Para a geração que começava a se interessar pelo cinema e pela televisão no começo dos anos 2000, Kenneth Branagh foi imortalizado no papel do divertido e controverso professor Gilderoy Lockhart, da franquia ‘Harry Potter’ – e, ainda que tenha feito um trabalho impecável no longa-metragem, sua carreira se estende para diversas áreas do entretenimento. Tespiano reconhecido e amante de William Shakespeare, Branagh não é apenas um grande ator, mas também um diretor e realizador que vem, projeto após projeto, construindo uma identidade própria que reflete sua versatilidade e seu apreço pelas artes performativas. Depois de ter trazido à vida títulos como ‘Hamlet’, ‘Muito Barulho por Nada’, Cinderela e Assassinato no Expresso do Oriente, o cineasta voltou com um projeto ambicioso e recheado de metáforas belíssimas: Belfast.

Quando pensamos em dramas de época, é costumeiro que voltemos nossa atenção para, por exemplo, adaptações vitorianas de Jane Austen ou suspenses de espionagem da época da guerra fria. Em Belfast, Branagh adota uma perspectiva bastante interessante que constrói um universo quase anacrônico, sem perder de vista o que quer contar ao público. A trama parte da visão de uma criança, de modo similar ao que Steven Spielberg já fizera nos anos 1980 e 1990 ou ao que Taika Waititi conquistara com o ótimo ‘Jojo Rabbit’. Aqui, Jude Hill faz sua aplaudível estreia no cenário dos longas-metragens como Buddy, um jovem garoto de oito, nove anos que vive na cidade titular, localizada na Irlanda do Norte e centro de um conflito étnico-político que pincela seu cotidiano com constatações cruéis e pesadas sobre o mundo.

Há uma certa carga emblemática que acompanha o projeto desde os primeiros momentos de concepção – e que é refletido nas sagazes escolhas artísticas de uma montagem irretocável e de uma fotografia inspiradora. O enredo principal é inspirado na infância de Branagh e, nos levando de volta para o final dos anos 1960, abre espaço para discussões sobre embates ideológicos que dominaram os unionistas e os separatistas irlandeses. E, nessa complexa atmosfera, a inteligência do filme é não deixar que tais conceitos históricos manchem a mensagem que se deseja passar – em outras palavras, não é necessário que os espectadores tenham conhecimento prévio, e sim uma disposição para compreender as múltiplas facetas que se escondem nas entrelinhas.



Buddy é centro de um coming-of-age mandatório que se alastra para os pais e para a comunidade em que se insere, funcionando como uma extensão simbólica do diretor. Caminhando pelas fases comuns a qualquer criança, o microcosmos que se ergue ao seu redor é guiado por uma crescente batalha civil que coloca em xeque os ensinamentos proferidos pela mãe (Caitirona Balfe) e pelo pai (Jamie Dornan): afinal, eles pertencem a uma família de protestantes que desfruta de convivência com vários católicos, todos aglutinados em uma espécie de cortiço que também se move como um personagem. Buddy vai à escola, faz traquinagens, ama ir ao cinema e ao teatro – mas de que tudo isso adianta quando a realidade a que está acostumado é tão efêmera quanto o tempo?

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Cada sequência é arquitetada a partir dos olhos da inocência, de uma persona que começa a ter ciência do mundo que o cerca. O ritmo da narrativa é alicerçado nos preceitos formulaicos do gênero dramático – mas não pejorativamente, pelo contrário: abre-se espaço para uma cinebiografia que serve como encerramento e recomeço, uma brusca divisora de águas que antecipa o amadurecimento da personalidade de Buddy e das gerações que o antecederam, incluindo da avó (Judi Dench) e do avô (Ciarán Hinds). Maravilhado pelas estreitas ruas recheadas de vizinhos, ele compreende que nem todos têm intenções benévolas (como Billy, encarnado por Colin Morgan) e que a cautela é uma das chaves para uma vida longa e próspera. Não é surpresa que, conforme os atos se concluem, abandona-se um gostinho agridoce de uma infância imaculada que não voltará mais.

Mesmo com alguns deslizes, a obra não pode ser descrita com outro adjetivo além de soberbo. A estética clássica parece reunir incursões das várias eras do cinema, sem deixar que o mimetismo fale mais alto e sempre prezando por algo que o torne diferente – seja pelo uso nostálgico do preto e branco, seja pelo proposital excesso de simetria que reduz o impacto do cenário e canaliza nossa atenção ao elenco. Além de Hill, Balfe comanda um espetáculo performativo de tirar o fôlego, dominando todas as cenas em que aparece; Dornan quebra o estereótipo construído em cima de suas rendições e faz um trabalho igualmente fabuloso – e não precisamos nem comentar sobre a presença indescritível de Dench e Hinds. E, no topo de tudo isso, temos uma poética e colorida imagética que se restringe às apresentações de ‘Um Conto de Natal’ e ‘O Calhambeque Mágico’, como se a arte fosse a válvula de escape de Buddy em relação ao que está experenciando.



Dizer que Belfast é uma das surpresas do ano é não confiar em todas as fichas que Branagh aposta em seu apreço pela direção e pela contagem de histórias. Depois de ter feito um enorme sucesso nos principais festivais do mundo, o longa-metragem celebra a família e encontra felicidade em meio a um crescente desespero que questiona o próprio funcionamento da sociedade.

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