Há algo de único sobre as animações da Pixar que causa um apelo estético e emocional no público como nenhum outro império animado.

Apesar de ter sido adquirida pela Walt Disney Studios, a companhia sempre se manteve fiel à estética apresentada desde ‘Toy Story’, de 1995, apostando em narrativas originais e que entregavam um novo capítulo para o cenário mainstream – afinal, quem pensaria em criar uma aventura em que brinquedos ganhando vida?

Ao longo dos anos, a necessidade de se aprofundar em reflexões sobre a vida, os relacionamentos e as amizades que coletamos com o passar do tempo transformou-se na marca registrada do estúdio – não com trivialidades, e sim com metáforas construídas com cautela e com atuação tanto para o público jovem quanto ao adulto. Desde ‘Vida de Inseto’ e suas mensagens de superação e de luta de classes até o recente ‘Soul’, que é o pináculo da celebração do que nos faz bem, são vários os títulos que poderiam ser discorridos com explorações metafísicas e delineações simbólicas – mas vamos centrar esse singelo artigo em dois títulos específicos: Procurando Nemo e Procurando Dory.



A minifranquia, que teve início em 2003 e criou uma das obras-primas mais importantes da Pixar, foi dirigida por Andrew Stanton e, a princípio, centrou-se em um peixe-palhaço chamado Marlin (Albert Brooks) que cruzou o oceano para encontrar o filho perdido, Nemo (dublado no primeiro filme por Alexander Gould e, no segundo, por Hayden Rolence). Encontrando-se com a otimista Dory (Ellen DeGeneres) no meio do caminho – que inclusive ganhou protagonismo na produção subsequente -, Marlin enfrentou adversidades impossíveis para resgatar a única família que lhe restava após um trágico acidente anos atrás que tirou a vida da companheira, Coral (Elizabeth Perkins).

Muito além de uma aventura marítima, ambos os longas-metragens são infundidos com temáticas densas e inesperadas, que dialogam com as múltiplas camadas de existir em uma sociedade tão intrincada quanto a nossa. Caracterizações à parte, que se espalham desde a monumental corpulência dos tubarões até as cores vibrantes de outros animais marinhos, é essa profundidade de enredo que nos chama a atenção, trazendo elementos tão precisos e, ao mesmo tempo, sutis para cativar a audiência. É claro que há uma certa repetição na fórmula utilizada por Stanton do primeiro para o segundo filme, mas a beleza visual ainda permanece – afora a química espetacular do elenco e os adoráveis personagens que acompanhamos.

Destrinchando Procurando Nemo, temos a típica “tragédia grega” que move os protagonistas, especialmente no conflito explosivo de gerações e de personalidades entre Marlin e Nemo. Outrora um peixe apaixonado pela imensidão do oceano, Marlin observou impotente Coral e suas centenas de filhos serem devorados por uma barracuda, crescendo com medo de até sair da própria anêmona. Tendo Nemo como o único sobrevivente, ele se torna um pai superprotetor ao extremo que nem quer levar o filho para a escola, desejando mantê-lo protegido a qualquer custo dos males que perscrutam o recife. Frustrado por ser encarcerado em virtude de traumas de outrem, Nemo quebra as regras impostas pelo mundo que conhece e sofre as consequências ao ser levado para longe – e é nesse momento que toda a configuração apresentada se transforma por completo.

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No livro ‘A Jornada do Herói’, de Joseph Campbell, a construção narrativa parte de princípios imutáveis que dão origem ao mito prototípico, como Odisseu, Frodo, Harry Potter e tantos outros personagens da cultura universal. Um deles é o cruzamento do limiar entre o mundo conhecido e o desconhecido – algo que é materializado com solidez palpável na animação. No momento em que Nemo cruza a linha que o protege, ele se torna alvo de forças desconhecidas que podem ser maléficas (como os mergulhadores que o levam para longe) ou benéficas (como os peixes de aquário que conhece quando chega a Sidney). A representação também acontece em Procurando Dory, em que a personagem de DeGeneres sai de um lar acolhedor e cheio de cores para a imensidão do mar e, como se não bastasse, lida com uma síndrome de perda de memória recente que a impede de traçar o caminho de volta.

Mas Dory configura-se como a heroína de Campbell, diferente de Nemo. No filme original, Marlin é aquele que deve partir em uma perigosa missão, restaurar a ordem natural das coisas e ressurgir como o peixe despreocupado que outrora era, livrando-se de fantasmas opressores de um passado distante e focando naquilo que importa. Não é por qualquer razão que seu filho tenha um nome tão peculiar: Nemo, no latim, significa ninguém. Marlin parte em busca de ninguém, pois ele, antes de tudo, precisa se reencontrar – e a sagaz escolha lexical é apenas a cereja no topo de um delicioso bolo preparado por Stanton e por todos os membros magníficos por trás da Pixar.

Na sequência, as coisas mudam e inclusive recuam um pouco para obviedades estilísticas: Dory deve achar a si mesma e à sua família; porém, colocando-se como culpada de ter se perdido dos pais e martirizando-se pelo problema com que nasceu, ela se enxerga como um fardo – e, num ciclo vicioso, acaba cometendo erros similares com Marlin e com Nemo (que agora unem forças para resgatá-la). O problema é que, enquanto a procura identitária de ‘Nemo’ é infundida em cada uma das tramas e dos subtextos que acompanham os protagonistas, ‘Dory’ se destrincha para a melancolia da solidão em um âmbito visual, calcando uma poética história que se vale mais das construções cênicas do que da simbologia em si.

Distinções à parte, as obras dialogam entre si ao apenas mudar a perspectiva principal – e mesmo as repetições têm um propósito claro e muito bem-vindo quando analisamos os espectros da Pixar: uma jornada constante que almeja ao descobrimento do próprio eu.

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