Crítica | Faça Ela Voltar – O luto que vira pesadelo nas mãos dos criadores de ‘Fale Comigo’

Depois do sucesso de Fale Comigo (Talk to Me, 2022), os irmãos australianos Michael e Danny Philippou retornam com mais uma história onde o horror nasce do luto em Faça Ela Voltar (Bring Her Back). Em ambos os filmes, a dor da perda é o motor narrativo, mas aqui ganha um tom mais sombrio e melancólico, ainda com um vínculo com a ideia macabra de como a internet pode amplificar e distorcer uma experiência dolorosa.

Se no primeiro longa acompanhamos Mia (Sophie Wilde) — mergulhando num mundo fantasmagórico e grotescamente exibido nas redes sociais após a morte da mãe —, em Faça Ela Voltar a dupla de diretores aposta em outra configuração: dois irmãos recém-órfãos, Andy (Billy Barratt) e Piper (Sora Wong), vão viver na casa de Laura (Sally Hawkins), ex-conselheira tutelar igualmente marcada pela perda precoce da filha Cathy (Mischa Heywood). Desde o princípio, a atmosfera é sufocante: a morte do pai de forma incomum, e a descoberta do corpo pelos filhos já impõe um peso insuportável antes mesmo de o enredo avançar.

A introdução mistura fitas VHS antigas com interferências e imagens de rituais satânicos — sangue, corpos contorcidos, figuras indistintas — que aos poucos se conectam à vida desses personagens ceifados pelas intempéries da existência. O primeiro contato entre os jovens e sua tutora já é perturbador: música alta, uma criança com aparência quase zumbi (Olivier, vivido por Jonah Wren Phillips) e portas que escondem segredos. 

É nesse cenário que Laura começa a manipular Andy, tentando pintá-lo como um adolescente violento e imprevisível para afastá-lo de Piper. Com uma visão bem limitada — tal como o menino do filme Anatomia de uma Queda (2023) —, a adolescente depende do irmão, já ele se esforça para não se separar dela até alcançar a maioridade e tornar-se seu tutor legal. Laura, entretanto, tem outros planos para ambos.

O terror aqui não se apoia em reviravoltas, mas em um estado constante de desamparo. Se Fale Comigo pulsava em energia bruta e choques súbitos, Faça Ela Voltar prefere o horror atmosférico, mergulhado na chuva incessante e na melancolia da água — piscina, chuveiro, poças — usada como metáfora para o trauma. A violência, quando vem, é mais contida, mas não menos perturbadora. 

A dupla de cineastas ancora essa narrativa na realidade ao inserir a origem do ritual satânico em tutoriais de YouTube — um comentário direto sobre como a cultura digital pode moldar, distorcer e potencializar atos autodestrutivos. Em tempos de desafios perigosos no TikTok e comportamentos nocivos replicados por jovens online, a premissa deixa de ser fantasia e se aproxima de um terror inquietantemente plausível.

Faça Ela Voltar, no entanto, deixa a desejar por construir um roteiro excessivamente linear. Ao contrário de cineastas como Zach Cregger (Noites Brutais e A Hora do Mal), que usam a estrutura para surpreender, os Philippou entregam cedo demais elementos-chave e não escondem seus movimentos, tornando o desfecho previsível. A conclusão é literal às pulsões dos personagens: quem busca a morte, encontra-a; quem busca a vida, sobrevive. É coerente e, ainda assim, assustador, mas carece da ousadia e inventividade que poderia elevar a experiência.

Outro ponto que dilui o impacto é o uso limitado do elemento “internet” na trama. Apesar de ser mencionado como gatilho para o ritual, sua participação prática é mínima. Andy, aos 17 anos, parece desconectado do mundo virtual, e Piper, embora resiliente frente à sua deficiência visual, também não explora esse espaço. Essa desconexão enfraquece o paralelo inicial entre dor, isolamento e a maneira como as redes podem amplificar ambos os traumas.

Em Faça Ela Voltar, os Philippou trocam o frenesi do susto imediato por uma fábula sombria sobre perda, obsessão e manipulação emocional. É um filme com boas atuações — Hawkins está magnética e inquietante —, imagens marcantes e um controle rigoroso da atmosfera. Mas ao optar por um caminho mais dramático e, portanto, previsível, o resultado fica aquém da profundidade e originalidade conquistadas no primeiro longa da dupla.

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Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.