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Crítica de Temporada | ‘Coração de Ferro’ mostra que, às vezes, jogar seguro é a melhor escolha


Cuidado: spoilers sobre a trama à frente.

Ambientada na efervescente cidade de Chicago, Coração de Ferro reintroduz Dominique Thorne como a jovem gênia da tecnologia Riri Williams, que fez sua estreia oficial no Universo Cinemático Marvel em Pantera Negra: Wakanda para Sempre’, sendo uma aliada extremamente importante de Shuri e seus guerreiros na proteção de Wakanda e de seus recursos naturais. Ganhando sua própria minissérie, Riri é centro de uma sutil e despojada narrativa que, injustamente, sofreu ataques racistas e misóginos por internautas, com comentários destinados a desmoralizar uma personagem feminina e negra que merece mais reconhecimento, mesmo nos quadrinhos originais da Marvel.

Ao longo de seis episódios, acompanhamos o arco da protagonista, desde sua expulsão do MIT, seu retorno para casa e o desenvolvimento de uma poderosa armadura à la Homem de Ferro que chama a atenção do mortal Parker (Anthony Ramos) e seus inteligentes e perigosos asseclas. Lidando com os traumas após o assassinato do padrasto e da melhor amiga, Natalie (Lyric Ross), ela se vê escondendo segredos de uma das pessoas que mais ama, sua mãe Ronnie (Anji White), e enfrentando os próprios problemas quando a inteligência artificial de seu impressionante traje assume a forma de Natalie para ajudá-la a recuperar a vontade de fazer do mundo um lugar melhor – ainda que a trajetória até alcançar o objetivo seja árdua e frustrante.



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Funcionando como uma série voltada para o estilo urban e que pega elementos de diversos dramas e comédias similares, Coração de Ferro pode até ter começado de maneira trôpega nos três primeiros episódios liberados pelo Disney+ na semana passada, mas reencontrou o ritmo e o frenesi necessários com os capítulos de encerramento que, de maneira irrefreável, mergulham em uma reviravolta atrás da outra para conquistar o público a que é destinado – uma audiência mais jovem e ática que tem tudo para se divertir em meio a episódios bem estruturados e a uma narrativa familiar e prática.

A produção ganha pontos por não funcionar exatamente como uma história de origem, mas uma continuação de um ponto de partida que, eventualmente, não precisou nos ser apresentado da maneira convencional. Riri, após entrar para o grupo criminoso de Parker, percebe que as coisas são mais complexas do que aparentavam – impulsionando-a a se interessar pelo misterioso manto que veste e que lhe dá seu alter-ego, Capuz. Em meio a uma missão que inclui aterrorizar um magnata multimilionário e dono de uma poderosa empresa de tecnologia, Riri coloca as mãos em um pedaço da capa para analisá-la e, com sorte, encontrar a resposta que precisa para transformar o traje robótico em uma máquina sem erros e sem desestabilizações. Porém, ao se tornar responsável pela morte do braço-direito de Parker, John (Manny Montana), e ao perceber o poder que se esconde na roupa de seu “chefe”, ela se envolve em um vórtice de mentiras e armadilhas que a tornam alvo – e que ameaçam todas as pessoas que ela ama.

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É notável a clara divisão artística que se estende pelos primeiros episódios e a que se forma nos últimos: a princípio, somos arremessados em uma repetitiva narrativa que foca nos corolários do luto e da perda que não foram enfrentados de maneira saudável por Riri, desencadeando constantes ataques de pânico que a colocam em xeque com sua própria crença – e que afastam aqueles à sua volta. Logo depois, a protagonista percebe que precisa se impor e atacar de volta, deixando que a racionalização excessiva e as emoções que insistem em explodir de seu peito se unam em uma força-motriz imprescindível para o desenrolar do enredo e para uma recuperação rítmica que resgata nosso interesse e que fornece mais complexidade a cada uma das personas (incluindo Alden Ehrenreich como Ezekiel Stane, que parecia apagado apenas para ganhar um momento fugaz de destaque).

A ideia da criadora e showrunner Chinaka Hodge é clara desde o princípio e mantém-se fiel ao objetivo a que almeja por toda a história: há uma mistura de incursões melodramáticas que se aglutinam a acuidades cômicas e a uma tensão típico de produções super-heroicas e de ação que funcionam em quase sua completude – principalmente quando percebemos que a ideia por trás do projeto é um entretenimento pincelado com temáticas como luto, solidão, racismo e aceitação (de maneira superficial, como é de se esperar, mas sem o propósito de delinear discussões sociais importantes). Nesse meio-tempo, o elenco, que ainda conta com nomes como Shea Coulée, Matthew Elam, Zoe Terakes, Shakira Barrera, nos presenteia com sólidas atuações, com destaque à personalidade controversa de Riri re-imortalizada por Thorne, e a ótima presença de Ross como Natalie.

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Coração de Ferro finaliza a Fase 5 do MCU de maneira interessante e bem construída, remando contra as nossas expectativas e servindo como um “tapa na cara” nos descrentes de que a série se mostraria competente o bastante para nos envolver. Mais do que isso, a obra mostra que, às vezes, voltar às origens e jogar seguro é uma alternativa muito melhor do que se lançar a ambições impossíveis de se alcançar, sobretudo quando pensamos nesse crescente panteão cinematográfico.

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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