Quando pensamos em filmes de terror slasher, qual a primeira coisa que nos vêm à cabeça? Um serial killer, muito sangue, estereótipos narrativos e, como é de imaginar, um ou dois sobreviventes (encarnado pelo modelo da final girl tímida, empática e heroica que nunca se torna alvo do assassino).

Desde a popularização do gênero no começo dos anos 1970 com o início da saga ‘Halloween’, longas-metragens desse gênero passaram por reciclagens constantes, alimentando uma fórmula que seria emulada até os dias de hoje e que, eventualmente, cairia na mesmice. É claro que diversas produções entrariam para a história do cinema como revolucionárias, como a franquia supracitada, ‘A Hora do Pesadelo’, Sexta-Feira 13 e Pânico, estendendo-se ao longo de duas décadas de revitalizações e desconstruções arquetípicas para apresentar algo novo ao público. Desde então, tentativas de reviver o slasher passaram a representar miseráveis e cômicas falhas que nem ao menos conseguiram homenagear as obras que as precederam – com raras exceções como os divertidos ‘A Morte Te Dá Parabéns’ e ‘A Babá’ (que, na verdade, mergulham de cabeça no humor ácido em vez de se contentarem com o óbvio).

Rua do Medo, ao que tudo indicava, parecia seguir no mesmo caminho trágico de tantos enredos conterrâneos. Anunciada como trilogia original da Netflix, a produção trouxe à vida os escritos de um dos mestres da literatura, R.L. Stine, convidando-nos a conhecer a misteriosa cidade de Shadyside, palco das brutalidades mais inenarráveis dos Estados Unidos e atada à história de uma jovem garota chamada Sarah Fier, enforcada após ser condenada como bruxa. Os três filmes perpassavam três períodos diferentes (1994, 1978 e 1666), logo de cara nos levando a imaginar com que tipo de trama iríamos lidar. O resultado foi totalmente diferente do imaginado e, apesar do trôpego início, a trilogia ascendeu a uma popularidade enorme e a uma concreta era de renascença aos slasher e aos filmes-B, guiada pela brilhante e pragmática mente da diretora Leigh Janiak.



E por quais motivos essa mini-franquia alcançou tamanho sucesso?

A princípio, podemos focar apenas na competência criativa de Janiak e de sua equipe. Os três capítulos são alicerçados sob uma mesma estrutura – Sarah Fier e os surtos psicóticos de Shadyside -, aumentando as questões volume após volume até que a verdade venha à tona. Em 1994, as protagonistas Deena (Kiana Madeira) e Sam (Olivia Scott Welch) se tornam alvo de fantasmas vingativos que querem matá-las após cruzarem caminho com uma mitologia que remonta aos primeiros séculos de colonização na América do Norte; em 1978, é a vez de Ziggy Berman (Gillian Jacobs/Sadie Sink) tomar as rédeas da narrativa e revisitar os traumáticos acontecimentos do Acampamento Nightwing; em 1666, por fim, um salto para o passado põe em xeque tudo o que se conhece sobre Sarah Fier – e aponta para um culpado inesperado.

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Conforme já mencionado em uma matéria similar, os longas são cartas de amor a clássicos títulos do horror e do drama fantástico das décadas passadas – logo, resvalar em obviedades era quase impossível de não acontecer. Entretanto, Janiak parece saber que fugir dos clichês é uma tarefa complicada, cuidando para que eles apareçam de uma forma prática, familiar e satisfatória, por assim dizer.



Enquanto esse trabalho parece não gerar muitos frutos no primeiro capítulo da trilogia, alguns momentos merecem nossa atenção: o prólogo de ‘1994’ faz alusão à famosa sequência de abertura de Pânico, mas muda certos elementos para reforçar a ideia de que uma força mística se esconde em Shadyside, revelando a identidade do assassino. O mesmo acontece em ‘1978’, que mimetiza Sexta-Feira 13 e o Acampamento Crystal Lake, ao mostrar quem será o serial killer antes das mortes acontecerem. A ideia não é infundir o sanguinolento gore com uma pitada de suspense, mas sim cumprir o que foi prometido e realizar o dialogismo inicial com o que acontece no presente cronológico da história – permitindo até mesmo que outra reviravolta insurja dessa atmosfera. ‘1666’, nesse quesito, resolve escavar o misticismo do século XVII e da Inquisição ocidental para uma corrida contra o tempo que termina do jeito mais fabulesco possível, sem perder a essência do previsível proposital).

É notável como cada elemento arquitetado funciona dentro de suas limitações, nunca pretendendo ser mais profundo ou simbólico do que consegue ser. Porém, vê-se uma preferência de Janiak em remodelar esse arcabouço tão explorado pelo cenário cinematográfico: as sutilezas se encontram, por exemplo, na decisão de manter o casal lésbico vivo até o grand finale, quebrando a “regra” de que a comunidade queer é posta como vítima primária do assassino; e a de desmistificar a ideia da final girl, que, em tese, deveria representar a vitória do bem contra o mal. Aqui, são vários os sobreviventes (por mais que a contagem de corpos seja exponencial), e a complexidade de suas personalidades os impede de cair em maniqueísmos criativos. A manutenção de Josh (Benjamin Flores Jr.) como membro ativo dos arcos em contraposição à trágica morte de Simon (Fred Hechinger) é, pois, mais um indicativo de que os clichês ainda podem ser usados de maneira impensável.

Rua do Medo pode ter seus problemas – aliás, são poucas as produções que não os têm; mas deve se dar mérito a Janiak por reconhecer que escapar da mesmice é uma missão difícil e que, no final das contas, abraçar o que se conhece pode ser uma alternativa bastante funcional.

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