“Se minha esposa morrer, condenarei a Igreja Católica à minha espada”. Essa é a premissa da readaptação de Drácula, de Bram Stoker, pelo cineasta francês Luc Besson. Parece esdrúxula? É porque a obra se pretende escalafobética, mas é, em essência, caricata e ultrapassada. Após Robert Eggers apresentar o trevoso Nosferatu (2024) — uma releitura ousada do Conde Drácula com originalidade e forte senso estético —, Besson aposta em um ultrarromantismo de época, com sensualidade forçada e ambientação desprovida de tensão.
As cenas iniciais, em que o príncipe Vlad é chamado à guerra no meio de um coito interrompido com a esposa, são de um melodrama constrangedor. Embora Caleb Landry Jones seja um bom ator — vencedor da Palma de Ouro de atuação por Nitram (2021) —, seu olhar psicótico fracassa em criar uma atmosfera ameaçadora. Em determinado ponto do enredo, suas piadas soam descompassadas com o personagem, até então impiedoso. Do outro lado da equação está a beleza de Zoë Bleu Sidel como Elisabeta, cuja presença se resume ao belo par de olhos brilhantes. Em termos de sentimentalismo, entrega muito pouco; na verdade, seu papel é meramente ornamental, limitado a ser o objeto de desejo do protagonista.

Colocar o melodrama no centro da história não é um erro, nem um engodo; o problema está na forma como as ações se desenvolvem e desencadeiam a busca pela amada perdida — um processo deveras arrastado. Um padre, interpretado pelo talentoso ator austríaco Christoph Waltz (Bastardos Inglórios), encontra-se em Paris com um médico (Guillaume de Tonquédec) no centenário da Revolução Francesa para exorcizar uma noiva que, no dia do casamento e diante de um bispo, é tomada por um surto raivoso. A partir daí, inicia-se uma caça frouxa ao mestre da jovem vampira Maria (vivida pela italiana Matilda De Angelis), que serve de ponte — com a estrutura cheia de pregos soltos — entre o famoso Conde Vlad e Nina, possível reencarnação da amada Elisabeta, morta de forma banal durante as Cruzadas.
Sem mistério ou desenvolvimento consistente de planos e personagens ao longo dos anos, o roteiro pobre em emoção, aventura ou suspense se constrói de forma linear, conduzindo Vlad ao reencontro com a reencarnação da amada sem qualquer oposição dramática — até o atual noivo da moça é incapaz de gerar uma centelha de tensão emocional.

Drácula – Uma história de amor eterno é um percurso entorpecidamente monótono, no qual nada é interessante, estimulante ou ousado o bastante para justificar o investimento — a não ser pela vaidade autoral de Besson. Este, aliás, já havia entregue uma história de amor horripilante este ano com June & John (2025), em que os personagens agem ao bel-prazer do roteirista, sem coerência narrativa, e o design de produção acaba sendo mais chamativo que a própria trama.
Se um dia Luc Besson produziu obras de relevância cinematográfica, como O Profissional (1994) e O Quinto Elemento (1997), esses dias de glória ficaram no passado. Hoje, suas histórias e seu apelo cênico compõem uma estrutura maçante. Os únicos elementos criativos do longa são as gárgulas guardiãs do palácio do Conde Drácula, animadas como esculturas de cimento fresco — lembrando as figuras de barro criadas por Peter Jackson no fascinante Almas Gêmeas (1994) —, que acrescentam um traço de sarcasmo visual a seus já caricatos aspectos demoníacos.

Fora isso, o Drácula de Besson parece mais empenhado em perseguir um fantasma romântico do que espalhar terror. Sua condenação à vida eterna pesa tanto quanto uma pena ao vento, fruto de um desenvolvimento inicial frouxo; não é de espantar que, ao deixar a sessão, o público já tenha cravado uma estaca no próprio interesse pela história.
