Crítica | Culpa e Desejo – Catherine Breillat provoca DESCONFORTO com tema TABU e POLÊMICO

CríticasCCrítica | Culpa e Desejo - Catherine Breillat provoca DESCONFORTO com tema TABU e POLÊMICO

Uma mulher em torno dos 50 anos se envolve sexualmente com o enteado de 17 anos. Qual é a questão implícita nesta afirmativa? Algumas palavras podem tentar definir uma reação imediata: crime, abuso e aversão. Vanguardista de uma cinematografia da exploração das relações de sexo e prazer feminino, Catherine Breillat propõe uma visão para além do julgamento do desejo e incita o pùblico a observar a própria sexualidade. 

Entre os concorrentes à Palma de Ouro no Festival de Cannes 2023, Culpa e Desejo (L’Été Dernier) não é uma obra fácil de deglutir e muito menos empática ao jogar pimenta sobre questões sociais vetadas à discussão. O título brasileiro já pressupõe ao espectador sentimentos a serem descobertos durante a trama, contudo um deles não está claro em nenhum momento do enredo. 

Ao invés de uma tradução expansiva e literal do título para No Verão Passado, como em Portugal e nos Estados Unidos (Last Summer), a distribuidora brasileira Synapse injetou a culpa à personagem de Léa Drucker. Caso parecido ocorreu com a tradução do título Take This Waltz (2011), de Sarah Polley, para Entre o Amor e a Paixão, distribuído pela California Filmes. 

A obra de Polley é menos polêmica que o filme em questão, mas ela também trata do desejo feminino e, ao que parece, precisa ser sentenciado logo no título sem deixar o público explorar a complexidade do personagem. Por exemplo, em Portugal, o filme chama-se Notas de Amor, uma relação mais próxima com o batismo dado por conta da música Take This Waltz, de Leonard Cohen, uma metáfora sobre a brevidade dos encontros amorosos. 

Parece frívolo consagrar várias linhas sobre o título em vez de concentrar-se no filme, mas conhecemos o poder do discurso e os filmes “controversos” de Catherine Breillat são categorizados como tais exatamente por fugir do discurso padrão, desde a sua estreia com Uma Adolescente de Verdade (1976)  censurado durante 25 anos  , passando pelo ousadíssimo Anatomia do Inferno (2004) e o aclamado Para Minha Irmã (2001). Por isso, a discussão da pré-categorização do filme é válida.  

A cena inicial de Culpa e Desejo já comunica o desconforto presente durante todo o longa, lidamos com sofrimento e julgamento envolto em uma fina camada de dúvida e complacência. Uma jovem adolescente está sendo interrogada sobre um ato sexual ocorrido, conforme avança às perguntas de Anne (Léa Drucker) fica cada vez mais evidente o incômodo da menina e a configuração de um ato não consentido. 

Adaptação do filme noruguês Queen of Hearts (2019), de May el-Toukhy, Culpa e Desejo carrega o ensejo de que o ser humano é insaciável. Anne é uma advogada, com duas filhas e um marido amoroso, porém quanto Théo (Samuel Kircher), de 17 anos, filho do primeiro casamento de Pierre (Olivier Rabourdin) vai passar o verão na casa da família, ela redescobre uma faísca. Ao invés de controlar as chamas, Anne deixa seus anseios se transformarem em labaredas. 

Com um enredo ao mesmo tempo envolvente e repulsivo, a posição de espectador é de voyeur à espreita de uma dissolução (ou resolução) para mal-estar familiar criado. Para lidar com o adolescente rebelde e desafiador, Anne tenta jogar como aliada da teimosia juvenil, o relacionamento entre eles, entretanto, passa de um impremeditável deslize para uma contínua apreciação sexual camuflada. 

Debaixo do mesmo teto de suas pequenas filhas e ao lado da cama conjugal, Anne nos faz sentir enjoados de sua desfaçatez perante ao marido e sua falta de firmeza diante do jovem. Seria o enteado apenas uma vítima? Em seu processo de amadurecimento, o adolescente apaixona-se loucamente pela madrasta e o primeiro amor é fulminante e, por vezes, desregrado. Ambos os atores estão formidáveis e verdadeiros a ponto de incomodar.

Embora o caminho mais fácil seja criminalizá-la, os sentimentos propostos pela cineasta e de se colocar na pele da personagem. No trabalho, Anne defende jovens menores de idade de pais e adultos abusadores, mas quando trata-se do seu próprio suplício carnal parece fraquejar em aplicar as leis decoradas. Com o mal-estar instaurado, o enredo torna-se sufocante e desafiador às nossas indagações. 

Nesta adaptação, Catherine Breillat nos provoca acreditar que a justiça e o correto só podem existir no meio de uma total isenção do eu, mas essa desobrigação de si mesmo é algo impossível no campo lascivo do desejo. Sobressai-se a lei da selva, isto é, onde os mais fortes predominam. Na teia familiar, o qual Pierre é o chefe, nos últimos segundos do filme, ele dita as regras da casa e, infelizmente, as condições aceitas para toda a família. 

Lançado mundialmente no Festival de Cannes em maio de 2023, Culpa e Desejo estreia dia 23 de novembro nos cinemas brasileiros e esteve presente no Festival Varilux de Cinema Francês 2023.

Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

Inscrever-se

Notícias

10 Ótimas Dicas de Séries para você que está sem ideias do que assistir

Uma boa série precisa convencer logo nos primeiros episódios...

10 ÓTIMOS FILMES que o algoritmo não fez questão de te mostrar

Tem tantos filmes maravilhosos por aí! Na correria do...

10 filmes BRASILEIROS além dos blockbusters para você descobrir em 2026

Nosso cinema está nos brindando frequentemente com produções maravilhosas...

Russell Brand descreve comportamento sexual com mulheres como “terrível, mas legal”

O comediante e ator Russell Brand manifestou-se recentemente sobre...

Cinema sem preguiça: 10 filmes INTELIGENTES e surpreendentes

Uma das coisas mais legais quando assistimos a uma...