Anotado em minha agenda para assistir desde o primeiro dia em que saiu a grade de programação do CineBH 2026, o longa-metragem Pele de Rinoceronte, dirigido por Marcello Ludwig Maia, enfim chegou a terras mineiras na noite da última quarta-feira (23 de setembro). Selecionado para a mostra vertentes do festival, a obra nos leva a uma trama que apresenta duas estradas em paralelo, tendo em comum a luta por justiça após um ato violento contra uma mulher chocar o país.
Quando pensamos no título: pele de rinoceronte, podemos entendê-lo como uma alusão à ideia de seguir em frente mesmo diante das adversidades que chegam com força em uma sociedade machista, levando o atravessar das fragilidades se tornarem uma forma de resistência. E essa ideia encaixa perfeitamente na trajetória das personagens.
Em meados de 1970, conhecemos primeiro a jornalista Helena (Débora Falabella), uma mulher apaixonada por sua profissão, funcionária de um jornal popular que vai atrás de informações sobre um assassinato. Em paralelo, somos apresentados aos preparativos de Maria Thereza (Naruna Costa, vencedora do Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante no último Festival de Gramado) uma advogada criminalista que atuará no mesmo caso. Essas duas histórias vão nos guiando em torno de um crime de ódio contra mulher que ganhou grande repercussão (o projeto é inspirado no caso Ângela Diniz).
O roteiro, escrito por Josefina Trotta, se debruça em torno de debates sobre discursos sociais que envolvem o tema do feminicídio. Os paralelos que se juntam e os dias que se seguem na vida de duas mulheres, à luz de um mesmo caso de violência, tentam expor toda uma contextualização, expondo reflexões importantes sobre o comportamento misógino inserido na sociedade. O projeto fala o que precisa ser dito.
A narrativa busca uma certa objetividade, encontrando, em seus espaços de respiros, complementos que criam um elo que liga a vivência cotidiana da jornalista e da advogada e o elo que as une naquele momento. Entretanto, a direção possui uma condução pouco envolvente, reunindo cenas maravilhosas, como a simulação do júri, executada com brilhantismo por Naruna Costa, a histórias complementares, principalmente no arco da personagem de Débora Falabella, que não ganham tanto impacto quanto poderiam.

