Jane Schoenbrun fez sua estreia diretorial com o aclamado ‘Vamos Todos à Exposição Mundial’, que encontrou sucesso imediato de crítica e de público e apostou em uma profunda e inesperada análise social sobre temas como autorrealização, disforia e mediação identitária, valendo-se de uma estética onírica que mancha as linhas divisórias entre fantasia e realidade através de uma habilidade invejável. Dois anos depois de ter feito um glorioso debute, Schoenbrun retornou com o ambicioso terror psicológico ‘Eu Vi o Brilho da TV’, disponível no catálogo da HBO Max e que ampliou esse universo quase surrealista e intangível em um dos melhores do gênero da década através de uma insana e intrincada narrativa sobre nostalgia e compreensão.
A trama é centrada em Owen, interpretado por Ian Foreman em sua versão mais jovem e por Justice Smith em sua mais velha. Owen é um garoto tímido que, navegando pela turbulenta passagem da infância para a adolescência – e, enfim, para a vida adulta -, nunca se sentiu pertencente a qualquer lugar. Em um determinado dia, ele cruza caminho com Maddy (Jack Haven), uma garota isolada e apaixonada por uma série de televisão de fantasia jovem-adulta chamada The Pink Opaque. A produção acompanha duas adolescentes que utilizam seus poderes psíquicos para combater o supervilão Sr. Melancolia e seus asseclas – e imediatamente chama a atenção de Owen.

Interessado em assistir, ele inventa uma mentira para os pais para dormir na casa de Maddy e, de imediato, se vê engolfado em um universo que beira o nonsense e que, de alguma maneira, parecem ecoar na tristonha e desconexa realidade em que está – funcionando como algo maior do que um escape, e sim como uma peça de um complexo quebra-cabeça que ele ainda estava tentando entender. E o mesmo acontece com Maddy: sentindo-se desprendida do cruel mundo em que está, ela acredita que o mundo de The Pink Opaque é uma verdade imutável e que ela está presa em um ciclo de decepções e solidão como uma punição sádica. Não é surpresa que, em um ímpeto psicótico, ela resolve fugir de casa e desaparecer por anos.
Schoebrun promove uma análise existencialista que transforma os tropos do gênero em uma extensão da intrincada psique humana, esquadrinhando temas que se destrincham em metáforas originais e que atingem seu objetivo de nos arrepiar e nos angustiar por obrigar os personagens a confrontarem seus medos. Não é surpresa que a estrutura do filme opere em um âmbito simbólico e coloque ambos os personagens em respectivos arcos de amadurecimento, mas pincelados com um sombrio agouro que não pensa duas vezes para navegar por territórios ambíguos. “Você tem medo do que tem aí dentro”, Maddy diz a Owen em uma das cenas-chave do filme.

Ainda morando com os pais depois de se graduar no colégio, Owen permanece em um crescendo depressivo que se agrava após a morte da mãe e ao compreender que está preso à única cidade que conhece. Maddy, então, faz um inesperado regresso e diz que, em suas andanças tentando se afastar de uma vida desprezível, ela percebeu que, na verdade, ambos fazem parte de The Pink Opaque, tendo sido envenenados pelo Sr. Melancolia e presas em uma realidade obscura e da qual precisam escapar (para que uma nova temporada comece).
Como podemos ver, Schoenbrun, também responsável pelo roteiro, tem um apreço significativo pelas pulsões psicodramáticas e, dessa maneira, apoia-se em bases bem conhecidas e sólidas para promover um profundo estudo de personagens que nos deixa arrebatados. As vibrantes e coloridas cenas, colocadas em justaposição com uma sobriedade impulsiva e inescapável, permitem que o palpável e o imaginário sejam apenas extensão um do outro – e garantem que o recurso visual e estilístico transmute-se em palco para discussões sobre transsexualidade, saudosismo compulsório e libertação identitária.

Singrando em meio a tantas peculiaridades inebriantes, está o trabalho memorável dos dois atores principais. Lados de uma mesma moeda e supostas vítimas de uma artimanha sobrenatural, Smith e Haven se complementam pela forte oposição de personalidades – esta encontrando a verdade por sua determinação autodestrutiva, aquele complacente em uma autodestruição similar, e ambos caminhando lado a lado numa tentativa de encontrarem quem realmente são. Tendo seus respectivos arcos, Smith se entrega de corpo e alma a uma personalidade que parece não existir por conta própria e em detrimento de uma ambígua libertação que Haven, em uma gloriosa performance, encontra com Maddy.
‘Eu Vi o Brilho da TV’ com certeza não é o tipo de projeto que agradará a todos e, eventualmente, posa como um título nichado que une horror e drama psicológico em um mesmo lugar, oferecendo uma perspectiva diferenciada da que estamos acostumados para tratar de temas extremamente atuais. Com uma distinta estética e valendo-se do talento de seus atores principais, Schoenbrun promove uma exploração experimental da complexidade da vida e da nostalgia de maneira instigante e diabolicamente sedutora.


