Após pouco mais de um ano de espera, Dark finalmente retornou às telinhas da Netflix para sua terceira e última temporada, não por acaso lançada no dia 27 de junho de 2020 – data do apocalipse/fim do ciclo temporal na produção. O CinePOP já conferiu todos os últimos oito episódios da série e traz aqui sua crítica. O texto procura expandir um pouco o já abordado nas primeiras impressões publicadas anteriormente. Embora evite contar spoilers essenciais para a experiência do espectador, a crítica irá sim oferecer um detalhamento mais aprofundado da trama principal. Então, se você é daqueles que acha que tudo é spoiler, é melhor reservar a leitura para após a maratona.

Lançada em dezembro de 2017, Dark nasceu como a “Stranger Things alemã”, afinal tinha como ponto de partida o desaparecimento de um garoto, mas tratou rapidamente de mudar sua imagem e conquistar uma multidão de fãs afoitos por teorias e conspirações. Complexa, multitemática, envolvente e pautada na racionalidade mesmo diante de situações absurdas, a série pode ser descrita como um drama, uma ficção científica, uma saga de viagem no tempo e por aí vai. E tudo isso está correto. Agora, uma coisa que pouca gente percebeu ao longo dos dois primeiros anos e que acaba alavancado na temporada final é que, na verdade, estamos diante de uma história de amor.

Sim, Dark é sobre amor. E o quão estranho é dizer isso em se tratando de uma produção que apresenta o adultério como algo presente em praticamente todas as famílias retratadas. Mas é fato. É sobre o amor entre pais e filhos (elemento primordial na conclusão da história), e também sobre o amor entre Jonas e Martha. A relação dos dois é marcada pela total incapacidade de ambos em se afastarem um do outro, mesmo após descobrirem que Jonas, na verdade, é filho de Mikkel, irmão mais novo de Martha. “Somos um par perfeito. Nunca duvide disso”, falam os dois em determinado momento da segunda temporada. 

Todo o terceiro ano é focado na trágica relação entre Jonas e Martha. Após ver a amada ser assassinada por sua versão mais velha, Adam, Jonas descobre que existe um novo universo paralelo, com uma nova Martha. E a temporada começa justamente aí. 

Dark dedica seu S03E01 todo a explorar este mundo e o conceito de multiverso. Se Jonas é a figura principal na “Terra 1”, é Martha quem rouba a cena neste novo cenário. São vários os paralelos entre os protagonismos dos dois personagens, que vão desde detalhes do figurino (é Martha que usa o agasalho amarelo na “Terra 2”) e locações (Martha mora na casa de Jonas) às dinâmicas sociais e atividades relacionadas ao ciclo temporal. É quando conhecemos outras versões de Martha, que se comunicam com o Jonas mais velho e com o próprio Adam. 

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A complexa saga criada por Baran bo Odar e Jantje Friese sempre buscou instigar o máximo seus fãs, oferecendo muito mais perguntas do que respostas. E isso continua na temporada final. É claro que temos respostas para questões fundamentais, sobre a origem dos dois universos e o ponto de partida dos ciclos temporais que sempre terminam com o apocalipse. Mas a dupla de criadores não tratou de rechear os episódios de respostas para todos os mínimos questionamentos dos espectadores. Há muito do que não foi dito, e há muita beleza nisso. Produções como Lost e The Leftovers – para citar duas obras que rechearam a cabeça do público com perguntas – já haviam apontado o caminho de que muitas vezes a melhor opção está no mais simples, no mais delicado, no mais humano. 

O episódio final de Dark está entre os melhores desfechos de séries dos últimos anos não por apresentar respostas para todas as perguntas, mas por oferecer, ao longo de sua uma hora de duração, uma trama com começo, meio e fim, não necessariamente nessa ordem. Sem entrar em detalhes para não prejudicar a experiência do público, a produção conseguiu entregar um final tocante, triste e, por que não, esperançoso. E com várias interpretações possíveis. Isso não significa que precisamos de um “final explicado”, mas que o término pode te tocar de uma forma diferente que em outras pessoas. Se alguns podem ver como o fim satisfatório de uma grande história de amor, outros podem ver como a completa anulação da mesma. Eu, pessoalmente, opto pela primeira opção, pela opção mais romântica. Lembra um pouco, embora de forma diferente, o que acontece ao final de Desejo e Reparação ou mesmo o recente A Vida Invisível, com personagens que se encontram mesmo que diante de desencontros.

Embora boa parte da narrativa envolva Jonas e Martha, e as ótimas atuações de Louis Hofmann e Lisa Vicari só ajudam no destacamento dos personagens, vários outros arcos são explorados ao longo da temporada. É particularmente interessante descobrir em que momentos no tempo estão “perdidas” Hannah (Maja Schöne) e Katharina (Jördis Triebel). Ou mesmo para onde/quando Franziska (Gina Stiebitz), Bartosz (Paul Lux) e Magnus (Moritz Jahn) foram levados pelo Jonas do futuro. Mas o núcleo que se destaca mesmo acaba sendo aquele que sobrevive ao apocalipse em 2020: Claudia (Julika Jenkins), Peter (Stephan Kampwirth), Elisabeth (Carlotta von Falkenhayn) e Noah (Mark Waschke). Claudia segue sendo uma das personagens mais bem desenvolvidas da produção, e é particularmente fascinante entender um pouco de como nasceu a relação entre Elisabeth e Noah, mesmo que ainda houvesse muito a ser explorado nesse sentido.

Dark navega de forma elegante entre todas essas épocas, e passa a transitar entre os dois mundos do mesmo jeito. Por sinal, a série encontrou uma forma eficiente de organizar as transições entre tempo e espaço. Quando pulamos do mundo de Jonas para o de Martha, há um efeito de transição bem claro, que ajuda o espectador a se situar.

Desafiadora e cativante, a série já quebrava a cabeça do espectador quando falava apenas de viagem no tempo e ciclo temporal. Agora, temos discussões sobre multiverso, linhas do tempo, realidades sobrepostas, emaranhamento quânticos e até conceitos como o Gato de Schrödinger. Curiosamente, nada disso torna o texto pedante ou exageradamente rebuscado. Por vezes, parece querer se explicar demais, mas a dinâmica entre os personagens faz a trama caminhar de forma fluida. Inclusive, fica notório que por mais que a racionalidade e a ciência ainda sejam elementos fundamentais na condução da história, há cada vez mais um reforço do aspecto humano e sentimental.

Ao longo de seus 26 episódios, Dark nunca optou pelo caminho fácil. Diante de um labirinto temporal e espacial, poderia focar em poucos personagens para contar sua história, mas até o último momento trata de explorar o máximo de pessoas possíveis. Isso torna a experiência mais difícil, é verdade, mas também a faz ser muito mais proveitosa. Neste sentido, é curioso notar como o espectador vai se envolvendo cada vez mais com as jornadas de cada um dos personagens. Como boa série alemã, a produção por muitas vezes pareceu sempre apresentar protagonistas frios e pouco carismáticos. Ao final da terceira temporada, no entanto, o público está completamente engajado em jornadas de nomes como Hannah, Katharina, Ulrich e companhia. E, é claro, Jonas e Martha. Por mais que não sejam propriamente um casal, e somos lembrados algumas vezes que a Martha em cena não é a “Martha de Jonas”, a ligação entre os dois é evidente e magnética. 

Ao mesmo tempo em que oferece um final que pode ser abraçado como definitivo, a série reserva uma ceninha final para deixar aquela dúvida na cabeça do espectador. É pouco provável que tenhamos um retorno de Dark, mas a produção está mais que permitida a continuar na cabeça do fã. E assim ficará por bastante tempo.

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