Kristen Stewart alcançou sucesso mundial ao interpretar Bella Swan na franquia ‘Crepúsculo’, que, apesar de conquistar os fãs dos livros originais, eternizou-se por todos os motivos errados – e construiu uma imagem completamente equivocada do talento da atriz. Desde então, Stewart se jogou de cabeça em diversos projetos em que demonstrou sua versatilidade e sua paixão pelas artes performáticas, como ‘Para Sempre Alice’, ‘Café Society’ e ‘Personal Shopper’. Mas nada poderia nos preparar para a memorável tour-de-force que encabeçaria com o ambicioso projeto Spencer, que finalmente chegará aos cinemas brasileiros no próximo dia 27 de janeiro.

A história é centrada na icônica Lady Diana, Princesa de Gales, que se tornou um dos membros mais conhecidos da família real britânica. É claro que a persona de Diana foi levada diversas vezes ao cinema e à televisão, com Emma Corrin encarnando a versão mais recente da monarca – então o que mais uma cinebiografia teria a nos oferecer? Felizmente, todas as expectativas foram supridos com um profundo e inesperado retrato de uma das figuras mais marcadas na cultura pop, com uma rendição de Stewart que a coloca no centro dos holofotes para conquistar a cobiçada estatueta de Melhor Atriz no Oscar – além de provar que ela é uma incrível performer e deve ser exaltada em suas facetas.



Diferente do que poderíamos imaginar, a trama não parte do óbvio e não se limita às fórmulas do gênero cinebiográfico; pelo contrário, restringe-se a um período que se estende por três dias, começando em 22 de dezembro até o Natal. A obra começa com Diana dirigindo seu carro em uma longa estrada, tendo se recusado a acompanhar a família de seu marido e tirado um tempo para refletir sobre seu papel nela. Não é surpresa que ela tenha se atrasado para as primeiras celebrações e atraído olhares tortos da rainha (Stella Gonet), do esposo (Jack Farthing) e de um mordomo invasivo (Timothy Spall), que não a tratam como igual, e sim como uma pessoa inferior que não tem modos e que age como bem quer. Mas a verdade é que Diana, enfrentando a pressão de não poder ser uma mulher normal, é forçada a esconder sua identidade e postar-se como uma marionete sem vida e desejos próprios.

Talvez o aspecto mais interessante do longa-metragem, além da interpretação aplaudível de Stewart, seja o fato de ser comandado por Pablo Larraín, um dos realizadores mais únicos da contemporaneidade. O cineasta já havia nos presenteado com Jackie, que exaltou o poder escondido da ex-primeira-dama estadunidense Jacqueline Kennedy – e os corolários de ter perdido o marido. Da mesma maneira que o título de 2016, Larraín desconstrói a imagem midiática de Diana e a pinta com uma humanidade que mistura fábula e suspense fantasmagórico. Enquanto é notável que alguns eventos são inventados em prol de um ritmo mais lancinante, a protagonista é caracterizada como uma mulher que todos conhecemos – mãe, dona de casa, movida por vontades que é obrigada a esconder para agradar àqueles a sua volta.

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Nesse quesito, o roteiro assinado por Steven Knight, que já emprestou suas habilidades para ‘Peaky Blinders’ e ‘Taboo’, faz um trabalho exímio de causa e consequência. Diana lida com uma bulimia que drena suas forças e que a torna alvo de repulsa por aqueles que se consideram perfeitos e sem erros – algo que é traduzido com simbolismo chocante na sequência em que ela come as pérolas de seu colar. O drama familiar é adornado com uma epopeia que se resume em um proposital anacronismo, em que Diana se vê na figura de Ana Bolena, uma das antigas monarcas da Inglaterra que foi decapitada por também falar o que pensava. E, apesar de parte dos espectadores acreditar que não há necessidade para tais incursões, metáforas se escondem nas entrelinhas e provam que a suposta “rebeldia” da princesa é uma resposta psíquica às pressões que sofreu desde sempre.



O filme brinca com contradições de modo sagaz o suficiente para nos deixar intrigados – e nos fazer querer descobrir como a narrativa irá terminar. O palácio localizado em Sandringham é erguido como um paraíso perdido, brilhando em paletas reluzentes e uma fotografia onírica que nos guia a um lugar, mas prepara uma reviravolta brusca. A névoa encobre as verdadeiras intenções daqueles que residem em Sandringham e, quando desmascaradas, percebemos que esse éden é apenas uma miragem para um pesadelo interminável. Diana é engolfada em um turbilhão emocional que a deixa à beira de um colapso – isso é, até compreender que o que importa não é o seu legado como membro da realeza, e sim como pessoa, mãe e amiga (e nesse quesito menciono o apaixonante relacionamento entre ela e sua confidente, Maggie, vivida por Sally Hawkins).

Spencer é uma obra de difícil digestão por não se valer dos convencionalismos do gênero, e sim apostar em pulsões intimistas que cobiçam a um retrato mais poético a que estamos acostumados. O enredo tropeça aqui e ali, mas a atuação hipnótica de Stewart é o que realmente vale a pena – e o que nos faz comprar o ingresso para essa jornada.



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