Jessie Ware tem tido uma carreira espetacular no cenário musical, despontando como uma das artistas mais célebres de sua geração e oferecendo uma originalidade apaixonante em cada um de seus álbuns. Desde sua estreia oficial em 2012 com o aplaudido ‘Devotion’, a cantora e compositora britânica esquadrinhou as pulsões do art pop e do R&B alternativo com comprometimento inegável – e estenderia suas explorações nada convencionais para cada um de seus projetos fonográficos. Em 2020, Ware encontraria um novo ápice artístico com o lançamento de ‘What’s Your Pleasure’, que mergulhou no nu-disco e no hi-NRG de maneira sensual e elegante, despontando como um dos melhores álbuns não só do ano, mas da década.
Três anos mais tarde, a performer permaneceria em sua maré de sucesso com ‘That! Feels Good!’, que ocupou o primeiro lugar da nossa lista de Melhores Álbuns de 2023 e que voltou a cimentar seu impacto no cenário do entretenimento, reunindo elementos explorados por nomes como Madonna e Kylie Minogue (esta inclusive emprestando seus vocais para a faixa de abertura) ao passo que trilhou sua própria identidade. E, este ano, ela fez mais um sólido retorno com o que apenas podemos entender como uma provável conclusão de sua trilogia de álbuns – e cujo capítulo de “encerramento”, se não estivermos enganados, recebeu o nome de ‘Superbloom’.
Contando com treze faixas inéditas, o compilado de originais funciona como mais uma celebração de tudo o que Ware vinha nos apresentando desde o início da década, esquadrinhando elementos distintos que trazem o conhecido tempero da artista a cada uma das faixas. Se nas incursões anteriores ela havia nos presenteado com narrativas hedonistas sobre paixão, sexo e a necessidade de viver a vida ao máximo, aqui ela, de maneira nada óbvia, nos convida para uma jornada mais íntima e carnal que transforma o disco em uma efervescente euforia instrumental que se apoia no disco, no dance e nos populares sintetizadores dos anos 1970 – construindo uma vibrante epopeia teatral que não perde a mão em momento algum.
A promoção do álbum começou em janeiro de 2026 com o lançamento do lead single “I Could Get Used to This”, uma escolha modesta para a abertura de uma nova era musical de um dos nomes mais badalados do momento – e que já nos deu um gostinho do que esperar, apoiando-se em uma estética amalgamada entre R&B e funk, dedilhada pelas conhecidas cordas pelas quais Jessie sempre teve muita afeição. E, enquanto o projeto começou com o pé direito, ela gradativamente guardou o melhor para as semanas seguintes, que incluíram a fabulesca “Automatic” (uma espécie de irmã espiritual de ‘What’s Your Pleasure’); a inesperada “Ride”, que trouxe o trabalho do saudoso Ennio Morricone em um despojado western musical; e a fabulosa “Sauna”, que já se configura como uma das melhores entradas da carreira da cantora.
Porém, Ware também guardou algumas surpresas para o lançamento oficial do álbum, arquitetando um enredo que mergulhou em metáforas ajardinadas para perscrutar um crescente amadurecimento que ela almeja em cada uma de suas investidas. Aqui, ela dá o pontapé inicial com uma breve introdução de quase cinquenta segundos intitulada “The Garden Prelude”, que logo dá espaço ao lead single e à faixa-título – uma encantadora e inebriante canção marcada pelas conhecidas notas do piano e por um arranjo marcado pelo baixo e por vocais cristalinos.
Jessie deixa muito claro seu apreço pelo camp, arquitetando um musical próprio para os palcos sem ao menos tangenciar o exagero performático e garantindo que cada elemento esteja polido – por mais que suas ideias nem sempre se concretizem como deveriam. Apesar dos breves deslizes, o resultado é bastante aprazível e funciona como mais um pequeno pedaço da apaixonante personalidade da artista – como vemos, por exemplo, na despretensão “Mr Valentine”, que traz um encontro surpreendente de sintetizadores, baixo, guitarra, bateria e pandeiros em uma emulação gritante “Beautiful People”; já “Don’t You Know Who I Am?”, uma das melhores entradas do compilado, reflete o caráter teatral da identidade da cantora em uma envolvente declaração amorosa que presta homenagem a nomes como Diana Ross e Gloria Gaynor.
Talvez o maior deslize do álbum seja a inclusão da cândida balada “16 Summers”, destinado ao filho e construída sobre uma estrutura melodramática que, ainda que nos comova pelo teor da narrativa saudosista e pela temática da efemeridade do tempo, não dialoga com as outras faixas do disco – além de ter sido colocada em uma posição “estranha”, por assim dizer, considerando que antecede duas faixas mais upbeat: a infusão de soul-dance de “No Consequences” e o nu-disco de “Mon Amour”.
‘Superbloom’ soa como o encerramento de uma ótima e memorável trilogia que foi antecedida por ‘That! Feels Good!’ e ‘What’s Your Pleasure’ e, apesar de não estar no mesmo patamar que seus conterrâneos, definitivamente merece atenção pela forma despojada, sensual e amadurecida com que foi trabalhado – e por dar destaque absoluto aos irretocáveis vocais de Jessie Ware.

