Enquanto a Disney e a Pixar (ambas pertencentes ao mesmo nicho cinematográfico) costumam dominar o cenário animado com produções que quebram recordes e se tornam as favoritas tanto do público quanto da crítica especializada, há um outro estúdio que merece nossa atenção tanto pela originalidade estética quanto pelas divertidas tramas que apresentam aos fãs do gênero: a Sony Animation.

Subsidiária da Sony Pictures, a companhia já nos entregou pérolas do panorama do entretenimento contemporâneo, desde sua fundação em 2002 (e, mais precisamente, desde sua estreia oficial em 2006 com ‘O Bicho vai Pegar’). Apenas para citar alguns de seus vários títulos, temos a franquia ‘Hotel Transilvânia’, destinada essencialmente aos espectadores infantis e que, agora, caminha para mais um capítulo; o vencedor do Oscar e um dos longas-metragens mais aclamados das últimas décadas, o instigante ‘Homem-Aranha no Aranhaverso’; e, em 2021, a vindoura estreia de ‘A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas’, uma espécie de releitura cômica da icônica saga sci-fi ‘O Exterminador do Futuro’ que não apenas arquiteta um universo próprio, mas preste homenagem à própria arte de fazer cinema da forma mais irreverente possível.

A obra, exibida através da Netflix, é uma das entradas mais surpreendentes do ano, cuja principal força emerge de um elenco de dublagem esplêndido e de uma certa originalidade nostálgica que permeia cada um dos arcos apresentados. A história é contada pela perspectiva de Katie Mitchell (Abbi Jacobson em mais um trabalho espetacular depois de encarnar Tiabeanie em ‘(Des)Encanto’), uma jovem apaixonada por filmes que começou a gravar os próprios curtas-metragens e, dessa forma, descobriu um mundo de possibilidades que lhe dava uma certa direção dentro de “uma família de estranhos”. Apesar das esperadas atribulações entre ela e o pai, Rick (Danny McBride), o qual nunca deu muita importância para os sonhos da filha, ela mantém uma relação bastante saudável tanto com a mãe (interpretada por Maya Rudolph) e com o irmão mais novo (Mike Rianda).



Mesmo nutrindo de uma afeição complicada pela família, Katie não vê a hora de finalmente se encaixar no mundo, esperando ansiosamente o dia de entrar para a faculdade e dar início a uma trajetória que deve fazer por conta própria. Mas as coisas saem de controle quando PAL, assistente virtual de uma corporação tecnológica, se volta contra seu próprio criador e, utilizando todas as ferramentas possíveis, reúne todas as máquinas que possuem o selo da companhia para uma rebelião assustadora que tem como principal objetivo livrar o mundo do individualismo exacerbado e da praga que chamam de “humanos”. E as coisas ficam ainda mais incríveis quando nos lembramos de que a vencedora do Oscar Olivia Colman empresta sua voz para a antagonista.

Quando pensamos em termos de enredo, tudo pode parecer previsível. Afinal, os Mitchell, mantendo-se firmes como os últimos sobreviventes de um levante apocalíptico, devem mergulhar numa road trip para salvar o mundo e para se reconectarem uns aos outros, estreitando tênues laços que estão prestes a romper. De um lado, Katie dispõe-se como uma guru da informática e traça um intrincado plano para desligar PAL e restaurar a ordem; de outro, Rick, o exato oposto da filha, é um leigo em qualquer coisa que envolva tecnologia e, trocando de lugares, precisam compreender as nuances que os tornam tão diferentes para se unirem contra um inimigo em comum – que, no final das contas, também renega o maniqueísmo “mocinho-vilão” para trazer temas de importante discussão, ainda mais nos dias de hoje.

Movida a um ácido humor, o roteiro é minuciosamente detalhado por Mike Rianda e Jeff Rowe para contrariar as expectativas, seja nos momentos de ação, seja nas solenes sequências em que os protagonistas enfrentam a epifania. As quebras de ritmo são propositais e adicionam tempero extra a uma das grandes animações do ano. Como se não bastasse, temos Phil Lord e Christopher Miller encarregados pela produção, exigindo uma colaboração do público e dando vida a um colorido tour-de-force que é muito mais profundo do que realmente parece. No topo de tudo isso, Mark Mothersbaugh comanda uma renegada trilha sonora que aposta no futurismo de ‘TRON’ e de ‘WALL-E’, sem deixar de incrementá-la com os classicismos dramáticos do violino e do piano.



É claro que o filme tem os seus deslizes, ainda mais no tocante a certas escolhas estéticas. A fotografia, por exemplo, é um tanto quanto óbvia demais, carregando uma atmosfera densa que brinca com luz e sombra de uma maneira familiar e formulaica, por assim dizer; certos aspectos metadiegéticos também são utilizados com repetição constante, como os letreiros de transição e as referências ao mundo pop que despontam pelo filme. Felizmente, nenhum dos breves equívocos é forte o bastante para apagar essa burlesca aventura, que celebra o amor familiar e usa uma certa rebeldia narrativa que critica aspectos do cotidiano ultraglobalizado, bem como uma exaltação comedida e saudosista de um passado mais simples (que não chega a beirar o romântico, mas demonstra certas influências).

‘A Família Mitchell e as Revoltas das Máquinas’ tem boas chances de aparecer na próxima temporada de premiações, seja por sua construção bastante humanizada, seja pelo reconfortante sentimento de esperança que expõe quando nos aproximamos do grand finale.

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