Crítica | Julianne Moore brilha no visceral e dissonante suspense ‘Echo Valley’

Um amor perdido. Uma filha problemática. Uma tragédia inesperada. Em Echo Valley, Julianne Moore interpreta Kate Garrett, uma mulher que lida com uma grande perda pessoal à medida que navega pela administração de uma fazenda e ensina equitação. Porém, seus problemas não se resumem apenas à constante falta de dinheiro e às reminiscências de um amor que não vai mais voltar, estendendo-se para a personalidade problemática da filha Claire (Sydney Sweeney), que é viciada em drogas e, de alguma maneira, sempre consegue fazer com que a mãe se dobre para cumprir suas vontades.

Todavia, as coisas saem do controle quando Claire, voltando para casa banhada em chuva e sangue, conta para a mãe que foi responsável pelo assassinato do conturbado namorado, acertando-o com uma pedra e levando o corpo consigo para casa. Kate, percebendo a gravidade da situação, reúne todas as forças necessárias para ajudá-la e leva o corpo para ser desovado em um lago próximo. Acreditando que tudo acabou e aceitando viver com a culpa, Kate logo percebe que foi atraída para uma armadilha e que Claire, na verdade, foi responsável pela overdose de um jovem garoto – e que ela, ao lado do namorado e do perigoso traficante Jackie (Domnhall Gleeson) arquitetaram uma artimanha complexa para chantageá-la. As coisas saem do controle, com Claire fugindo e Jackie obrigando Kate a lhe pagar uma grande quantia em troca de seu silêncio.

O suspense dirigido por Michael Pearce é bastante prático e, no geral, cumpre com as expectativas – por mais que deixe um leve gosto agridoce à medida que nos aproximamos do final, talvez por não se jogar de cabeça nas ambiciosas incursões narrativas de que se vale. De qualquer maneira, a construção atmosférica é sólida o suficiente para nos guiar por essa enervante jornada cujas sutilezas abrem espaço para discussões sobre a toxicidade de relacionamentos familiares, luto, a complexidade dos vínculos humanos e, eventualmente, uma melancólica e breve análise sobre a “bonança após a tempestade”. E, trazendo elementos emprestados de thrillers psicológicos e dramas intergeracionais, o resultado é aprazível e condizente ao que esperávamos.

Moore faz um trabalho admirável como Kate, o que não é nenhuma surpresa, considerando sua extensa filmografia e seus memoráveis papéis no cenário do entretenimento. A vencedora do Oscar, recém-saída da minissérie ‘Sereias’, encarna uma mãe marcada pelo trauma e pela efemeridade da própria vida, sentindo-se incapaz de ajudar a filha e, ao mesmo tempo, ingênua por não ter percebido a armadilha em que estava se enfiando – percebendo que a única culpada é ela mesma por amar Claire de maneira incondicional. Mais do que isso, Moore singra pelo limiar entre o desespero e a libertação, marchando em uma árdua trajetória que, eventualmente, lhe fornece todas as respostas de que precisa para se livrar do claustrofóbico beco sem saída em que se encontra.

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Acompanhando-a nessa enervante jornada, Sweeney volta a brilhar em um dramático papel que traz certas páginas emprestadas de Cassie, personagem que interpreta na série ‘Euphoria’ – com o único pecado de não ter tanto tempo de tela quanto imaginávamos. E, completando esse time incrível de atores e atrizes, temos Gleeson se jogando de cabeça em um odioso e mercenário antagonista, Fiona Shaw em uma contundente presença como Jessie Oliver, amiga de Kate e uma espécie de “mentora” que a auxilia a sair do buraco em que está, e a presença pontual de Kyle MacLachlan como Richard, pai de Claire e ex-marido da protagonista. Cada um brilha à sua maneira e ajuda a compor esse funcional suspense.

Como já mencionado, os problemas se destinam ao desperdício de um potencial inimaginável que nos é mostrado logo nos primeiros minutos: é claro, Pearce consegue nos envolver com a maneira que conduz as sequências, prezando pelo intimismo derradeiro de que os personagens desfrutam, e aliando-se ao pragmático roteiro de Brad Ingelsby. Todavia, ainda que a grande reviravolta venha de surpresa e nos fisgue para a ótima conclusão do longa-metragem, alguns diálogos são conscientes demais para serem levados a sério e mergulham em fórmulas bastante conhecidas de projetos similares.

echo valley 4
echo valley 4

Pearce utiliza construções simétricas que entram em conflito com a ambientação dissonante e desequilibrada dos arcos dos protagonistas e coadjuvantes, e apoia-se na óbvia fotografia de Benjamin Kračun, que aposta no inescapável vórtice em que Kate e Claire se encontram através de cores frias e melancólicas, bem como uma iluminação azulada que parece retirar a personagem de Moore da realidade e colocá-la em uma inebriante suspensão de descrença – mas sem entrar em território surrealista ou fabulesco. E, como poderíamos imaginar, a trilha sonora tétrica composta por Jed Kurzel emerge em arranjos orquestrais pautados em instrumentos de corda propositalmente ábsonos que, com a ideia de reafirmar esse ensandecido tour-de-force, tornam-se redundantes.

Echo Valley se respalda nos convencionalismos do suspense para não fugir de uma zona de conforto que, para o bem ou para o mal, funciona dentro de seus limites. De qualquer forma, é notável como as meticulosas atuações de um elenco de peso são fortes o bastante para nos envolver em uma narcótica batalha interpessoal – com destaque à sempre ótima Julianne Moore em mais um trabalho digno de nota.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.