terça-feira, fevereiro 20, 2024

Crítica | Estranha Forma de Vida – Almodóvar apresenta faroeste queer e fashion com Pedro Pascal e Ethan Hawke

Lançado na seleção oficial do Festival de Cinema de Cannes 2023, Estranha Forma de Vida (Extranã Forma de Vida), de Pedro Almodóvar, é um curta-metragem, de 31 minutos, ao mesmo tempo ousado e recatado. A dicotomia apresenta-se por conta da bravura do projeto: um faroeste com personagens queers vestidos da grife Saint Laurent, mas com a representação do desejo sexual de modo discreto.

Produtora do filme, a marca francesa de alta-costura, joias e perfumes Saint Laurent dá destaque ao figurino único para ambientação rústica de caubóis, chão de terra e casas de madeira, como em Rastros de Ódio, de John Ford, por exemplo. Nutrido dessa atmosfera, o curta começa de forma lírica com o fado (e canção título) “Estranha Forma de Vida”, de Amália Rodrigues, na voz de Caetano Veloso, dublado em cena por Manu Ríos, o Patrick do seriado Elite (2018 -), da Netflix.

Esta é a segunda vez que o cantor brasileiro colabora com o cineasta espanhol. A primeira foi na versão de “Cucurrucucú Paloma para a trilha sonora de Fale com ela (2002). O projeto também marca a segunda incursão de Almodóvar em uma produção em língua inglesa, depois do curta A Voz Humana, com Tilda Swinton, a partir do texto de Jean Cocteau, apresentado no Festival de Veneza em 2020.

Com a introdução melancólica, o enredo coloca em cena os astros e grandes chamarizes da produção: Ethan Hawke, como o xerife Jake, e Pedro Pascal, como o caubói Silva. Grande parte da produção, digamos 80%, se apoia no talento e na imagem pública dos dois atores. Se considerarmos apenas este ano, Pedro Pascal esteve à frente de duas grandes séries — The Last of Us e O Mandaloriano — e tornou-se queridinho da internet em personagens másculos, assim como os últimos papéis de Hawke no cinema com O Telefone Preto (2021) e O Homem do Norte (2022).  

Comparado ao — verdadeiro merecedor do Oscar de Melhor Filme em 2006 — O Segredo de Brokeback Mountain (2005), de Ang Lee, por conta da temática, Estranha Forma de Vida não possui a mesma fórmula, nem o mesmo tom dramático. O filme é, na verdade, uma mistura de faroeste e comédia, regada a uma velada sensualidade e sentimentalismo.

Durante o festival de Cannes, Almodóvar declarou a intenção de fazer um filme sem ser explícito, no qual todo o desejo fosse percebido através do olhar. E é exatamente o que observamos durante o diálogo entre Jake e Silva. A familiaridade, as desculpas estapafúrdias e a vontade do toque alheio são evidenciados por meio da linguagem corporal. 

Leia também: Cannes 2023 | Conversa com Pedro Almodóvar sobre o faroeste homoafetivo sem nudez

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Contudo, a narrativa deixa entreaberto os desígnios de Silva ao procurar o velho amigo da juventude Jake, após 25 anos de uma tórrida noite de paixão embebida em muito vinho. De forma teatral, como nos longas dos anos 1980: Ata-me! (1989) e Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988), Estranha Forma de Vida concentra-se na conversa após a noite de paixão reacendida entre os dois homens. Vale dizer que as cenas mais fulgurosas são vividas pelas versões jovens dos personagens, o português José Condessa (Silva) e os espanhol Jason Fernández (Jake).

Ao longo da conversa, toda a construção de 25 anos de dúvidas, negações, promessas são colocadas à mesa e as motivações mais fortes de ambos são desmascaradas. Por meio do diálogo, Almodóvar corta longos minutos de desenvolvimento de história para condensar anos de frustrações e acerto de contas a culminar no ponto-chave da obra. Silva tem duas missões: salvar a vida do seu filho único Joe () e a si próprio. 

Após os desdobramentos finais, Silva faz a pergunta de ouro de toda a mise-en-scène: o que dois homens vivendo juntos em um rancho podem fazer um pelo outro? Ele mesmo responde em uma comovente afirmação de amor queer, mas a questão que permanece é o quanto Silva pode ser manipulativo.

Sem todos os talentos envolvidos e as controvérsias, Estranha Forma de Vida não ganharia tanta relevância (e nem distribuição em salas de cinema) pelo conjunto da obra aprazível e corajoso, porém bonachão como todo melodrama.

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Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Nascida no Rio de Janeiro e apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

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