Crítica 2 | ‘Michael’ é uma embalagem bonita para uma caixa vazia. Para alguns, isso basta

CríticasCrítica 2 | 'Michael' é uma embalagem bonita para uma caixa vazia. Para alguns, isso basta

Na última década, as cinebiografias de ícones da música tomaram conta do cinema dos Estados Unidos. Apesar de algumas se destacarem, como o espetacular Rocketman (2019), a maioria se mostrou vazia e sem coragem, não justificando sua existência. Foram filmes “chapa branca”, que acabaram contando com ampla intervenção dos detentores da “marca” para preservar as imagens de membros dos grupos já falecidos. Por isso, quando filmes como Springsteen: Salve-me do Desconhecido (2025), que abordam seus protagonistas com sinceridade, aparecem, o público parece estranhar tanto. Normalizou-se tratar esses ícones com superficialidade, enquanto o texto tenta te convencer sobre a profundidade desses personagens.

São filmes que te mostram um prato de sopa cheio de água e ficam te falando o tempo inteiro que aquilo ali é uma piscina, como se isso fosse o bastante para permitir que você mergulhasse. O exemplo mais famoso disso é o infame “filme do Queen“. Apesar de ter um trabalho de figurino e maquiagem excepcional de forma geral – recriando com perfeição praticamente todos os membros da banda, com exceção daquela prótese bizarra que enfiaram no rosto do Rami Malek -, a escolha narrativa de Bohemian Rhapsody (2018) constrói uma trama que tira todo o peso profissional das escolhas da banda e trata o sucesso do grupo como um mero acaso, dando a impressão de que qualquer banda que tivesse o Freddie Mercury como vocalista daria certo. O que a própria realidade provou ao contrário. Pior do que isso, o filme ainda deu a entender que as tragédias da vida do vocalista não teriam acontecido caso ele fosse heterossexual, o que, por si só, foi uma grande ofensa à memória do artista. Sem contar as inúmeras informações erradas trazidas no longa, datas e contextos que transcenderam a liberdade poética ao comprometerem o peso de shows históricos.

Bohemian Rhapsody acabou virando ‘pioneiro’ desse movimento de biografias musicais, com a repercussão do longa servindo como exemplo para outros cineastas do que fazer ou não na hora de adaptar histórias de ícones da música. Ainda assim, o longa fez uma bilheteria impressionante e conquistou prêmios – muitos inexplicáveis, como o Oscar de Melhor Montagem, um dos pontos que foi massacrado até mesmo por parte do público. Infelizmente, acabou ditando um padrão do qual poucos cineastas ousaram se distanciar: prezar pela estética e nostalgia, deixando a história e a construção de personagem de lado.

E assim que o longa se consolidou como sucesso comercial, os estúdios começaram a trabalhar em outros ícones. Ou seja, era apenas questão de tempo para que o maior de todos, Michael Jackson, entrasse em cena. E após anos de uma produção marcada por controvérsias, Michael, enfim, chegou aos cinemas nesta semana. Dirigido por Antoine Fuqua, o filme traz os mesmíssimos problemas de Bohemian Rhapsody e acaba sendo construído com grande preocupação estética e pouquíssima vontade de realmente contar a história de Michael Jackson. Como disse no título do texto, é como um presente com embalagem belíssima, que é desembrulhada para revelar uma caixa vazia. A falta de conteúdo é preenchida com a playlist espetacular do cantor. Mas, em alguns momentos, fica a sensação de que o time criativo pegou um gibi da biografia do artista, só leu as figuras e achou que seria o bastante para contar essa história.

Foto: Glen Wilson/Lionsgate

Por se tratar de Michael Jackson, as repercussões desse filme serão extremas. Poucas vezes na história um ser humano foi capaz de despertar tamanha paixão, movendo multidões pelo mundo, como esse homem fez. Existe um antes e depois de Michael na indústria musical global, tamanho seu primor artístico e impacto nesse meio. Ao mesmo tempo, do momento de sua origem ao seu pós-morte, a passagem dele pelo mundo foi marcada por controvérsias e polêmicas. E tudo isso ajudou a construir o mito moderno de Michael Jackson. Ninguém teve um auge tão meteórico quanto ele. Porém, para chegar a esse ápice, ele passou por muitos abusos e teve muita ralação nos bastidores.

E aí que entra a grande problemática do longa. Ele é estruturalmente idêntico a Bohemian Rhapsody, do início ao fim, a estrutura é a mesma. Inclusive, fica a dica: para quem não viu o filme do Queen, não o assista antes de Michael, tamanha a redundância narrativa dos dois. É algo que pode verdadeiramente influenciar na sua experiência do filme de 2026. Enfim, o problema maior de Michael é que o longa usa a desculpa de querer retratar o auge do artista para tratar dos abusos sofridos na infância como algo simples. O pequeno Mike e seus irmãos cortaram um dobrado nas mãos do pai, Joe Jackson, que batia neles e obrigava as crianças a trabalharem exaustivamente para fazer do The Jackson 5 uma realidade.

Foto: Divulgação/ Glen Wilson
O filme retrata esse momento de forma banal. Os irmãos são recorrentemente reduzidos a alívios cômicos ao longo da trama, enquanto o pequeno Michael (interpretado brilhantemente pelo pequeno Juliano Krue Valdi) apanha uma vez e aparece sendo contrariado vez ou outra. Passa uma sensação de que tudo que ele sofreu foi “aceitável”, adotando uma perspectiva comercial muito complexa de se vender. Os abusos da infância de Michael, que impediram o garoto de ser criança efetivamente, não podem ser normalizados. Faltou essa sensibilidade de mostrar Joe como um monstro, não apenas como um empresário folgado que via os filhos como uma mina de dinheiro. E isso provavelmente esbarrou nas interferências da família nos bastidores, que, segundo indicam os rumores, solicitou a exclusão de conteúdos e fez com que o final do filme passasse por uma refilmagem.
Questões mais pessoais ao artista, como sua obsessão estética e o caso de vitiligo, que ele escondia com a própria vida, também são mencionados, mas nunca trabalhados. É uma cinebiografia que dedica pouquíssimo tempo a realmente mostrar a vida do protagonista. Ao final da sessão, fica a sensação de que você termina o filme sabendo menos da vida do Michael do que sabia antes. E isso é mais do que complicado, é frustrante, principalmente por se tratar de Michael Jackson. A virada de chave da relação do músico com a MTV, por exemplo, que é um dos capítulos mais interessantes da história da música mundial, porque revoluciona de uma vez por todas a importância dos videoclipes – e do próprio canal em si – é resumida a uma piadoca.
Colman Domingo está irreconhecível como Joe Jackson. Foto: Divulgação/ Lionsgate

Mas talvez nada seja tão frustrante para os fãs do músico quanto o não desenvolvimento da relação dele com o produtor Quincy Jones, o responsável por libertar a fera criativa que Michael Jackson foi. É como retratar a dupla Bebeto e Romário na Copa do Mundo de 1994, reduzindo o Bebeto à comemoração “Embala Neném”, deixando de lado suas contribuições em campo para o Tetra. Quincy aparece “do nada” na trama, tem uma cena com Michael no estúdio e fica nisso. Os longos processos criativos da dupla, a forma como eles se entendiam de maneira quase sobrenatural, não é retratada, dando a impressão de que Michael seria o mesmo ícone que é hoje mesmo se não tivesse a influência do lendário produtor. E não é assim. Houve todo um trabalho coletivo para Michael se tornasse Michael Jackson. Não foi só talento, não foi por acaso.

Outro ponto complicado do filme é a direção e a montagem, que repete os mesmos problemas de Bohemian Rhapsody para contar essa história. Há momentos em que há tantos cortes para cenas simples de diálogo, que a sensação é de estar assistindo uma sequência de ação em que nada acontece. É muito picotado. Outro ponto é que a direção busca muita influência nos videoclipes, mas não consegue se decidir se quer retratar esse filme como uma obra para cinema ou para TV. Nas sequências dos shows, por exemplo, há traços de direção para TV, de equipes de transmissão de shows mesmo, que se misturam a traços de direção cinematográfica. O resultado até funciona em alguns momentos, só que causa um estranhamento em outros.

Foto: Glen Wilson/Lionsgate

Ainda assim, apesar de repetir os problemas de Bohemian Rhapsody, e trazer esse jeitão de longa para TV, Michael consegue ser um filme bem melhor que o do Queen ao fazer dessa jornada uma experiência divertida. Mesmo com tantos problemas, há méritos muito intensos aqui. A começar pelas atuações. Colman Domingo está irreconhecível como Joe Jackson, mas quem brilha mesmo é Jaafar Jackson. Filho de Jermaine Jackson, o garoto é sobrinho de Michael na vida real. Talvez seja por isso que ele consegue dar tanto brilho ao papel, é algo pessoal para ele. E mesmo que haja um estranhamento no início, o rapaz incorpora muito bem o tio, principalmente nas cenas em que o personagem usa os famosos óculos escuros. Há cenas em que a semelhança realmente chega a assustar.

O elenco de apoio está ali apenas para criar situações para o Michael assumir o centro das atenções, sem muito a acrescentar. Porém, em meio às excentricidades suavizadas da vida do artista, uma se destaca: o chimpanzé Bubbles. O macaquinho de CGI tinha tudo para ser uma bizarrice em cena, mas a forma como retratam sua chegada e como os coadjuvantes reagem a ele cria um tom cômico que te faz comprar aquela situação imediatamente. É simplesmente hilário.

Divulgação: Lionsgate

Ah sim, não tem como falar desse filme sem mencionar a playlist absurda. Por ter produção da família, Michael teve acesso a todo o acervo de Michael Jackson e dos Jackson 5, que provavelmente serão redescobertos por muitos ouvintes antigos, além de chegarem a novas gerações. O resultado será visto nas próximas semanas, com possíveis novos recordes sendo quebrados nas plataformas de áudio, já que a exposição será colossal. No fim das contas, o grande propósito musical desse filme é esse mesmo, reaquecer números da família Jackson. De qualquer forma, é uma trilha musical absurda. Ver essas canções surgindo no cinema é uma experiência por si só, vê-las em momentos de recriações de videoclipes ou apresentações, como Bad ou Thriller são de arrepiar. O poder da nostalgia é muito intenso – e Hollywood sabe disso. E são esses momentos que vão conquistar o público.

Ao conversar com um amigo que não gosta muito de cinema, ele disse que o filme tem músicas boas e é divertido, e isso basta para conquistá-lo. Então, talvez seja esse o grande mérito do filme. Ele sabe que será massacrado pela crítica, mas também sabe que vai fazer uma bilheteria homérica. Então, lidar com críticas negativas talvez já seja até mesmo parte da estratégia de divulgação internacional do longa, em um tipo de “EuricoMirandismo Cultural”, desse “nós contra eles”, de que “se a crítica não gostou, então o filme é bom”. É muito curioso ver como isso virou um tema tão presente no cinema atual.

No fim das contas, Michael é um filme frustrante pela grandiosidade do protagonista que foi reduzida a uma aventura comum. Michael Jackson merecia um retrato biográfico mais à altura do que ele representou para a música. Apesar disso, é um filme ridiculamente divertido, embalado por uma playlist à prova de erros e com um elenco que faz o possível para se destacar.

É um filme esteticamente bonito, que tenta compensar a falta de conteúdo com nostalgia, referências e um trabalho grandioso de figurino e maquiagem. É um filme com toda a cara das sessões vespertinas do fim de semana na TV aberta, que certamente vai fazer uma bilheteria impressionante mundo afora.

Michael está em cartaz nos cinemas.

Pedro Sobreiro
Pedro Sobreirohttps://cinepop.com.br/
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.

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