Como se manda a tristeza embora? Essa foi a primeira coisa em que pensei assim que terminou os quase 100 minutos de projeção do longa-metragem brasileiro Leite em Pó, selecionado para a mostra vertentes do CineBH 2026. Partindo de uma despedida trágica que gera consequências peculiares e passando pelo precisar sobreviver imerso na desilusão dos sonhadores, esta obra, dirigida por Carlos Segundo, em seu primeiro longa de ficção, analisa profundamente um paciente da própria solidão.
O roteiro, que se arrisca num certo preciosismo nos detalhes iniciais, causa um verdadeiro impacto. É impressionante como os conflitos começam a surgir como uma chuva de fogos de artifícios ininterrupta a partir de uma segunda metade da história. Quando você percebe, está completamente envolvido e, muitas vezes, chocado com os acontecimentos que surgem de forma totalmente inesperada.
Vicente (Vinicius de Oliveira, em grande atuação) sempre gostou de música, principalmente de rock, e tenta a vida artística em pequenas apresentações pela cidade. Mas a realidade se mostra presente, precisando viver de bicos para ganhar alguns trocados. Um dia, ao chegar em casa, se depara com uma enorme tragédia, algo que vai redefinir seu destino. Precisando pagar as contas e sobreviver, descola um emprego como vendedor de álbuns de formatura e, assim, começa a conhecer algumas pessoas que, junto com algumas verdades escondidas por anos no seu berço familiar, começa a fazê-lo redesenhar sua trajetória.
Tudo começa com um lettering intrigante – e que eu mesmo não sabia –, mencionando como Natal se tornou uma base estratégica norte-americana durante a segunda guerra mundial, fato que levou militares a passarem períodos por aqui. E vamos entender a importância desse contexto para a trama ao longo das revelações que expõe os diversos tipos de violência doméstica silenciosa que atinge muitos lares.
Crítica | ‘Pequenas Tragédias’ – Uma ‘mágoa trip’ sobre ressignificados
Eu sempre uso um caderno para fazer pequenas anotações ao longo dos filmes. E a primeira palavra que escrevi sobre essa obra foi luto. E é seguindo por esse tema, que se abre como uma mosaico de sentimentos, que toda essa história circula.
Quem nos guia para essa jornada, que reforça a distância cada vez mais entre as desilusões e os sonhos, é um intrigante e complexo personagem: um roqueiro que encontra em um novo trabalho uma maneira de conhecer outras histórias e, assim, enxergar a luz no fim do túnel ao olhar para si mesmo. Muitas vezes a bordo do seu Voyage antigo, o protagonista embarca num desfile melancólico, encarando, como pode, os game overs que a vida lhe impõe.
A narrativa segue por ações cadenciadas e detalhistas, buscando transportar o público para os conflitos que se mostram constantes e inesperados, com certos respiros para reflexões. Nas batidas da vida, com grandes clássicos do rock nacional à disposição da trilha sonora, a cada nova tentativa de álbum vendido, surpresas e lições surgem. Nesta obra, os coadjuvantes são muito bem aproveitados e são de total importância nos conflitos que atravessam a jornada do protagonista.
Leite em Pó é um filme que você assiste e vai lembrar dele depois. Deixa momentos marcantes, muitas reflexões e planta uma semente importante: de que as relações são eternas construções que também definem quem somos.

