Crítica | Desastre Total: Cruzeiro do Cocô – Ótimo Documentário da Netflix Sobre Quando os Sonhos Descem Pelo Cano

Um sonho pode ser proporcionalmente tão intenso quanto a frustração de não realizá-lo. Às vezes criamos expectativas tão grandes sobre algo ou alguém, que, quando isso não se realiza, a decepção é profunda e pode gerar até mágoa. E isso é especialmente verdade quando os sonhos são referentes a lugares e viagens com as quais sonhamos a vida inteira para realizar, juntando dinheiro, pedindo folga no trabalho, organizando cada detalhe… para chegar na hora e tudo dar errado. Imagina! É o que aconteceu de verdade para um grupo de mais de quatro mil pessoas em 2013, que embarcaram em um cruzeiro que mais tarde ficou conhecido como ‘Desastre Total: Cruzeiro do Cocô’, título do ótimo documentário de James Ross lançado recentemente pela Netflix em sua plataforma.

Fevereiro de 2013. Fim no inverno, vésperas do famoso “spring break”, a semaninha de folga que celebra o fim do inverno no hemisfério norte. Milhares de pessoas se programaram para uma viagem de três dias em um minicruzeiro promovido pelo navio Carnival Triumph, cujo roteiro basicamente ia até o Golfo do México e voltaria. Tudo ia bem nas férias coletivas até a véspera do último dia, já tendo deixando a costa mexicana e de volta aos Estados Unidos, quando uma pane elétrica fritou o sistema de alimentação de eletricidade do navio todo, comprometendo todo o navio. Aos poucos, tudo começa a falhar: ar-condicionado, geladeiras, ventilação, luz. A tripulação tenta contornar e abafar a situação. O público tenta acreditar que aquilo é algo momentâneo. Porém, o desastre estava só começando, e a falta de eletricidade se torna, rapidamente, o menor dos problemas das mais de cinco mil pessoas a bordo.

Baseado em eventos reais amplamente noticiado mundialmente, ‘Desastre Total: Cruzeiro do Cocô’ é um excelente documentário tanto em termos de entretenimento quanto em termos técnicos e de pesquisa. Sobre o primeiro quesito, não é preciso dizer que o ser humano tem uma atração doentia pela tragédia alheia, então, criar um filme em que a gente pode ver milhares de pessoas se ferrando em suas férias é o tipo de morbidez que gera engajamento. Em termos técnicos, a construção da narrativa e a montagem dos elementos são feitas de modo a envolver o espectador na crescente tensão que vai sendo erigida à medida que a tragédia vai aumentando.

Mas é exatamente a pesquisa que surpreende no roteiro de Matthew Rangecroft. Mesmo se tratando de um evento recente, de pouco mais de dez anos atrás, e dada a situação delicada em que todos se envolveram, é difícil conseguir pessoas que estejam dispostas a falar abertamente não só do quanto tiveram seus sonhos esmagados, mas, acima de tudo, sobre o quanto foram humilhadas publicamente por causa da situação. É o tipo de coisa que ninguém se orgulha, e, no entanto, o time de pesquisa conseguiu encontrar um grupo muito interessante de depoentes: um pai e filha que estavam tentando estreitar a relação após o divórcio, três amigas celebrando a despedida de solteira de uma delas, a comandante em exercício na época, um funcionário da cozinha do navio, um rapaz que viajou para conhecer o sogro e a família da noiva. Só os depoimentos dessas pessoas já é capaz de dar a dimensão de tudo que aconteceu sob diversas perspectivas, em prol da imparcialidade da produção.

Desastre Total: Cruzeiro do Cocô’ é uma tragédia coletiva vivida por um grupo de pessoas que queriam sonhar, mas, enquanto produto de entretenimento, é um prato cheio com o pior do ser humano – literalmente. Para ver e se horrorizar com a sordidez da humanidade quando ela revela sua real faceta.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.