Goste ou não, Harry Potter tornou-se um marco na cultura pop, seja em termos dos romances escritos por J.K. Rowling, seja na franquia cinematográfica que até hoje está na ativa.

Lançado originalmente em 1997, Harry Potter e a Pedra Filosofal’ veio a se tornar um divisor de águas no cenário literário – a despeito de críticas de especialistas em literatura. Afinal, é inegável que Rowling, aliando-se com diversos membros do alto escalão da esfera cinematográfica (Chris Columbus, Alfonso Cuarón, David Yates e muitos outros), arquitetou um universo bastante envolvente, que nutria de inspirações de clássicos da fantasia, como O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Nárnia. A narrativa trouxe à vida e imortalizou o personagem titular, um jovem de onze anos que, morando com os tios infernais e um primo insuportável após o acidente dos pais, descobriu ser um bruxo de potencial enorme e viu seu mundo virar de cabeça para baixo ao ingressar em Hogwarts, uma escola de magia regada a feitiços, poções e constantes problemas.

É claro que, a princípio, o enredo não parece fugir muito das fórmulas vistas em tantas obras similares – compiladas no guia A Jornada do Herói, de Joseph Campbell. Harry materializa, assim como Odisseu, Frodo e os irmãos Pevensie, o monomito, uma construção que parte do simplório e ergue-se como semblante da superação e da aventura. Confinado no armário embaixo da escada, o “menino que sobreviveu” não tem ideia das histórias que precedem seu monótono cotidiano e percebe que a invisibilidade mandatória em meio a familiares cruéis é apenas momentânea. Para aqueles que não se recordam, Harry recebe a visita do meio-gigante Rúbeo Hagrid no meio de uma noite chuvosa, com uma carta convidando-o para participar das aulas em Hogwarts. Descobrindo que as anedotas sobre sua vida quando bebê eram mentiras e escondiam segredos obscuros, ele cruza o limiar do mundo que conhecia e mergulha de cabeça em um turbilhão de novidades e de perigos.



Toda a franquia parte de uma premissa notável e que já foi emulada centenas de milhares de vezes. Se J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis marcaram época com seus escritos, Rowling faria o mesmo décadas mais tarde ao traduzir para uma sociedade contemporânea e para um público-alvo jovem-adulto as mazelas que se escondem por aí, mostrando que nada é o que parece ser. Deixando para trás o microcosmos que admitia como imutável, Harry encontra seu lar ao lado de amigos como Hermione Granger e Rony Weasley e amadurece frente à crescente ameaça do mortal Lorde Voldemort – um bruxo das trevas que tentou matá-lo quando mais novo e que pode voltar a qualquer momento de um limbo fantasmagórico para concluir sua ardilosa missão.

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A verdade é que a autora, em diversas entrevistas, comentara sobre os subtextos escondidos nas milhares de páginas dos sete romances. Seguindo os passos da infância, da adolescência de um amadurecimento obrigatório frente a tantos traumas, é notável como a temática da morte acompanha cada um dos personagens, com mais ou menos peso. Harry lida com a morte dos pais que nem mesmo chegou a conhecer; Voldemort, por sua vez, investe esforços num psicótico desejo pela imortalidade, motivo pelo qual esconde partes de sua alma em objetos malignos (as chamadas horcruxes). Em oposição, jubilam-se reflexões sobre racismo e preconceito, em que Voldemort, reunindo-se com seus seguidores, se lança a uma caça aos bruxos e bruxas mestiços e aos trouxas (pessoas não-mágicas), limpando o mundo de uma “raça inferior” e permitindo a ascensão dos puros-sangues.

Assim como títulos anteriores ajudaram na formação da sociedade, Harry Potter também foi responsável por resgatar elementos paidêuticos como a dualidade dos conceitos de bem x mal e certo x errado. As premissas de intolerância, aceitação, opressão e tirania, ainda que não exploradas ao seu máximo e pinceladas com máscaras fabulescas, ajudaram a instituir em leitores mais jovens pequenas faíscas de pensamento crítico – ainda que comentários recentes de Rowling tenham colocado em xeque as marcas ideológicas impressas na saga. Ora, se pararmos para encontrar as simbologias em meio aos parágrafos, há até certo flerte com questões sociológicas de despertencimento e de estratificação sociocultural, como vemos nas personalidades díspares de Severo Snape e Minerva McGonagall, por exemplo.



Movida também pela solidez da fórmula arturiana, Harry é auxiliado por um mentor – Alvo Dumbledore. A presença etérea do personagem é marcada e premeditada desde a primeira menção do bruxo e amalgama outros tantos que povoaram o imaginário popular, desde Merlin até Gandalf, em uma exaltação da sabedoria e do guiamento. É impossível se desvencilhar de tantas comparações, mas também é preciso dizer que Rowling recuperou um manual narrativo que há muito não se via – e que ajudou uma nova geração a traçar o caminho de volta para as gênesis da fantasia.

Enquanto os livros causaram um impacto contínuo no planeta, mencionar os longas-metragens é apenas reiterar essa importância. Além de alavancar as carreiras de Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint e Tom Felton no cinema e na televisão, eles ajudaram a (re)apresentar aos espectadores mais jovens nomes lendários do entretenimento, como Michael Gambon, Richard Harris, Maggie Smith, Alan Rickman, Emma Thompson, Helena Bonham-Carter e tantos outros. Como se não bastasse, tornaram-se epítomes dos blockbusters do século XXI, estabelecendo um processo midiático que influenciaria outras franquias – incluindo Crepúsculo e Jogos Vorazes.

Creditados por popularizarem os romances infanto-juvenis e jovens-adultos no cenário fílmico, não há uma pessoa que nunca tenha ouvido do bruxinho mais famoso da história – e redescobrir ou revisitar essas histórias é sempre uma aventura inesquecível e surpreendente.

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