Crítica | Antártica por Um Ano – Documentário nacional explora a vida em base de pesquisa

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Ao Sul de Puerto Williams (Chile) se localiza a Ilha de Rei George. Um espaço destinado ao desenvolvimento de pesquisas científicas e a cooperação internacional. A presença do Brasil em bases de pesquisa no círculo polar Antártico teve início quatorze anos após a criação do Tratado da Antártida. Desde 1975 o Brasil é signatário deste tratado que tem como objetivo principal assegurar que o território seja ocupado somente para fins pacíficos e de colaboração científica internacional. E é esse espaço inóspito, mas de grande importância para a ciência nacional que o longa documental de Júlia Martins apresenta ao público.

O processo de rodagem do documentário não foi uma tarefa fácil. As dificuldades foram além daquelas esperadas em trabalhos cinematográficos desta natureza. A Narrativa já é iniciada relatando o atraso de alguns anos para o início das filmagens devido ao incêndio que destruiu a maior parte da Estação Antártica Comandante Ferraz no ano de 2012. Somente em 2015 as atividades da equipe de Júlia Martins foram retomadas, mesmo sem a reabertura da estação oficial (que está em vias de ser entregue, no ano de 2019, cerca de sete anos após o incêndio).

Ao longo do ano em que acompanharam, presencial e remotamente, a equipe base da Marinha do Brasil em suas atividades, diversos empecilhos alteraram os planos iniciais, exigindo uma boa dose de adaptabilidade para a geração do produto final. O que foi realizado com grande competência pela direção e montagem do longa.

O filme explora de maneira sensível e gentil as relações interpessoais. Tendo como pano de fundo a atuação militar na Antártica e sua relevância científica e diplomática para o país, o foco da narrativa são os quinze integrantes da equipe base e a forma como lidaram com o afastamento dos seus, dos quais ficaram longe por intermináveis semanas.  É interessante perceber a mudança nos relatos dos ‘personagens’ na medida em que se adaptam à solidão e constroem uma nova família em um lugar de paisagens tão mutáveis, grandiosas e imponentes.

Toda experiência é levada ao público hora pela narração da diretora, hora pelos depoimentos dos militares e cientistas civis da base. O ritmo de leitura adotado na narração é um pouco mecânico, especialmente quando comparado aos relatos e depoimentos. Estes sim entregam ao público uma evolução das emoções, chegando à exposição de sentimentos genuínos, não tão usuais a figuras militares no exercício da função. As relações nesse espaço estão para muito além da hierarquia.

Aqui vale o destaque para a primeira mulher negra a compor o grupo de base da Marinha do Brasil na Antártica: Primeira Tenente (MD) Fátima é um exemplo em si, e a figura mais divertida de todo o filme.

O documentário é um presente para os olhos do espectador. Ficam claras duas leituras dentro da fotografia: uma feita pelos cinegrafistas e outra pelos próprios militares. Essa diferença, fruto de mais uma das mudanças de plano compulsórias do filme, trouxe leveza à narrativa, pois os registros dos internos deram ao filme um ar familiar, de vídeos amadores, sempre mostrando situações de alegria e parceria. Nos takes com ares profissionais o que mais chama atenção, além da beleza extraordinária da locação, é a qualidade das imagens para um filme rodado com tantas limitações físicas, fruto do olhar atento por trás das lentes.

A trilha sonora original não inova muito ao usual em longas-metragens documentais, sem, por isso, deixar de ter sido desenvolvida e incorporada às cenas de maneira bela. É capaz de estimular ou despertar sensações bucólicas e de aventura. Alternando a trilha com quase silêncios de som ambiente, a edição de som consegue refletir o sentimento de vazio que provavelmente é natural aos residentes da base. Aumentando a proximidade entre filme e plateia.

Outro aspecto abordado no filme é a atuação de cientistas civis durante o verão. É para realização deste tipo de trabalho que a base mantém ao longo de todo o ano um grupo militar cuidando da conservação da base. Mesmo sendo pouco explorado, o papel dos cientistas dentro do tratado é destacado, e alguns dos projetos brevemente explicados. Ainda que este não fosse o foco do documentário, a opção por tocar nesse assunto se mostrou muito relevante no contexto nacional na estreia do documentário.

Para quem gosta do gênero é um filme muito enriquecedor. Não propriamente no que tange à biomas, clima ou outra área do conhecimento científico, mas por apresentar ao grande público um trabalho pouco conhecido, mas extremamente importante para a nação. Um trabalho que envolve grandes abdicações, mas permite que nosso país siga avançando em soluções nas mais diversas áreas. Em tempos de cortes tão grandes para a produção áudio visual e científica, o longa vem como um respiro de esperança.

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