Em meados dos anos 1990, com a enorme crise econômica que o Brasil enfrentava, duas medidas foram adotadas pelo então governo federal: a mudança e adoção de uma nova moeda nacional (o real) e o início da venda de instituições públicas, para, assim, ficarem sob a administração de empresas privadas – muitas das quais, multinacionais estrangeiras, sem qualquer interesse ou ligação com a cultura e a população brasileira. Sobre esse período desvalorizante, estreia essa semana nos cinemas o longa brasileiro ‘Homem Onça

Pedro (Chico Diaz) é pai da adolescente Rosa (Valentina Herszage) e possui um relacionamento estável com sua esposa, Sônia (Silvia Buarque). Ele é gerente da estatal Gás do Brasil, chefe de departamento, e se orgulha muito disso. Ou melhor: sua vida toda é isso. Até o dia que, de repente, a empresa pública é privatizada, e os novos donos passam a implementar diversas mudanças, como a demissão em massa dos funcionários e a aposentadoria mandatória. Pego de surpresa, aos poucos Pedro começa a perder sua própria identidade quando se vê obrigado a realizar procedimentos com os quais não concorda, para também não perder seu emprego. Mas, de que vale o trabalho, quando todo o patrimônio público se esvazia com a implementação da privatização e o indivíduo é tão facilmente descartado?



Escrito e dirigido por Vinícius Reis – com a colaboração de Flavia Castro e Felipe Barbosa – e inspirado livremente na história de vida do próprio pai do diretor, ‘Homem Onça’ parte de eventos reais – as privatizações – para falar do particular, de como esses eventos atingiram e ainda atingem profunda e irreversivelmente milhares de vidas de cidadãos brasileiros. Qualquer brasileiro com mais de trinta anos hoje tem alguma memória desse período, mas, apesar disso, poucas são as produções que se debruçaram sobre esse tema da história do país.

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Construído de uma maneira metafórico-poética, por vezes o longa entra numa narrativa que não alcança o grande público, porém, esta escolha não prejudica a compreensão do filme, até porque o que conecta o espectador é o sentimento melancólico desesperado e de raiva contida do protagonista, que vê toda a sua vida ruir graças ao neoliberalismo capitalista. Para tal, ‘Homem Onça’ costura dois tempos narrativos: o presente, em que o desmoronamento social ocorre e causa verdadeiras feridas na alma e (literalmente) no corpo do protagonista, e num futuro, em que, cansado de toda essa desilusão, Pedro se recolhe no interior, no meio do mato, onde vive uma vida solta de amarras junto com seu primeiro grande amor, Lola (Bianca Byington).

Exibido este ano no 49º Festival de Gramado (que novamente teve o formato on-line), ‘Homem Onça’ traça diálogo direto com o momento atual do país. Através da ficção, ‘Homem Onça’ faz um tristíssimo e dolorido relato do início da era das privatizações no Brasil. Dessa forma, o longa presta um bom serviço à posteridade ao construir um retrato para as jovens e futuras gerações dizendo como as instituições públicas foram pouco a pouco sendo destituídas de suas autonomias.



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