‘Central do Brasil’ emociona em CINE-CONCERTO no CineBH com presença de Vinícius de Oliveira; Assista a entrevista!

Há filmes que envelhecem. E há aqueles que parecem ganhar ainda mais força conforme os anos passam. ‘Central do Brasil’, obra-prima de Walter Salles lançada em 1998, voltou a emocionar o público em uma sessão muito especial durante a 20ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte. O clássico brasileiro foi exibido no histórico Cine Theatro Brasil em formato de cine-concerto, com sua trilha sonora executada ao vivo — e a noite ainda ganhou um convidado mais do que especial: Vinícius de Oliveira, o eterno Josué. A sessão lotada terminou sob aplausos e com a frase ‘Viva o Cinema Brasileiro’ projetada no palco.

A experiência transformou uma história que já é profundamente emocionante em algo ainda mais especial. Idealizado e dirigido pelo produtor musical Anselmo Mancini, o cine-concerto mantém intactos os diálogos, efeitos sonoros e imagens de ‘Central do Brasil’, mas substitui a reprodução convencional da trilha pela execução ao vivo.

Mancini assumiu o piano, acompanhado pelo Quinteto de Cordas ALMAI, além de instrumentos como rabeca, bandolim e viola caipira. Para que cada nota acompanhasse exatamente as imagens de Walter Salles, Mancini desenvolveu um sistema próprio de sincronização, com monitores para os músicos e um songbook preparado especialmente para a apresentação. O projeto é considerado o primeiro cine-concerto brasileiro realizado a partir de um longa-metragem sonoro nacional.

E foi justamente Vinícius de Oliveira quem tornou a noite ainda mais simbólica. Recebido com uma calorosa salva de palmas, o ator falou sobre a emoção de rever o filme dessa maneira quase três décadas depois de ter interpretado Josué.

E poucas obras pavimentaram essa estrada como ‘Central do Brasil’. O filme acompanha Dora (Fernanda Montenegro), uma professora aposentada que ganha dinheiro escrevendo cartas para pessoas analfabetas na estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro. É ali que ela conhece Josué (Vinícius de Oliveira), um garoto que sonha encontrar o pai que nunca conheceu. Quando uma tragédia deixa o menino sozinho, Dora acaba embarcando com ele em uma viagem pelo interior do país. O que começa quase como uma relação por obrigação lentamente se transforma em uma das amizades mais bonitas e humanas já retratadas pelo cinema brasileiro.

A própria descoberta de Vinícius de Oliveira parece roteiro de cinema. ‘Central do Brasil’ foi seu primeiro trabalho como ator. Antes disso, o menino trabalhava como engraxate quando chamou a atenção de Walter Salles e acabou convidado para participar dos testes. Vinícius superou mais de 1.500 candidatos para conquistar o papel de Josué. A parceria com Salles não terminaria ali: anos depois, eles voltariam a trabalhar juntos em ‘Abril Despedaçado’ e ‘Linha de Passe’. Hoje, aos 41 anos, Vinícius continua atuando e esteve recentemente em ‘Leite em Pó’, exibido também na programação da CineBH.

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Outra das curiosidades mais bonitas aconteceu durante as filmagens na própria Central do Brasil. Quando Fernanda Montenegro se sentava para interpretar Dora, pessoas que passavam pela estação e não sabiam que estavam diante de uma gravação realmente se aproximavam dela pedindo ajuda para escrever cartas. Algumas dessas interações acabaram incorporadas ao longa, aproximando ainda mais ficção e realidade. A ideia das cartas, aliás, possui raízes igualmente reais: a história teve inspiração em Socorro Nobre, ex-presidiária cuja trajetória envolvendo a escrita de cartas para detentas analfabetas ajudou a despertar em Walter Salles o interesse por aquele universo.

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O sucesso atravessou imediatamente as fronteiras brasileiras. ‘Central do Brasil’ conquistou o Urso de Ouro de Melhor Filme no Festival de Berlim, enquanto Fernanda Montenegro recebeu o Urso de Prata de Melhor Atriz. O longa também venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e o BAFTA na categoria internacional. Mas seria no Oscar de 1999 que o filme entraria definitivamente para a história: recebeu duas indicações, concorrendo a Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz. Com isso, Fernanda Montenegro tornou-se a primeira atriz latino-americana indicada ao Oscar de Melhor Atriz, feito que permanece como um dos momentos mais emblemáticos da trajetória internacional do cinema brasileiro.

Também existe muito Brasil por trás das câmeras. O roteiro foi assinado por João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein, enquanto a fotografia ficou a cargo do lendário Walter Carvalho. A trilha original, elemento que ganhou vida novamente no cine-concerto da CineBH, foi composta por Antonio Pinto e Jaques Morelenbaum. O elenco ainda reunia nomes como Marília Pêra, Othon Bastos, Matheus Nachtergaele, Caio Junqueira e Otávio Augusto.

Mais de 28 anos depois das filmagens, talvez seja justamente isso que explique por que ‘Central do Brasil’ continua emocionando tanto. A viagem de Dora e Josué é geográfica, atravessando um Brasil enorme, pobre, contraditório e belíssimo, mas é principalmente emocional. Enquanto o menino procura pelo pai, Dora parece reencontrar uma humanidade que havia deixado pelo caminho. As cartas nunca enviadas, os encontros com desconhecidos e as paisagens do interior acabam formando um retrato de um país marcado pela distância e pela necessidade de conexão — temas que permanecem dolorosamente atuais.

A própria CineBH define o deslocamento dos protagonistas como uma jornada de reconstrução afetiva, em que a transformação da paisagem acompanha a transformação dos personagens.

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Por isso, assistir a ‘Central do Brasil’ novamente em uma sala lotada, agora acompanhado por músicos executando sua trilha diante da tela, acaba sendo muito mais do que uma simples sessão comemorativa. É a oportunidade de perceber como um filme profundamente brasileiro conseguiu se tornar universal sem abandonar suas raízes. E ver Vinícius de Oliveira, aquele menino descoberto como engraxate e que ajudou a levar nosso cinema até o Oscar, sendo novamente aplaudido diante de Josué quase três décadas depois fecha o círculo de maneira emocionante.

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