O aspecto mais previsível da carreira de Lady Gaga é sua imprevisibilidade. Afinal, ao longo de seus doze anos na indústria do entretenimento, um dos maiores nomes da história da música já passou pelo cativante pop raiz, brincou com os elementos do electro-rock, reviveu os sintetizadores que viralizaram nos anos 1970 e 1980, aliou-se com o jazz e familiarizou-se com country. Sendo uma das pessoas mais premiadas de todos os tempos com centenas de estatuetas do suprassumo da esfera artística, os fãs não podiam deixar de sentir um gostinho agridoce na boca ao ver sua diva se afastar com tanta brutalidade do gênero que havia lhe colocado nos holofotes, mesmo que isso tenha apenas provado sua versatilidade irretocável.

Quatro anos depois do intimista ‘Joanne’ – que, apesar de não ter caído no gosto popular, levou para casa um gramofone dourado pela rendição acústica da faixa titular -, Gaga decidiu retornar ao pop com um estrondo previsto por muitos, mas diferente de tudo que esperávamos. Aliando-se com elementos populares do final do século passado e criando até mesmo um universo inteiramente novo (cujo nome é emprestado do próprio título do álbum), a artista nos convidou para uma sinestésica e dançante jornada em Chromatica: a obra, sua sexta incursão solo, é simplesmente uma das melhores rendições em muito tempo, entregando muito mais do que qualquer um poderia pedir.

Ao longo da pesada divulgação e promoção do CD, a performer nos presenteou com o impactante single “Stupid Love”, um exuberante synth-pop oitentista que concretizou sua volta às raízes com uma batida envolvente e versos fáceis o suficiente para serem levados para os night clubs; o hino house-pop “Rain On Me”, marcando colaboração com Ariana Grande em um metafórico tour-de-force que tornou-se uma das melhores músicas de 2020; e a incursão deep house com o grupo BLACKPINK, “Sour Candy”, cujo resultado final pode ter sido um pouco inconstante, mas manteve o nível sonoro nas alturas e continuou cultivando no público um sentimento de retomada imagética que há muito era desejado. Entretanto, por mais que as faixas tenham nos dado um gostinho dos ressonantes ideários que a cantora e compositora pretendia trazer para um conturbado ano, nada se compara à sensorial e transcendental (em suas devidas proporções) experiência de ouvir o conjunto em si – cuja profundidade é bem maior do que se esperava.

Chromatica se inicia com um perfeito interlúdio (cuja prévia já foi mostrada em fevereiro), adornado com um conceito extremamente clássico e orquestral que casa com “Alice”, uma forte track carregada com simbologias de reencontro e da volta a si mesmo – o que é bem pertinente, considerando que Gaga está fazendo um convite aberto a uma autocompreensão intimista detalhada com clareza em batidas e beat drops incríveis. Um pouco mais para frente, ela nos mostra a versão finalizada e melhorada de “Free Woman” – e, ainda que a demo tenha vazado algumas semanas atrás, nada poderia nos preparar para o banquete sinfônico preparado com cautela.

A cada canção, percebe-se que a inusitada parceria assinada com BloodPop funcionou em todos os aspectos: comandando o poderoso e inebriante liricismo, as peças sintéticas, mergulhadas sem escrúpulos em autotunes e dramatizações robóticas (nos relembrando de ARTPOP inúmeras vezes), fornecem uma dúbia interpretação. Mostra-se, à medida que viajamos através desse colorido e vibrante mundo, o apreço pela estética instrumental dos anos 1980 e 1990, principalmente para as vanguardas do europop e do disco-dance. E, seguindo os passos de outras figuras, Gaga mantém-se verdadeira à sua identidade única e cria uma obra-prima, uma vendeta pessoal para aqueles que declaravam sua morte artística há alguns anos.

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Um das configurações que mais nos chama a atenção são as minúcias anacrônicas e as inflexões das quais a performer dispõe para fazer o que bem entende. Quando Chromatica II’ e ‘911’ unem-se em um viagem no tempo e futurista, estamos prontos para algo original e arrefecedor; está última canção, por exemplo, é uma ode mimética à aclamada dupla Daft Punk, cujas linhas europeias são trazidas para o mainstream norte-americano com um peso eletrônico que converge e diverge ao longo de menos de três minutos. Enquanto isso, “Plastic Doll” é uma explosiva crítica à cultura pop e à objetificação e rotulação de artistas que desejam apenas mostrar o que têm para o mundo sem serem confinados a caixinhas intransponíveis. Novamente, a complexidade vai para muito além da sensorial atmosfera, trazendo reflexões atribuladas e bastante pertinentes para o momento em que vivemos.

O pecado de Lady Gaga é nos deixar querendo por mais – e talvez esse pecado seja expurgado em um piscar de olhos, seja quando nos deliciamos com a envolvência gritante de “Enigma”, com a viciante balada desconstruída “Sine From Above”, proferida ao lado de Sir Elton John (e a melhor colaboração do álbum, indiscutivelmente), ou com a elegíaca house pop que ganha forma com “1000 Doves”. E, em um complementar ápice, “Babylon” é uma conclusão sem quaisquer defeitos que nutre de similaridades progressivas com as icônicas produções dos anos 1990, apesar de pincelá-las com um dêitico coro gospel que não poderia ter vindo em melhor hora.

Chromatica era exatamente do que precisávamos em 2020: uma narcótica adição ao que apenas se pode dizer de um dos melhores anos para a música – e um comeback digno de uma lendária que ainda tem muitas histórias para nos contar.

Nota por faixa:

  • Chromatica I – 5/5
  • Alice – 5/5
  • Stupid Love – 4,5/5
  • Rain on Me (com Ariana Grande) – 4,5/5
  • Free Woman – 5/5
  • Fun Tonight – 4,5/5
  • Chromatica II – 5/5
  • 911 – 5/5
  • Plastic Doll – 4,5/5
  • Sour Candy (com BLACKPINK) – 3,5/5
  • Enigma – 5/5
  • Replay – 5/5
  • Chromatica III – 5/5
  • Sine from Above (com Elton John) – 5/5
  • 1000 Doves – 5/5
  • Babylon – 5/5
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