Em 1996, Andrew Fleming conquistava os fãs do terror adolescente com o lançamento de Jovens Bruxas, longa-metragem que, apesar de não ter sido recebido de forma favorável por parte da crítica, tornou-se um dos clássicos do gênero ao contar a história de um grupo de meninas que se envolveu com feitiçaria para alcançarem seus objetivos – e sentiram na pele o preço da ambição humana. Colocando nomes como Fairuza Balk e Neve Campbell (esta última a estrela de diversas produções similares, incluindo a franquia slasher ‘Pânico’) no centro dos holofotes, a obra ganhou uma legião de seguidores que revisitaram-na inúmeras vezes, encontrando elementos novos a cada incursão.

Na era dos remakes e dos revivals, era só uma questão de tempo até que o cult ganhasse uma versão modernizada para a geração contemporânea – e, 24 anos depois da estreia do filme original, a diretora e roteirista Zoe Lister-Jones nos apresentou com sua própria perspectiva de uma atemporal narrativa, procurando manter a essência da iteração predecessora enquanto apostava fichas em algumas reviravoltas interessantes. Dessa forma, nasceu Jovens Bruxas – Nova Irmandade’, liderado pela performance de Cailee Spaeny como Lilith “Lily” Schechner, uma jovem estudante que se muda para a casa do padrasto com a mãe, Helen (Michelle Monaghan), onde experencia uma série de eventos paranormais que refletem suas raízes como bruxa. A partir daí, ela se junta a outras garotas para fundarem um coven e exaltarem os poderes da natureza com os quais foram concedidos.

Entretanto, o resultado do longa-metragem é bem aquém do esperado: supervisionado pela Blumhouse – que, da mesma forma que nos entregou construções interessantes como ‘Fragmentado’ e ‘Halloween’, também falhou com ‘Verdade ou Consequência’ e ‘Ilha da Fantasia’ -, essa sequência revitalizada é crua demais para ser levada a sério ou para ser aproveitada, seja pelas constantes fórmulas das quais se vale para fornecer uma centelha de profundidade às personagens principais, seja por sua obviedade. Mais do que isso, é notável a forma como o roteiro é canalizado apenas para Lily, deixando as outras participantes do clã de soslaio e utilizando-as quando bem entender – e entenda o uso como restrito a sequências sem qualquer prospecto de inspiração.



Lily descobre que tem poderes ao enfrentar um valentão na escola, Timmy (Nicholas Galitzine), sendo contatada por Frankie (Gideon Adlon em uma exaurível e exagerada performance), Tabby (Lovie Simone) e Lourdes (Zoey Luna completamente apagada quando ao lado das companheiras) para assumir suas habilidades e talvez ter uma vida melhor. O quarteto, a princípio, decide apenas mudar a personalidade de Timmy, transformando-o em um cara desconstruído. E, de fato, o filme é quase completamente centrado na forçada relação que se ergue entre dois lados de uma mesma moeda, não deixando espaço para investidas coerentes e coesas em seu escopo inicial.

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De fato, a magia premeditada pela premissa do filme é deixada de lado, servindo apenas como frágil sustentação de uma espécie de drama romântico adolescente que passa por cima de importantes temas da forma mais superficial possível. Há certos flertes bem intencionados com questões sobre homofobia e machismo que nunca dão frutos sólidos, nem mesmo guiados pela força impetuosa de Spaeny e Monaghan nas cenas que dividem. Porém, o maior crime que o filme comete é impedir que suas “heroínas” desfrutem da companhia uma da outra: Lily trilha seu próprio caminho, da mesma forma que Sarah (Robin Tunney) fez na obra original, apesar de não ter a mesma intensidade; as outras três, perdidas em uma massa amorfa indistinguível, rendem-se a qualquer estereótipo dos anos 1990 e são brevemente diferenciadas pelos elementos naturais que representam. Dito isso, a química entre as quatro é inexistente.

Lister-Jones poderia muito bem explorar alegorias sobre cobiça, irmandade, empatia e traição, até mesmo tangenciando a altivez emblemática de tragédias shakespearianas – por mais desmesurado que isso soe. Afinal, a realizadora tinha a faca e o queijo na mão, mostrando uma parcela de seu potencial no curto primeiro ato. Mas todos os outros elementos parecem jogados profusamente sobre uma tela em branco, tentando criar algo com um mínimo de impulso. Como se não bastasse, os insistentes esforços em nos comover pela beleza do cenário e da construção imagética (incluindo a sobriedade de uma paleta de cores duvidosa) não vão muito além do que esperaríamos.



Jovens Bruxas – Nova Irmandade’ era um tiro no escuro desde sua concepção e de seu anúncio até a aguardada chegada – e o longa poderia seguir dois caminhos bem opostos. Infelizmente, boas intenções não foram o bastante para livrá-lo de ilogismos narrativos, pressões desnecessárias e a manutenção de um legado que não deveria ter sido tocado para começo de conversa.

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