se casar frente às políticas anti-imigração dos Estados Unidos; “Fashion!” exalta a arte drag e até mesmo trouxe a espetacular RuPaul para um dueto memorável; “Free Woman” é um hino de libertação às mulheres transsexuais.

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A força feminina também sempre foi exaltada, fosse em solidariedade, fosse para desmistificar o patriarcal machismo da indústria musical. Ao lado de Beyoncé, Gaga conseguiu arquitetar um curta-metragem no melhor estilo buddy cop intitulado “Telephone” colocando as duas maiores artistas das décadas passadas em uma colorida e trágica aventura que lhes rendeu inúmeras honrarias e uma indicação ao Grammy; em “Rain On Me”, ela quebrou recordes com Ariana Grande, debutando no topo da Hot 100 e mostrando a todos que as parcerias femininas ainda tinham muito para contar; na cândida e funky-future “Hey Girl”, ela estendeu suas mãos ao indie pop com a famosa Florence Welch.

Não podemos deixar de comentar, também, a constante luta que ela trouxe para o movimento Black Lives Matter com “Angel Down”, em homenagem ao homicídio de Trayvon Martin em 2012, escrevendo à faixa em resposta à “epidemia de jovens afro-americanos sendo assassinados” nos Estados Unidos; como se não bastasse, ela abriu espaço em suas redes sociais para que especialistas em antropologia, história e sociologia falassem sobre o extermínio negro em seu país de origem. Em outro espectro, uniu-se à ONU e à OMS para “One World: Together at Home”, que arrecadou quase US$130 milhões para os afetados com a pandemia do COVID-19; quanto a questões mentais, lançou diversas músicas que falavam sobre traumas pessoais, como “Swine” e “911”, até inflexões de autoajuda para aqueles que precisavam de um ombro amigo, como “Sine from Above” e “Hair”.

Cada fatia da presença vibrante de Lady Gaga no mundo é recheado de simbologia e de importância – motivo pelo qual é, alegadamente, a única a conseguir trazer impacto em todas as áreas nas quais se encaixou.



Afastando-se de seu necessário ativismo, voltamos nossa atenção para a arte: duas das principais inspirações de Gaga, que a guiaram desde o princípio, resumem-se à Marina Abramović e Andy Warhol. Warhol foi o maior representante do movimento conhecido como pop art (soa familiar?), que tomou forma nos anos 1950 na Inglaterra e que insurge como uma interpretação da cultura popular de massa. Desde suas vibrantes cores até a imitação da estética industrial – como a recriação constante de imagens idênticas (vide “Coca Cola”, de 1963, ou “Marilyn Monroe”, em 1962). A retratação da impessoalidade e do vazio influenciou cada uma das eras da cantora, mais notavelmente ARTPOP. Sua fórmula “Warhol-reversa” é levada com ácida ironia para “Beautiful, Dirty, Rich”, “Donatella” e “Government Hooker”, enquanto perturba as barreiras entre o visual e o sonoro.

Abramović, notável nome da performance, não apenas é relembrada em cada ato promovido por Gaga, como também foi sua mentora. Abramović chegou a ensiná-la tudo o que sabe e constantemente menciona que “Stefani foi a minha melhor aluna”. O dúbio caráter de suas canções mais comerciais é pensado e arquitetado da melhor maneira possível para que seja compreendida pelo público: “Paparazzi” e “Applause”, por exemplo, são infundidos com a controvérsia entre efemeridade e durabilidade do que enxergamos como produto artístico, exigindo uma colaboração imagética do próprio público e da desapropriação libertária do que representam – ou seja, a música torna-se a própria instalação da artista. E tal irreverência é um dos aspectos mais legítimos de seu legado e sua contribuição, com inúmeros especialistas exibindo-a como a precursora da arte performática na música.

Tanto nomes antigos quanto atuais drenam referências do que Gaga deixou para a história. Beyoncé e Katy Perry, que já haviam aparecido na indústria fonográfica antes dela, mudaram a estética de suas apresentações e descobriram um lado mais ousado e divertido da vida; Taylor Swift inspirou-se na versatilidade e na mudança constantes da Mother Monster para migrar do country ao pop ao folk; Rina Sawayama e Cardi B a têm como musa inspiradora; Harry Styles, Kesha e Kylie Minogue beberam da “era vocalista” divulgada com Joanne para apostarem em obras mais singelas e intimistas. Inventando o espetáculo contemporâneo como o conhecemos hoje, Gaga é pioneira em uma cosmológica forma de perfeccionismo com o qual não lidávamos antes, destrinchando cautelosamente cada passo de dança, cada nota tocada, cada sílaba pronunciada.


Falar de suas condecorações, a esse ponto, é algo redundante: além de 12 Grammys e um Oscar, a artista tem em seu currículo a música e a trilha sonora mais premiadas de todos os tempos; sua atuação em American Horror Story: Hotel e em Nasce Uma Estrela lhe garantiram dezenas de estatuetas; sua apresentação no show do intervalo do Super Bowl tornou-se o mais assistido de todas as edições, além de ser o primeiro a trazer uma temática abertamente LGBTQ+ a um canal e a um esporte conservador; Joe Biden jamais teria ganhado as eleições dos Estados Unidos se sua grande amiga, Lady Gaga, não tivesse se lançado em uma profunda campanha para tirar Donald Trump das reeleições; com seis #1 na parada da Billboard 200, ela também quebrou recordes, além de ter sido a primeira artista a estrear na parada Dance/Electronic. “Bad Romance” foi eleito por inúmeros consórcios de imprensa como o maior videoclipe do século, além de integrar, ao lado de “Just Dance” e “Poker Face”, as três músicas que ultrapassaram as 10 milhões de vendas mundialmente.

É claro que seu constante sucesso também serviu de motivo para fãs e haters exigirem cada vez mais de alguém que não precisa mais provar nada. Reinventando-se como uma fênix, Gaga representa o passado, o presente e o futuro como ninguém mais – e, como bem pontuou Rob Sheffield em 2012, é difícil lembrar de um mundo em que não a tínhamos; mas temos certeza de que era muito mais chato.

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