“São continuações no nome, mas são refilmagens no espírito.” Esta frase está presente no famoso e polêmico artigo de Martin Scorsese sobre os filmes de super-heróis no New York Times. A maioria das pessoas se fixou no debate “filmes da Marvel são cinema?” e acabaram ignorando muitas coisas interessantes que o lendário cineasta quis dizer. E uma dessas coisas foi justamente isso: há uma tendência de se apostar no que é fácil, de se fazer apenas o seguro. A frase acima foi sobre a Marvel, mas se encaixa perfeitamente para Star Wars.

Lançado no final de 2017, Star Wars: Os Últimos Jedi causou polêmica e protestos por parte dos fãs mais radicais. Eles se incomodaram com a abordagem do Luke, com a nova personagem vivida por Kelly Marie Tran, com o aumento da representatividade feminina e com uma quebra de expectativa envolvendo a história de origem de Rey. Pois bem, falem o que quiser do Episódio VIII, mas uma coisa é certa: Rian Johnson ao menos tentou fazer algo diferente. Pode ter errado aqui acolá, mas fez suas piruetas sem uma rede de proteção.

O mesmo não se pode dizer de J.J. Abrams… Chamado para “salvar a franquia” – o que por si só era um grande exagero -, o diretor optou pela segurança e pelo fan service para entregar aquele que talvez seja o pior e menos interessante longa de toda a saga. Star Wars: A Ascensão Skywalker não arrisca em momento algum. Não propõe nada de novo. Não traz um personagem novo relevante.



J.J. já não havia arriscado muito em Star Wars: O Despertar da Força, praticamente uma refilmagem de Uma Nova Esperança, mas mesmo ali havia um sentimento de novo. Requentado, mas novo. Um novo trio de protagonistas, uma nova ameaça e por aí vai. Passados quatro anos, o diretor decidiu “refilmar” O Retorno de Jedi e preencher a tela de referências à trilogia original, com direito ao retorno de personagens importantes, no pior estilo de El Camino, recente filme de Breaking Bad.

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O cineasta já havia usado a nostalgia para cativar o público no Episódio VII, mas aqui parece que a nostalgia é a única coisa que realmente importa. Aqui, o fan service não é elemento narrativo, mas ponto de partida. Ele parece ter recebido a missão de apagar Os Últimos Jedi e faz isso sem nenhuma vergonha. O que talvez não tenha percebido é que fazendo isso, ele também apagou qualquer pingo de originalidade de sua trama, deixando a nova trilogia como algo descartável.



Após a queda do Líder Supremo Snoke, a Aliança Rebelde descobre que não está livre de maiores ameaças. O temido Imperador Palpatine (Ian McDiarmid) está vivo e disposto a apagar a existência dos jedi. Então, determina que Kylo Ren (Adam Driver) mate Rey (Daisy Ridley) ou traga-a para o lado negro. Sim, estamos diante da mesma dinâmica que vimos entre Palpatine, Darth Vader e Luke no Episódio VI.

Diante da ameaça de Palpatine, Leia (Carrie Fisher) seleciona seu time principal (Rey, Finn, Poe e Chewie) para descobrir onde está o vilão e encontrar formas de detê-lo. A partir daí, temos uma jornada repleta de soluções fáceis. A saga de George Lucas sempre teve suas facilidades de roteiro, mas nunca como acontece em A Ascensão Skywalker. Em vários momentos, os personagens são informados de uma dificuldade para logo se depararem com a solução. “Precisamos encontrar tal coisa, Luke procurou por isso a vida inteira.” Duas cenas depois e eles tropeçam no que precisavam encontrar. E isso acontece diversas vezes, inclusive envolvendo a morte de personagens.



Voltando a investir na história de origem de Rey, apagando a ideia do filme anterior de que qualquer pessoa pode desenvolver a força e voltando para a concepção elitista de que a mesma é algo presente em apenas algumas “famílias”, o novo longa parece não saber o que fazer com seus protagonistas. Finn (John Boyega) volta a ser um capacho de Rey. Não tem atitude própria. Tudo que faz é para agradar/proteger a heroína, que definitivamente não precisa de sua ajuda. O longa ainda trata de investir de forma desorganizada em interesses amorosos para Finn e Poe (Oscar Isaac), quase que para deixar claro que os dois não são gays, como desejava parte dos fãs. Neste sentido, investe tanto para negar a homossexualidade de seus protagonistas – como se isso fosse um grande problema – que inserir um beijo piscou-perdeu entre duas mulheres soa como algo mais oportunista do que revolucionário. Como se o filme dissesse para a comunidade LGBTQ: “toma aí um beijo gay e para de reclamar.” É uma representatividade fake e desimportante. J.J. querendo agradar e fazendo só o básico para isso.

Para agradar aos haters de plantão, o novo longa deixa a Rose de Kelly Marie Tran completamente de lado. Em mais de uma ocasião, ela aparece em cena se recusando a participar da ação principal, algo que vai completamente contra a personagem que vimos no anterior.

Star Wars sempre foi uma saga irregular, com muitos altos, mas com alguns baixos. Star Wars: A Ascensão Skywalker é o pior filme da saga (não contando Han Solo: Uma História Star Wars). Esta talvez não seja uma afirmação fácil de se fazer. Mas não dá pra negar que mesmo a trilogia dos anos 90/2000 tinha o mérito de buscar algo novo. George Lucas cometeu vários erros com A Ameaça Fantasma, Ataque dos Clones e A Vingança dos Sith, mas também tentou coisas diferentes, ousou com um pano de fundo político bem mais forte, por exemplo. Apontado por muitos como o pior da franquia, o Episódio I tinha Jar Jar Binks e uma infantilização exagerada, mas também tinha elementos marcantes, como o Qui-Gon Jinn vivido por Liam Neeson ou o Obi-Wan de Ewan McGregor. Isso sem falar em um vilão visualmente interessante, como Darth Maul.

Em determinado momento, um personagem importante pergunta para Rey: “O que você está fazendo?” J.J. Abrams deveria ter se perguntado o mesmo. Ele entrou no jogo com tanto medo de perder que nunca chegou perto de ganhar. Assim, a mesma pessoa que reviveu o encanto de Star Wars para toda uma nova geração foi a responsável por destruí-lo. Uma pena.



Filme visto durante a cobertura do Festival do Rio 2019

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