Quarta-feira, dia 23 de setembro. Acordei animado, já que hoje seria o início das mostras competitivas aqui do CineBH 2026. Levantei cedo, tomei um saboroso café da manhã no hotel Holiday Inn, coloquei alguns textos em dia e me preparei para uma sequência de três filmes, de três países diferentes.
Comecei os trabalhos na aconchegante sala Humberto Mauro, situada no Palácio das Artes, um ponto de encontro cultural maravilhoso que fica na avenida Afonso pena, região central da grande belo horizonte. Chegando nesse lugar que conheço muito bem, me deparei com a chegada da modernização: agora é necessário retirar os convites em um totem localizado em frente à sala. Não há mais aquela primeira interação com a equipe de bilheteria. Uma pena.

Logo na minha primeira sessão do dia, encontrei com o filme que mais me chamou a atenção e aborda um assunto que ganha cada vez mais importância nas questões geopolíticas: a crise migratória. Muito comentada e registrada no cenário europeu, aqui na América do Sul também há um recorte importante para reflexões. Exatamente essa é a proposta do documentário Si Vas para Chile. Dirigido por Amilcar Infante e Sebastián González Méndez, a obra, selecionada para a mostra competitiva horizonte do CineBH 2026, nos guia por um recorte sociológico dilacerante, mostrando os elos da corrente que unem o embate cultural e a corrupção moral, desembocando em questões sobre direitos humanos.
A construção fílmica, pra criar potência nos importantes relatos que se misturam em ilustrações panorâmicas (significando extensão) e de depoimentos de imigrantes, muitos deles venezuelanos, nômades de suas próprias identidades e perdidos na esperança de oportunidades, utiliza um mix de imagens e movimentos que formam uma ilustração multifacetada dos evidentes desafios de gestão, expondo o radicalismo e a xenofobia. Um filme avassalador. Leia a crítica completa aqui.
Depois, corri para o Cine Belas Artes para assistir Pele de Rinoceronte.

Anotado em minha agenda para assistir desde o primeiro dia em que saiu a grade de programação do CineBH 2026, o longa-metragem Pele de Rinoceronte, dirigido por Marcello Ludwig Maia, enfim chegou a terras mineiras na noite da última quarta-feira (23 de setembro). Selecionado para a mostra vertentes do festival, a obra nos leva a uma trama que apresenta duas estradas em paralelo, tendo em comum a luta por justiça após um ato violento contra uma mulher chocar o país.
Quando pensamos no título: pele de rinoceronte, podemos entendê-lo como uma alusão à ideia de seguir em frente mesmo diante das adversidades que chegam com força em uma sociedade machista, levando o atravessar das fragilidades se tornarem uma forma de resistência. E essa ideia encaixa perfeitamente na trajetória das personagens.

Em meados de 1970, conhecemos primeiro a jornalista Helena (Débora Falabella), uma mulher apaixonada por sua profissão, funcionária de um jornal popular que vai atrás de informações sobre um assassinato. Em paralelo, somos apresentados aos preparativos de Maria Thereza (Naruna Costa, vencedora do Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante no último Festival de Gramado) uma advogada criminalista que atuará no mesmo caso. Essas duas histórias vão nos guiando em torno de um crime de ódio contra mulher que ganhou grande repercussão (o projeto é inspirado no caso Ângela Diniz). Leia a crítica completa do filme aqui.
Após a sessão, nosso editor-chefe, Renato Marafon, entrevistou uma das protagonistas do filme, a atriz Débora Falabella. (veja a entrevista aqui)
Pra fechar a noite, peguei um carro de aplicativo para chegar até o palácio das artes e lá assisti a um longa-metragem colombiano, Pukem Swa.

A revitalização de uma língua de ancestrais indígenas é o ponto central desse documentário que busca, em momentos cotidianos de uma criança de 10 anos, indicar a importância do legado de seu povo, oriundos dos andes colombianos. Dirigido por Samuel Moreno Alvarez e selecionado para a mostra território do CineBH 2026, embarcamos em um filme sensorial, com longa duração de planos, que revela parte de uma cultura local e busca trazer reflexões sobre um importante recorte de nosso continente.

Por meio de uma rasa contextualização, entendemos que Chibcha é uma língua indígena que entrou em desuso após a invasão espanhola na América. Associada ao povo Muisca, entrou em total apagamento com a colonização espanhola, a partir do século XVI. Assim, o filme propõe documentar uma descoberta de um pai e seu filho por meio dos ensinamentos culturais do passado, uma espécie de reconquista de tradições perdidas pelo tempo. Leia a crítica completa aqui.
Com esses três filmes em mente, e já esboçando as primeiras linhas para meus textos, jantei perto da meia-noite no ótimo restaurante Tilapia Grill e, além de um prato delicioso, tomei três limonadas sensacionais. Pra quem estiver por BH, recomendo.
O CineBH continua até o dia 27 de setembro, reunindo mais de 100 filmes de alguns país sul-americanos. Acompanhem nossa cobertura aqui pelo site e pelas nossas redes sociais.


