Ryan Murphy nunca teve problemas em explorar cada um dos personagens que trouxe à vida em American Horror Story ao extremo – motivo pelo qual construiu personalidades tão memoráveis no cenário da televisão e do streaming e os revisitou em uma constância surpreendente, cruzando-os ao longo de temporadas e pavimentando um universo recheado de histórias aterrorizantes e acontecimentos de tirar o fôlego. Porém, o prolífico realizador sempre teve conflitos quanto a terminar as narrativas que começou, como visto nas apressadas resoluções de ‘Freak Show’ e ‘Roanoke’, ou a fria incredulidade de ‘Hotel’. E, apesar de todos os nossos mais profundos desejos de que ‘Double Feature’ não seguisse o mesmo caminho, a primeira parte da décima temporada escorregou na própria ambição desmedida.

‘Red Tide’ estava em uma maré de inspiração invejável, entregando uma das melhores estreias da série e do ano. Episódio a episódio, Murphy, Brad Falchuk e o restante de um talentoso time investiam esforços em uma análise sociológica e aterrorizante sobre o preço da fama e o que significa ter ou não talento – colocando os protagonistas à mercê de uma “pílula mágica” que aumentava o desejo criativo e permitia que seus usuários dessem origem a obras-primas do teatro, da literatura e da televisão, por exemplo. É claro que ‘AHS’ não seria o que é sem uma reviravolta logo de cara – e aqueles forçados a confrontar sua mediocridade se transformavam em carcaças movidas pela sede de sangue, condenados a vagar sem rumo pelas frias ruas de Provincetown.

Nas semanas anteriores, o público acompanhou a controversa saga dos Gardner, Harry (Finn Wittrock), Doris (Lily Rabe) e Alma (Ryan Kiera Gardner), que se mudaram para a cidadezinha litorânea para se afastarem da caótica Nova York e encontrarem paz para trabalharem em seus respectivos projetos – isso é, até cruzarem com os comprimidos em questão e caírem num ciclo vicioso e bastante discutível. Ora, Doris foi enganada pelo marido e pela filha e afastada por ser uma pária que atrasava o potencial ilimitado daqueles que outrora amava, deixando Harry e Alma para viverem seus finais felizes como pessoas de um futuro glorioso. Como se não bastasse, eles foram auxiliados pela cobiça de Ursula (Leslie Grossman na melhor performance de sua carreira) e, ao mesmo tempo, fizeram inimigos mortais nas figuras de Belle Noir (Frances Conroy) e Austin (Evan Peters).

No término dessa primeira parte, intitulado “Winter Kills”, quase nada funciona por completo. A forte identidade dos capítulos anteriores, refletida por interessantes escolhas estéticas e técnicas, deixa de lado o conhecido entusiasmo para uma amálgama monotônica sem sentido e frenética em todos os aspectos. John J. Gray, que comandara a estreia do novo ciclo e o chocante “Gaslight”, retorna para o fim de ‘Red Tide’ em uma espécie de impulso cognitivo que só quer começar logo o próximo enredo – e o brusco ritmo das sequências é apenas reafirmado com a falta de coesão do roteiro assinado por Falchuk e Manny Coto. A dupla comete os mesmos erros da quarta temporada e, sem saber o que fazer com tantos personagens apresentados, dá adeus a eles em uma série de assassinatos sem sentidos que não faz jus ao que representaram para o caminhar das tramas.



É claro que ‘Double Feature’ não se respaldou na unicidade de iterações similares, mas isso não importou – ao menos até agora: a revisitação à mitologia do vampirismo como uma metáfora metalinguística à arte de criar nos conquistou desde os primeiros minutos. Eventualmente, tantos acertos parecem não ter servido de muita coisa: Belle Noir e Austin, cujos passados foram explorados em “Blood Buffet”, foram jogados no lixo e descartados como pedaços de plástico inutilizáveis; Harry, por sua vez, é arremessado em um desenlace constrito e mandatório que desfaz um desenvolvimento sagaz e muito bem-feito. É claro que, se espremermos o capítulo em questão e drenarmos até a última gota de seu conteúdo, é possível encontrar uma simbologia superficial que retrata a efemeridade do sucesso e das realizações pessoais que conquistamos em vida – mas pensar nisso é se sujeitar a uma impaciente obrigação de passividade.

Se analisarmos a primeira metade de American Horror Story: Double Feature’, o saldo é bastante positivo e continua no mesmo patamar das entradas mais ovacionadas da série; entretanto, não podemos fazer vista grossa para a frustrante conclusão de uma das narrativas mais instigantes da televisão contemporânea – uma fusão de acontecimentos apressados, alicerçada em uma estrutura irrequieta e convulsionante que até mesmo apaga o brilho de atuações aplaudíveis.

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