Crítica | Em ‘Aventura nas Alturas’, John Travolta transforma suas memórias em poesia cinematográfica (Cannes 2026)

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CríticasACrítica | Em 'Aventura nas Alturas', John Travolta transforma suas memórias em poesia cinematográfica (Cannes 2026)

A maior alegria do espectador ao assistir a um filme é aquela sensação rara de ver suas expectativas plenamente correspondidas. É exatamente isso que sentimos ao assistir Aventura nas Alturas (Propeller: One-Way Night Coach), estreia de John Travolta na direção. 

Exibido em sessão especial fora da competição no Festival de Cannes, o longa tem apenas 61 minutos de duração, mas encontra nesse tempo enxuto uma sinceridade que muitos filmes épicos jamais conseguem alcançar. Porque aqui não existe vaidade nem tentativa desesperada de provar talento. Existe paixão; e ela transborda em cada detalhe.

Baseado em seu livro infantil homônimo, Travolta constrói uma verdadeira declaração de amor à aviação, ao cinema e às memórias da infância. Atuando como produtor, roteirista, narrador e ator, ele transforma sua relação profunda com os aviões — afinal, também é piloto formado — em uma narrativa doce e fascinante. O mais bonito é perceber como tudo nasce de um lugar extremamente íntimo. Não é um filme sobre aeronaves. É um filme sobre encantamento.

Couple dining at a round table in a bright airport lounge, with a large window view of a plane outside behind them.

Ambientado nos anos 1960, em pleno auge da imagem dos Estados Unidos como potência tecnológica do pós-guerra, Aventura nas Alturas acompanha o jovem Jeff (Clark Shotwell) e sua mãe (Kelly B. Eviston) durante uma viagem de Nova York a Los Angeles, com várias escalas pelo caminho, enquanto ela segue para participar de um filme, o menino descobre o mundo ao seu redor. O cuidadoso design de produção mergulha o espectador naquele universo do American Way of Life e do desejo de sentar na primeira classe. 

A simplicidade da trama jamais se torna um problema diante da experiência emocional proposta pelo longa. Entre os flertes da mãe, um martíni aqui e ali e a repetida oferta do falso frango empanado “Cordon Bleu”, o que Travolta realmente deseja registrar é o brilho no olhar daquela criança diante da grandiosidade de uma aeronave cruzando o céu.

Adult and child walk hand in hand down a red carpeted, futuristic-looking hallway with curved white walls.

Com narração presente durante quase todo o filme, a obra conduz o espectador de forma leve e nunca cansativa. A voz do próprio Travolta cria uma camada melancólica, como se estivéssemos ouvindo alguém revisitar as lembranças mais preciosas da própria vida. Para quem cresceu assistindo ao ator em Grease, Saturday Night Fever e Pulp Fiction, existe algo especialmente emocionante em vê-lo narrando essa descoberta infantil do amor, da viagem, da liberdade e da fantasia. É como se o astro finalmente permitisse que víssemos o menino por trás da celebridade.

Pilot in uniform kneels to talk with a young boy in a gray coat on a red carpet. Mosaic wall in the background.

Aventura nas Alturas encontra beleza justamente nas pequenas coisas: os flertes inocentes da mãe, a convivência com as aeromoças, os primeiros encantamentos românticos e a descoberta dos aeroportos como lugares mágicos. Tudo é observado com tamanha inocência que acabamos nos tornando companheiros daquele garoto durante toda a jornada e suas singelas lições aprendidas. 

É impossível falar do filme sem destacar sua trilha sonora apaixonada. Travolta mergulha nas referências culturais que moldaram sua formação afetiva e cria uma atmosfera deliciosa. Há ecos de Orfeu Negro (1959), influências do cinema francês de Claude Lelouch em Um Homem, Uma Mulher (1966), além da presença marcante da Bossa Nova. Em alguns enquadramentos e na escolha dos espaços de filmagem, surgem até discretos traços visuais que remetem ao estilo de Stanley Kubrick. Tudo parece escolhido não para impressionar, mas para compartilhar emoções.

Flight attendant in blue uniform leaning toward a smiling boy in a blue sweater on an airplane interior.

Existe ainda algo muito bonito no fato de Travolta dividir a tela com sua filha, Ella Bleu Travolta. O filme ganha uma camada ainda mais pessoal, quase como um legado afetivo sendo transmitido diante dos nossos olhos. Sua presença — carregando traços do pai e da mãe Kelly Preston — se encaixa perfeitamente no universo de admiração construído pelo protagonista.

 

Aventura nas Alturas não é grandioso no sentido tradicional. Não pretende reinventar a linguagem cinematográfica nem se impor como obra-prima. Sua força está justamente na honestidade. É um filme pequeno, íntimo e profundamente humano. A estreia de um diretor que não busca provar algo ao mundo, mas apenas dividir aquilo que ama. No fim das contas, essa é a forma mais bonita de fazer cinema.

Aventura nas Alturas estreia globalmente, na sexta-feira, dia 29 de maio na Apple TV+.

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Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

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