Mudança de rumo é algo que assusta. Se o novo caminho for melhor, enfrentamos a trajetória com satisfação, diferente quando a proposta modifica o que estava confortável e não traz nada que possa justificar o seu estabelecimento em nossas vidas. Esse é um pensamento que pode ser aplicado aos relacionamentos que vivenciamos, aos desafios profissionais e até mesmo durante um momento diletante diante de um livro, série ou filme. Ao trazer essa linha de pensamento para o universo de narrativas cinematográficas, podemos associar imediatamente com o terceiro ‘Invocação do Mal‘, mais recente exemplar da longeva franquia envolvendo o casal de demonologistas Ed e Lorraine Warren, interpretados com carisma, competência e coesa por Patrick Wilson e Vera Farmiga desde o primeiro capítulo desta saga de horror com momentos de possessão, exorcismo e descoberta de objetos macabros, elementos que testam a fé dos personagens que vivenciam situações numinosas e geralmente muito assustadoras.


Ao leitor, uma constatação para começar. ‘Invocação do Mal: A Ordem do Demônio‘ é um bom filme de terror, ou, como geralmente definimos no campo da crítica, uma narrativa genérica. Se a produção não é ruim, por qual motivo associar a mudança de rumo com algo desconfortável? Essa pode ser a pergunta a brotar enquanto você não chega ao final desse texto. Explico. Com o desenvolvimento muito acima da média dos seus dois capítulos antecessores, geralmente esperamos algo avassalador em sua terceira incursão, em especial, a experimentação de elementos da linguagem cinematográfica que possam manter o nível de tudo que já tinha sido apresentado com muita qualidade. Mas isso não ocorre. Sem a direção de James Wan, mais virtuoso que Michael Chaves, cineasta que assumiu o projeto mais atual, a terceira incursão do casal Ed e Lorraine Warren em um de seus casos mais polêmicos falha. Há momentos inspirados, mas nada que alcance o patamar dramático e estético de antes.

Inspirada no julgamento de Aaron Johnson (Ruari O’Connor), jovem que em 1981, assassinou um homem e alegou que no ato das facadas, estava possuído por forças demoníacas, o filme traz Ed e Lorraine em mais um desafio: garantir que as forças das trevas não dominem uma determinada família, envolta nos desdobramentos de rituais satânicos e conjurações de bruxas que devastam a vida de todos aqueles que gravitam em torno dos envolvidos nesta tragédia que se tornou piada na época, a estampar manchetes jocosas que satirizavam a situação que para a dupla de demonologistas era algo muito real, assustador e desolador, momentos de exaustão de energias e provocação da fé, principalmente para as vítimas de uma maldição sem precedentes, primeiro para o pequeno David Glatzel (Jullian Hillard), depois para o namorado de sua irmã, Johnson, levado ao tribunal e defendido por seu advogado com a tese incomum de ser sido possuído por entidades demoníacas quando cometeu o já mencionado crime.



Assim, resta lamentar, haja vista a alta expectativa que me tomou enquanto esperava o retorno do casal e da franquia aos circuitos de entretenimento, modificados completamente com o advento da pandemia da covid-19 que desde 2020 transformou a nossa forma de se entreter. Como já mencionado, desta vez, a história é dirigida por Michael Chaves, o responsável pelo fraco A Maldição da Chorona, spin-off da franquia, um dos momentos menos expressivos deste universo sobrenatural. Ao assumir o roteiro de David Leslie Johnson-McGoldrick, ele transforma o texto num festival de duplo ritmo narrativo ao longo de 112 minutos, ora com passagens frenéticas demais, ora com morosidade, sem deixar muito espaço para a sutileza que em muitos momentos, contribuem mais que o excesso de sustos e clichês, propiciados especialmente pela direção de fotografia de Michael Burgess, profissional que entrega os habituais espaços iluminados em contraste com pedaços da tela tomados por uma escuridão trevosa, como se as imagens captadas fossem alusões ao que se fazia comumente na pintura barroca. A movimentação e o uso de planos fechados em determinadas passagens funcionam bem, da mesma maneira que a utilização do ponto de vista, escolha ideal para mesclar imagens mais abertas com peculiaridades observadas exclusivamente pelos personagens, compartilhadas conosco num processo de aproximação que revela algo para logo adiante, nos fazer saltar com os sustos originados pelo jumpscare que já é uma muleta no cinema de terror há eras.

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Em seus aspectos estéticos, Invocação do Mal: A Ordem do Demônio expressa o esmero estético dos membros que compõem a equipe técnica da franquia. Jennifer Spence expõe aos nossos olhos um excelente trabalho no design de produção, setor que compõe os cenários com uma direção de arte firme, sem espaço para nos decepcionar. Tudo está muito bem orquestrado. O necrotério, a casa da família Warren, os misteriosos túneis que nos conduzem para o macabro altar que demarca o desfecho da maldição que toma os personagens da história, dentre tantos outros cuidadosos territórios cênicos. A trilha sonora de Joseph Bishara, colaborador de longa data da franquia, também se porta de maneira eficiente, sem grandes momentos, mas adequada para o que nos é apresentado enquanto material dramático. Creio ser a fiel tradução musical para o que é ofertado ao músico e, consequentemente, aos espectadores, isto é, uma textura percussiva que dialoga exatamente com a qualidade mediana do filme que conduz.



Narrativa que depende bastante da sonoridade para produzir os efeitos necessários em seus consumidores, algo já mencionado anteriormente ao versar sobre o uso deliberado de jumpscare. aqui temos Jason W. Jennings como supervisor do design de som, setor responsável pela fabricação de ferrões musicais que alcançam níveis absurdos em determinados pontos, estratégia que não é de agora que se tornou sinônimo de preguiça para muitos filmes que dependem exclusivamente de seus atributos para criar algum impacto no espectador, mesmo quando a história em si deixa bastante a desejar. É quase o caso de Invocação do Mal: A Ordem do Demônio, produção que se equivoca quando abandona os ambientes ermos e se dispersa por uma investigação semelhante aos produtos televisivos genéricos sobre o tema. A opção por dividir o seu desfecho em duas situações justapostas por uma montagem alternada também prejudica o ritmo do filme, escolha que não deixa que nenhum dos dois lados seja potencializado, num processo de enfraquecimento da cadência narrativa, algo pecaminoso para uma produção que depende da manipulação do medo e do pavor para funcionar bem.

Um dos principais problemas que deixam Invocação do Mal: A Ordem do Demônio ser bom e não ótimo é, além do ritmo, a opacidade das entidades que dominam os personagens incautos. Diferente de Betsheeba e Valak, figuras demoníacas atordoantes dos filmes antecessores, aqui temos uma ameaça menos impactante, com menor tempo que o esperado em cena, frívola quando comparada com os “monstros” que a precederam, tornando-a banal e frágil, nada próxima do que foi prometido pelo marketing do filme, setor que deixou claro ser este “o caso mais assustador de Ed e Lorraine Warren”. Se investissem na saga dos Smurl, por exemplo, história que inspirou o tenso A Casa das Almas Perdidas, telefilme dos anos 1990, acredito que o potencial da história fosse muito maior. Não adianta, no entanto, ter uma boa trama quando a direção e o roteiro são ineficazes. Sabemos que o terror é um gênero de fases e acredito ser necessário uma nova reviravolta neste campo de produção, tal como Invocação do Mal fez em 2013, ao revitalizar temáticas desgastadas. Com oito filmes no projeto, a franquia apresenta sinais de desgaste e precisará de um novo capítulo muito mais intenso para garantir que ainda possa funcionar bem. Para nós, espectadores críticos, fica o questionamento: será que o Invocaverso ainda funciona? Resta esperar mais tempo para confirmar. Oremos.

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