Três anos depois de ter lançado o controverso e subestimado Witness, Katy Perry retornou para os holofotes da indústria fonográfica ao anunciar seu sexto álbum de estúdio, Smile. Descrevendo-o como uma espécie de “luz no fim do túnel” que a ajudaria a recuperar a alegria de viver – e também serviria de guia para seus fãs -, Perry aproveitou sua gravidez para trabalhar avidamente em um retorno ao pop, que já demonstrava frutos gloriosos com “Never Really Over” e “Harleys in Hawaii”, singles avulsos que, eventualmente, integrariam o compilado de inéditas. Utilizando elementos novos para compor essa mais nova fase de sua carreira e “acidentalmente” adiando a produção para um dia depois do nascimento de sua primogênita, Daisy Dove Bloom, a artista se manteve fiel às raízes que a colocaram no topo do mundo na década passada – ainda que tenha abandonado certos vícios de linguagem.

Perry parece ter entendido que o experimentalismo rebuscado e excessivamente irreverente de sua investida predecessora não funcionou como deveria – apesar de nutrir de certas incursões desperdiçadas e vislumbres de algo que, caso melhor produzido, cairia no gosto popular e crítico. Não é surpresa que ela tenha apostado em construções mais convencionais e saudosistas, aliando-se ao icônico Zedd, por exemplo, e seu respaldo oitentista dos sintetizadores; ou então às semi-baladas de Johan Carlsson e sua forte presença no indie rock. De qualquer forma, o resultado nos arremessa de volta para Prism e Teenage Dream, a uma borbulhante estética que fala, através de versos ligeiramente superficiais, sobre a força necessária para ressurgir depois de uma brusca queda.

A cantora e compositora realmente passou por um período conturbado nos últimos anos, lidando com depressão, críticas negativas e pejorativas, términos – e eventualmente um reencontro espiritual consigo mesma que a permitiu seguir em frente. De certa forma, ela se mostra mais amadurecida, com construções envolventes e paradoxais, sem deixar para trás seu estilo camp e “exagerado”, por assim dizer: temos a vibrante mescla dance e nu-disco de “Teary Eyes”, que nos convida para as pistas de dança em uma sensorial arquitetura sônica com as mãos impecáveis de FRND e OzGo – dando vida a uma íntima e ressonante narrativa sobre enfrentar seus obstáculos e acreditar que o futuro será melhor, independentemente do que esteja acontecendo; “Not The End Of The World” a traz para o final dos anos 2010 com o flerte com o trip-hop progressivo que tanto marcou a discografia de nomes como Ariana Grande e Camila Cabello.



Evocando as tendências futuristas do electro-pop, Katy se entrega de bom grado à imagética fonográfica que Ian Kirkpatrick nos apresentara com “Don’t Start Now” e “Look at Her Now” – e até mesmo com “Fresh Eyes”, se quisermos voltar um pouco mais no tempo. Através dessa mistura, insurge a narcótica e saudosista “Champagne Problems”, cuja lírica opta por uma história romântica que pode (ou não) atravessar as gerações; o estilo funde-se ao borbulhante pop-rock de “Tucked” que, apesar das boas intenções, acaba sendo ofuscado tanto por faixas anteriores quanto pelas posteriores – provavelmente por ter sido colocada em uma seção do álbum que premedita um final pontilhado pelas melhores canções.

A verdade é que a benevolência metafórica e bastante cotidiana de Smile peca em não perceber o número exorbitante de performances contrastantes que se delineiam ao longo de 12 tracks (sem mencionar as adicionais da versão deluxe, é claro). A regência principal, como já analisado, restringe-se ao bubblegum pop que a transformou em uma das artistas mais bem sucedidas de todos os tempos – mas certas escolhas técnicas parecem destoar do restante, como acontece com a repetição imprecisa do demarcado synth-pop de “Never Really Over” e de “Cry About It Later”, do infantiloide e redundante minimalismo da esquecível de “Resilient” (que tangencia o condenável Mickey-mousing, devo dizer), e até mesmo dos inesperados acordes country-rock de “What Makes A Woman”, que tenta se salvar através de versos compostos com Sarah Hudson (e, buscando uma resolução cíclica, a companhia amiudada dos sintetizadores).

Em outro espectro, que não é aproveitado como deveria, Perry estende seus braços para a originalidade clássica de ícones do cenário musical – como é o caso da mimética canção epônima que é regada a Diana Ross com uma preciosidade descabida e muito bem-vinda. “Only Love”, por sua vez, fixa as bases no ecoante teclado elétrico, cuja datada modernidade é auxiliada pela composição múltipla dos vocais e de um abafado filtro que dá sustentação magnânima à rendição da artista – a qual fala sobre como o amor é a única arma que precisamos usar. “Daisies”, música lançada como single há alguns meses, faz o exato contrário e presta atenção em demasia à produção em detrimento das incursões performáticas – por mais que o resultado final seja bastante positivo.



Smile não exatamente o comeback de Katy Perry que todos aguardávamos, mas é aprazível quando direcionamos nosso foco às partes, e não ao todo. Encarando o álbum como uma jornada com começo, meio e fim, é notável as atribulações e as bifurcações enganosas de certas faixas; aqui, o mais aconselhável é perceber como cada faixa fala por si mesma e como, no final das contas, temos sorte de que ela finalmente está bem e que está forte o bastante para começar um novo capítulo de sua vida.

Aproveite para assistir:



Nota por faixa:

  • Never Really Over – 4/5
  • Cry About It Later – 3,5/5
  • Teary Eyes – 5/5
  • Daisies – 4/5
  • Resilient – 1,5/5
  • Not the End of the World – 3,5/5
  • Smile – 4,5/5
  • Champagne Problems – 4/5
  • Tucked – 2,5/5
  • Harleys in Hawaii – 4,5/5
  • Only Love – 4/5
  • What Makes a Woman – 3/5
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