Saga de Marion Zimmer Bradley merece novo olhar

No espaço de tempo entre meados da década de 2010 e a atual é visível a tentativa de ressurgimento de algumas franquias baseadas em personagens clássicos da literatura; Robin Hood teve seu reboot, a Universal Studios tentou emplacar seu universo compartilhado com os monstros clássicos e a Blumhouse apostou na atualização da história do Homem Invisível. Com exceção da última todas falharam miseravelmente em conquistar público e crítica, decretando o fim prematuro desses conceitos.

No entanto, no meio desse turbilhão há uma obra literária que parece ainda persistir e tentar encontrar seu lugar ao sol. A relação entre Rei Arthur e o cinema é muito antiga, tal como uma caixinha de surpresas nunca dá para saber o que vai vir dessa união; Um clássico imortal da comédia como Monty Python em Busca do Cálice Sagrado ou um fiasco pseudo realista como Rei Arthur (2004)? Não dá para saber mesmo.

O diretor Guy Ritchie ensaiou o que teria sido um início de franquia com seu Lenda da Espada, apostando na fusão da clássica história de Arthur com uma abordagem moderna contendo cenas de luta coreografadas, inimigos de CGI e referências a outros personagens, bem como tramas em aberto para possíveis sequências diretas ou filmes derivados (os famosos spin off) da mesma maneira que ele fizera antes com as adaptações de Sherlock Holmes com Robert Downey Jr.



A abordagem do grupo Monty Python para a lenda arthuriana se tornou um clássico.

Apesar de certo apoio do público, o filme não teve grande performance nas bilheterias, falhando em cobrir os custos de produção, o que basicamente eliminou qualquer chance de uma sequência. Porém, é aqui que a história se diferencia dos exemplos anteriores; existem pelo menos mais outras duas produções centradas na mitologia arthuriana que ou já foram lançadas ou estão perto do lançamento.

Em 2020 a Netflix arriscou sua própria interpretação com Cursed – A Lenda do Lago, série focada na personagem Nimue (a famosa Dama do Lago que entrega Excalibur a Arthur) que vê seu povo ser massacrado por fanáticos religiosos e tem no mago Merlin a única esperança de salvar seus iguais. Mesmo que o serviço não tenha o hábito de divulgar os dados sobre audiências de seus programas é possível inferir que a primeira temporada não foi o sucesso que eles imaginaram, tanto que a série se encontra em um hiato. Não foi cancelada e nem teve a segunda temporada confirmada.

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Já o estúdio A24 está bem próximo de lançar sua adaptação do livro Sir Gawain e o Cavaleiro Verde no qual é contada uma aventura solo do famoso integrante homônimo da Távola Redonda. Com dois trailers divulgados as expectativas são altas para Green Knight, tanto pelo histórico positivo do estúdio com a liberdade concedida a seus diretores quanto pelo visual mostrado nos trailers.

“Green Knight” é a próxima aposta do cinema nas lendas do Rei Arthur.

Logo é possível arriscar que o ciclo arthuriano, dentre todas as propriedades clássicas adaptadas recentemente, ainda não jogou a toalha e realmente ainda existem muitas opções de material que funcionam bem como literatura e poderiam ter outro bom desempenho no audiovisual. Um exemplo é a saga das As Brumas de Avalon escritas pela Marion Zimmer Bradley.



Lançada inicialmente em 1979 elas representaram um grande boom no mercado editorial pela proposta inédita: revisitar a lenda arthuriana sob o ponto de vista das mulheres. Logo, na totalidade dos quatro livros é apresentada ao leitor uma noção melhor sobre essas personagens com personalidades tão clássicas quanto seus próprios nomes.

As mulheres da corte arthuriana são as protagonistas da vez.

É um belo trabalho de desconstrução, por assim dizer. Aqui a rainha Guinevere, constantemente apontada como traidora e responsável pelo fim de Camelot, tem a oportunidade de mostrar seu ponto de vista; Morgana pode tirar de seus ombros o peso de ser constantemente a vilã das aventuras de Arthur e revelar que tudo o que fez foi para proteger sua cultura; Igraine tem a possibilidade de se desprender da figura de Uther Pendragon e expor as angústias que levaram ao fim de seu casamento com Gorlois.

Em uma época em que o cinema, mais especificamente, está mudando sua direção para produções protagonizadas por setores sociais historicamente segregados seria muito interessante conferir uma nova abordagem de uma lenda tão conhecida e revisitada, que não se propõe apenas a repetir o que já foi tantas vezes escrito e mostrado mas puxar o foco para esse elenco de personagens.

Vale lembrar também que As Brumas de Avalon já teve uma adaptação para a televisão em 2001. É uma produção que vale conferir pela curiosidade mas tendo em mente também que muitas liberdades foram tomadas em relação ao material fonte. 

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