Crítica | Em ‘El ser Querido’, Javier Bardem protagoniza a violência emocional de um pai ausente (Cannes 2026)

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CríticasCrítica | Em 'El ser Querido', Javier Bardem protagoniza a violência emocional de um pai ausente (Cannes 2026)

Como reconstruir uma relação que nunca realmente existiu? Como criar intimidade com alguém quando, durante toda uma vida, não houve esforço verdadeiro para estabelecer conexão? Em El Ser Querido (The Beloved), Rodrigo Sorogoyen transforma essas perguntas em um drama sufocante sobre ego, ausência e os limites emocionais da paternidade; e faz da omissão paterna uma forma silenciosa de violência emocional.

Apresentado na mostra competitiva do Festival de Cannes, o longa protagonizado por Javier Bardem e Victoria Luengo acompanha o reencontro entre um cineasta renomado e sua filha distante, mas evita qualquer caminho sentimental fácil. O que Sorogoyen propõe não é uma narrativa sobre reconciliação, e sim sobre a violência emocional causada por pessoas que passam a vida confundindo amor com necessidade de admiração.

Na trama, Esteban Martínez (Javier Bardem), diretor lendário do cinema espanhol, procura a filha Emília (Victoria Luengo) depois de 13 anos sem contato para convidá-la a estrelar seu novo filme. O papel seria uma oportunidade importante para impulsionar sua carreira de atriz. Desde o primeiro encontro entre os dois, entretanto, existe algo profundamente desconfortável na maneira como se olham. 

A câmera permanece muito próxima de seus rostos, observando silêncios, hesitações e pequenas expressões que revelam mais do que qualquer diálogo. Eles falam pouco porque falta qualquer vocabulário afetivo entre os dois. Da parte dele, percebe-se a resistência de alguém que nunca aprendeu a demonstrar vulnerabilidade; da parte dela, a esperança dolorosa de finalmente receber algum tipo de reconhecimento afetivo — e o medo inevitável de se decepcionar outra vez. Muitas vezes, o verdadeiro conflito não está nas palavras ditas, mas naquilo que os personagens não conseguem verbalizar.

Antes do lançamento, a sinopse do filme levou a especulações e comparações com o filme ganhador do Oscar Valor Sentimental (2025), de Joachim Trier, por conta da ideia de um cineasta tentando restabelecer tardiamente laços familiares. El Ser Querido, no entanto, segue por um caminho muito mais duro e menos melodramático. Esteban construiu uma distância deliberada da própria filha, consolidou outra família e sempre enxergou Emília como alguém fora do seu círculo social e artístico. Essa exclusão se torna ainda mais evidente durante as filmagens.

O set de gravação, localizado em meio ao deserto, funciona como uma extensão emocional dos personagens. O ambiente quente, seco e hostil reforça a sensação de desgaste permanente. O filme dentro do filme trata de guerra, mas a verdadeira batalha acontece nos bastidores, na relação entre pai e filha e na maneira como Esteban conduz sua equipe. Sorogoyen constrói então um dos aspectos mais perturbadores do longa: a violência que não deixa marcas físicas, mas destrói emocionalmente todos ao redor. 

Esteban ultrapassa constantemente os limites éticos em nome da “verdade artística”. Há uma cena particularmente forte em que ele obriga os atores a repetirem dezenas de vezes uma sequência banal durante uma refeição, exigindo velocidade e exaustão até levar todos ao limite. A câmera desliza pelos rostos cansados, incrédulos e humilhados da equipe, revelando como um ambiente de trabalho pode se tornar abusivo sem que exista agressão física explícita.

Essa sequência resume quem Esteban é: um homem incapaz de pedir desculpas. Seu narcisismo artístico está acima de qualquer noção de humanidade, empatia ou colaboração. E isso é especialmente irônico porque o cinema é, essencialmente, uma arte coletiva. Quando sua diretora de fotografia decide abandonar a produção por não concordar com seus métodos, ele simplesmente a substitui por alguém disposto a aceitar suas condições. Para Esteban, as pessoas são descartáveis quando deixam de alimentar sua visão de grandeza.

O mais doloroso do filme é perceber que não existe catarse emocional. El Ser Querido não conduz seus personagens a uma reconciliação confortável. Pelo contrário: quanto mais tempo passam juntos, mais profundas ficam as feridas entre os dois. Emília percebe gradualmente que aquele homem com quem compartilha o sangue jamais ocupou, de fato, o papel de pai em sua vida. Resta apenas um vínculo biológico vazio, incapaz de produzir intimidade, acolhimento ou afeto.

Victoria Luengo entrega uma atuação muito contida e emocionalmente complexa. Sua personagem vive em permanente estado de resistência. Emilia precisa provar o tempo inteiro que merece estar naquele filme, numa busca permanente de validação emocional e artística. Ao mesmo tempo, carrega dentro de si décadas de sentimentos reprimidos em relação ao pai. A atriz consegue transmitir esse conflito interno sem recorrer a grandes explosões dramáticas, apenas por meio do olhar e da postura corporal.

Javier Bardem encontra, mais uma vez, um personagem perfeito para sua presença intimidadora. Desde o vilão Anton Chigurh em Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), o ator demonstra enorme capacidade para interpretar figuras brutais e imprevisíveis. Aqui, Bardem utiliza sua expressão pesada e o olhar magnético para compor um homem permanentemente atravessado por culpa, ressentimento e raiva silenciosa.

El Ser Querido fala sobre a impossibilidade de construir relações familiares apenas através da biologia. Laços de sangue, sozinhos, não significam absolutamente nada sem presença, cuidado e convivência. O “ser querido” do título parece menos uma pessoa, e é mais um desejo: a necessidade desesperada de ser amado.

 Esteban talvez queira o amor da filha, mas nunca aprendeu como amar alguém sem transformar tudo ao redor em extensão da sua autoimagem inflada. Nessa disputa, a pergunta que fica não é se Emília conseguiria o papel de sua vida sem este convite, mas se algum reconhecimento artístico poderia compensar a ausência de um pai durante toda sua trajetória. Há vínculos que o tempo não repara porque nunca chegaram, de fato, a existir. 

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Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

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