Alice Winocour começou sua carreira no início do século XXI, mas ganhou proeminência no circuito cinematográfica após sua estreia oficial com o longa-metragem ‘Augustine’, em 2012, que lhe garantiu atenção imediata após a exibição do projeto no Festival de Cannes. Indicada a diversos prêmios, Winocour se tornou um nome bastante falado no escopo independente da sétima arte por seus profundos estudos de personagens, atrelados a temas psicológicos e emocionais que apareceriam em outras incursões – como ‘Disorder’, ‘Proxima’ e ‘Revoir Paris’. Agora, a realizadora está de volta com o lançamento de ‘Vidas Entrelaçadas’, um drama tripartido que, apesar de contar com atuações irretocáveis, não consegue exatamente mostrar o que quer dizer.
Como mencionado, a história divide-se em três partes que pertencem a um mesmo cosmos – o vibrante e controverso universo da moda. O primeiro núcleo nos apresenta à vencedora do Oscar Angelina Jolie, recém-saída de seu aclamado trabalho na cinebiografia de Maria Callas, como Maxine Walker – uma diretora e roteirista que viaja para a capital francesa para a Fashion Week de Paris, aceitando a tarefa de dirigir um curta-metragem para o evento enquanto lida com o crescente afastamento de sua filha adolescente, que não a vê há semanas e que parece mais um encaixe na agenda da mãe do que um membro de sua família.

O segundo é centrado em Ada (Anyier Anei), uma jovem sul-sudanesa que é selecionada como modelo da Fashion Week e como protagonista do curta de Alice. Ada, sentindo-se deslocada no traiçoeiro mundo dos desfiles, não tem certeza se irá seguir nessa carreira, visto que começou seu curso para se tornar farmacêutica e, na verdade, viajou escondida do pai (que não aprovava seu apreço pelo mundo fashion) para poder participar do evento. O terceiro se fecha na maquiadora profissional Angèle (Ella Rumpf), que acompanha os ensaios de Ada e a produção de Alice à medida que se vê em um dilema existencialista sobre seu desejo entorpecente de se tornar uma escritora bem-sucedida.
O título do filme justifica-se pelo fato das três personagens colidirem em meio a problemas internos que, de certa maneira, refletem umas nas outras – mas a ideia do projeto nunca se concretiza como deveria ao centrar-se majoritariamente no dramático e quase novelesco arco de Alice. Ela não apenas deseja reconstruir os frágeis laços com a filha, mas percebe que talvez não tenha muito tempo quando é diagnosticada com câncer de mama e precisa começar o tratamento imediatamente, forçando-se a deixar de lado uma carreira que apenas começou. É claro que essas conjecturas e reflexões aparecem para as outras personagens, mas há uma predileção bem clara de quem é a verdadeira protagonista da história.

‘Vidas Entrelaçadas’ explora território conhecido ao trazer elementos novelescos para compor os belíssimos quadros de uma Paris que não costumamos ver nos cinemas – apoiando-se em um lado mais melancólico, real e que singra entre a tangibilidade e o abstrato à medida que o cenário não apenas se transmuta para acompanhar as personagens, mas as engolfa em um labirinto interminável. Cada uma é colocada à prova de sua maneira, reunindo-se em um ponto em comum que prenuncia a continuidade ou o término de suas respectivas jornadas.
Jolie entrega uma das melhores performances de sua carreira, mergulhando de corpo e alma na intrincada complexidade de Alice, que, sem sombra de dúvida, é o elemento de maior sucesso do projeto. Aqui, ela pega páginas emprestadas de seu trabalho em ‘MARIA’ e expande a fantasmagórica presença da cantora de ópera para o leniente entendimento do que o diagnóstico significa para Alice e para as ambições que tinha. Algo similar acontece com a presença de Anei e Rumpf como Ada e Angèle, ambas navegando por tortuosos caminhos e que, ao lado de Alice, desenvolvem uma espécie de desprezo inconsciente por tudo que as cerca.

Winocour faz um sólido trabalho estético, mas se deixa levar tão mais pela preocupação estilística que se esquece do conteúdo de sua análise psicossocial. Em meio a longos takes e a escolhas de lentes que isolam as protagonistas em seus respectivos núcleos – além da letárgica fotografia assinada por André Chemetoff e a melodramática trilha sonora de Filip Leyman e Anna Von Hausswolff. E, enquanto a composição imagética dá indícios de poderosos tours-de-force que servem como “provas de fogo” para as personagens, Winocour promove uma metáfora paralela que envolve a produção de um vestido de alta-costura que é tão especulativa que não encontra o sentido que deveria.
Eventualmente, ‘Vidas Entrelaçadas’ é um filme que poderia ser muito maior do que é se acreditasse com firmeza no conceito inicial da história – que é, neste caso, mostrar como pessoas muito diferentes e cada qual em sua trajetória se cruzam em inesperadas intersecções do cotidiano. Enquanto as potentes atuações são o suficiente para nos engajar nessa breve produção, não podemos deixar de sentir um gostinho agridoce de frustração quando o pleno potencial do projeto não é esquadrinhado como deveria.

