Frantz Omar Fanon. Se você nunca ouviu falar nesse nome, deveria correr atrás e buscar saber mais sobre seus estudos. Frantz Fanon, como é mais conhecido, foi um importante psiquiatra, escritor, estudioso, filósofo político e uma das maiores referências mundiais quando o assunto é estudos pós-coloniais. Seu trabalho vem sendo reconhecido, estudado e referenciado em diversas pesquisas no mundo inteiro (inclusive dessa que lhes escreve), em diversos assuntos, e agora sua trajetória ganha uma cinebiografia com o intuito de que seu exemplo alcance cada vez mais pessoas. Depois de ter participado do Festival de Cinema Francês no ano passado, com a presença do diretor no Rio e em São Paulo, ‘Fanon’ foi anunciado como filme de abertura do Brasília International Film Festival e estreia nos cinemas brasileiros dia 14 de maio.

Já tendo concluído seus estudos e com uma carreira em ascensão, Frantz Fanon (Alexandre Bouyer) chega com sua esposa, Josie (Déborah François), na Argélia, onde ele assume um cargo no hospital psiquiátrico Blida. Porém, desde os primeiros instantes fica claro o posicionamento de Fanon: ele, homem preto, demonstra não concordar com a prática de opressão, punição e violência não só contra os pacientes, mas contra os argelinos de modo geral, e isso acaba irritando aos comandantes do exército argelino, que detêm o poder e o controle do país que, à época, era colônia francesa. Por se opor ao regime colonial, Fanon acaba se aproximando da Revolução Argelina, que exerce forte influência não só do percurso de sua vida, mas, acima de tudo, no seu pensamento e nos estudos que viriam a ser publicados.
Se a vida e obra do biografado é gigante, o hype fica alto quando sabe-se de um filme. Felizmente, ‘Fanon’ trata com muito respeito, dedicação e profundidade a vida do psiquiatra. O roteiro de Philippe Bernard se dedica muito mais em contar a vida pessoal de Fanon, mostrar como o entorno, as experiências, as vivências em solo argelino influenciaram profundamente não só na sua percepção de mundo, como nos seus pensamentos e no seu modo de viver, do que mostrar mais dos desdobramentos desses estudos, ou mesmo de sua morte. Ou seja, o filme aborda sua biografia pessoal, sua história, e, para não deixar de mencionar, resume os momentos de intelectualidade a algumas cenas em que Fanon dita seu pensamento à sua esposa, cuja maioria das cenas se resume a datilografas as palavras do marido.

Dirigido por Jean-Claude Barny (cuja elegância marcou sua passagem pelo Rio), o filme faz uma bela abordagem não só da vida de Fanon, mas também do contexto revolucionário que a Argélia passou para se independer da França – fato ocorrido em 1962, após quase dez anos de luta, e que Fanon infelizmente não chegou a testemunhar. Contextualizar o mundo sobre a história da Argélia é um dos grandes méritos do filme, além de, claro, trazer as ideias pós-coloniais para as telonas.
Com esmero, o diretor faz belas e longas tomadas para ajudar a criar um clima crescente de tensão, principalmente acerca da tensão racial, que permeia toda a trajetória do biografado. Chama a atenção também as locações eleitas para as gravações, cuidadosamente retocadas e decoradas não só para dar a atmosfera de época, mas para evidenciar para o resto do mundo que a Argélia era e é cheia de belezas, inclusive arquitetônicas. Assim, por mais que ‘Fanon’ conta a história de um grande pensador contemporâneo, o filme de Barny também faz a importante escolha de usar-se como ferramenta de ilustrar a Argélia para o mundo, contando sua história, sua cultura, suas religiões, suas paisagens – até porque, a Argélia fez parte de Fanon.
Importante e bem-realizado, ‘Fanon’ é um filme obrigatório em muitos sentidos, mas, principalmente, para a ampliação do letramento racial. Todos têm que ver.



